Por entre ruas estreitas

Outro dia me peguei pensando e sonhando o sonho dos outros, me imaginei em uma outra realidade, onde todos a minha volta tinham quase tudo o que queriam.

“Quase tudo”, por que neste meu sonho ou devaneio, havia algumas regras tais como: não desejar o que é do outro, não querer destruir ninguém, não desejar algo que servisse de trampolim para saltar sobre o outro esmagando-o, e principalmente não deixar que o sonho o transformasse em alguém incapaz de sonhar mais.

Nesse meu “sonho” era possível ter tudo o que se pudesse sonhar, desde que o desejo fosse motivado por paixão, alegria, vitória, o sonho só seria possível diante de bons sentimentos.

É confuso imaginar certas coisas, afinal de contas o que você faria se a vida lhe desse aquilo que você mais sonha?

Fui caminhando pelas estreitas ruas desta minha imaginação, na penumbra da noite avistei uma mansão em festa, um amigo havia acertado na loteria, seu sonho era ser rico, ter bons carros, casas, quando ainda desprovido desta condição dizia que queria ajudar ao próximo, enriquecer a vida alheia de uma esperança gratuita que só faz fazer bem ao coração de quem a distribui; quando me avistou a porta me abraçou dizendo: “Entre minha cara! Coma, beba, é tudo por minha conta, é tudo meu!”; era nítida a arrogância e prepotência que o dinheiro havia lhe dado, rodeado por falsos amigos que só estavam ali por interesse tratava a todos como mais uma das “coisas” que seu brinquedo de papel timbrado pode comprar, quando o indaguei sobre suas obras em prol do outro, ele gargalhou dizendo: “ora que outro?”, olhando fundo em seus olhos em silencio, com o desapontamento estampado na face, o fiz lembrar das promessas que seu próprio sonho havia lhe tirado, ao derramar uma lagrima, estava novamente na rua estreita, e no local da casa onde acontecia a festa não existia mais nada.

Atravessei mais algumas ruas, e ao dobrar uma esquina me deparei com um rosto amigo estampando em um outdoor, a placa abaixo da casa de shows indicava que o espetáculo iria começar, corri para o guichê onde a atendente me informou: “você teve sorte, a casa esta lotada, esse era o ultimo lugar”. O deslumbre por aquele sonho realizado era nítido em meus olhos, quantas e quantas lutas haviam sido travadas até aquele instante onde ao abrir das cortinas tudo parecia ter acontecido como em um passe de mágica. A platéia aplaudiu de pé, fotógrafos correram para o camarim, fãs se amontoavam para conseguir ao menos lhe ver de perto, queria apenas lhe dar um abraço que lhe diria o quão orgulhosa eu estava, porem um de seus assessores ao retornar do camarim depois lhe dizer que eu estava ali, me entregou apenas uma foto com um autografo, lembrei de seu antigo “eu” que me prometeu que estaríamos sempre juntos, mais uma lagrima voltou a cair de meu olhar, com isso retornei a rua estreita, no lugar da casa de shows não existia mais nada, e o outdoor que antes estampava seu rosto estava em branco.

Passei por mais algumas ruas, casas, luzes acesas, deparei com alguns amigos que continuavam do mesmo jeito e pensei: porque eles não haviam realizado seus sonhos, querendo esquecer-me das regras primarias sabiamente impostas para aquela concessão maluca.

Continuei caminhando, quando me deparei com uma rua sem saída, onde havia uma única casa com um vasto jardim de frente, repleto de bancos, estatuas, flores, quando você me avistou correu ao encontro do meu abraço, agradecendo-me por eu ter sonhado, por eu ter mantido em mim, em minhas orações o desejo de aquele seu sonho se realizar, na verdade não sabia qual era seu maior sonho, cada um que havia sido agraciado por sua conquista havia se perdido, mas você não, continuara o mesmo, foi quando o indaguei, e então desta vez a lagrima não partiu de meus olhos, mas sim do seu choro agradecido que respondeu a minha pergunta com um sorriso emocionado:

_ Meu maior sonho era o de encontrar o verdadeiro amor, eis que estou diante dele, pois ao amar verdadeiramente desejamos apenas que todos os sonhos do ser amado se tornem realidade. O seu amor realizou o meu maior sonho, o sonho de se saber ser amado.

Sublime seja o amor, que de tão generoso deseja que o outro conquiste a felicidade de ter seus sonhos realizados.

D.S.L

Aplaudir o que?

Essa semana o mundo quase que por completo comemorou o assassinato do terrorista mais procurado pelos quatro cantos da terra.

Americanos saíram às ruas estampando sorrisos, cantando, bebendo, como um pais em festa quando algo de muito bom lhes é acontecido após uma longa espera.

Alivio, vingança, justiça, sentimento de alma lavada.

Foram dez anos desde o mais triste e tenebroso ataque.

Naquele onze de setembro o governo dos EUA, seu povo americano, e todo o resto do mundo, se deram conta do quanto somos vulneráveis.

As torres gêmeas que desabaram sobre inúmeras cabeças deveriam ter causado um impacto diferente, o mundo deveria ter parado para pensar no por que de tanto ódio, ao contrario partiu pro ataque, quadruplicando o numero de mortes, causando ainda mais caos, alimentando a ira, a revolta, enterrando centenas de milhares de inocentes, muitos deles fardados, defendendo uma bandeira que serviria mais tarde para cobrir o próprio tumulo, não acredito que tenham morrido pela pátria, mas sim pela ignorância de um governo que quer o poder a todo custo.

Afinal de contas qual o motivo desta guerra, qual a verdadeira motivação para tantos ataques terroristas?

Creio que depois de tantos anos, nem mesmo eles sabem mais o porquê, guerreiam, pois em suas vidas não resta mais nada a ser construído, a não ser a própria destruição.

Bin Laden morreu. Covardemente? Sendo covarde até o fim ao usar a mulher como escudo para sua defesa? Terá reagido? Terá se entregado? Morrera com um tiro na cabeça?

As fotos espalhadas pela internet são de fato de seu corpo?

Bin Laden morreu, e seria justificada toda essa euforia e alegria, se com ele enterrássemos o medo que cerca a todos nos, quando mentes doentias e covardes tomam coragem para explodir pessoas, matar inocentes e espalhar o terror, se com ele tivéssemos matado toda maldade que de fato assola o mundo, em prol de um poder burro, que nos faz caminhar cada vez mais de encontro a ignorância, com toda certeza teríamos o que comemorar.

Como muitos, não vejo patriotismo algum em guerras, não tem justificativa invadir um pais para tentar implantar nele o modo de vida que tomamos para nos mesmos como correto, acho valido quando uma nação tenta se libertar de um governo tirano que escraviza seu povo a violência, a falta de liberdade, calado, sem direito de escolha.

Matar Osama Bin Laden, foi “um tiro no pé”, pois agora se o motivo para ataques terroristas havia de certa forma adormecido, o despertamos com o fechar dos olhos da morte inútil de apenas um homem entre tantos outros que se acham no direito de matar inocentes em resposta e para justificativa daquilo que eles acreditam, e lutam imbecilmente para obterem força, poder e gloria.

Bin Laden foi apenas mais um, entre tantos que morreram, e infelizmente não será o ultimo, pois o mundo continua em perigo, vulnerável a tantos outros que trabalham para que a destruição jamais pare.

Enfim, qual o motivo da comemoração, se nada vencemos!

D.S.L

O que sobrou?

O que sobrou?

A pergunta é: o que fazer com tudo o que sobrou? Fotos, cartas, musicas, sei já ter me feito essa pergunta em outras tantas historias que tivera um ponto final, porem dessa vez tudo parece ter um peso e uma forma diferente, faz sentido, pois o desgaste se acumula com o passar dos anos.

Até quando o mundo continuara assim cinza, e o coração despovoado, desocupado, como um terreno baldio? Até onde me sentirei fora de mim, como se estivesse em uma outra esfera de realidade?

Comparo-me a uma casa antes cheia de moradores, que faziam festas, cuidavam do jardim, reuniam-se para ver o céu, conversar, contemplar a vida, e que de repente vê seu jardim ser invadido por uma espécie de erva daninha que consumiu as rosas até a raiz, a sua porta um penetra entrou na festa desligando o som, rabiscando as paredes com carvão, enchendo as janelas de pregos para que ninguém mais pudesse debruçar durante a noite para admirar estrelas.

Quero falar do vazio que fica, dessa vontade que aperta a garganta quando nos recusamos a chorar, falar desses suspiros aos céus pedindo a algum anjo que leve embora sentimentos que não podem mais existir, quero uma estrada longe dessa casa, um novo caminho, onde eu não queira se quer olhar pra trás, por saber que ao olhar pra trás a vontade de não seguir em frente poderá congelar meus passos, atrasando o tempo que tenho para ir em busca de mais um parágrafo dessas minhas historias tão desencontradas.

Tenho medo de deixar de acreditar, de um dia não mais conseguir sentir, e então caso isso aconteça o que afinal de contas será a vida pra mim? Medo das unhas cada vez mais corroídas pela ansiedade, tenho andado a observar as pessoas como se eu pudesse ver e sentir através delas, e quando as vejo sorrir e serem leves, distantes dessas coisas todas que me atordoam e que buscam explicações, jamais desejei ser como elas, alheias a própria falta de sorte, porem muitas vezes quero desprender-me dessas coisas todas que tanto me cansam.

Queria ser aquele tipo gente que caminha vago pelo mundo, fingindo não ter problemas, não sendo incomodado por coisa alguma, queria como tantos outros encher a cara de remédios que dão sono, que acalmam os pensamentos, mas que jamais são capazes de curar o coração, preenchendo esse vazio que todos nos temos quando nos vemos sozinhos, diante de um mundo cheio de pessoas alienadas que se quer se dão ao trabalho de buscar um sentindo o qual se faça valer a pena tão somente respirar.

D.S.L

Somente uma historia

Nada disso me adianta agora, esse teu apanhado de frases feitas, e respirações profundas entre uma palavra e outra de nada me convencem. Não quero ouvir de ti todas as tuas razões para que eu mude de idéia e abra a porta novamente, nem mesmo te encontrar , seria ainda pior ver em teus olhos o espelho dessas palavras dissimuladas.

Cansei das tuas historias desencontradas, das confusões de tua cabeça, o amor pra ti muda de lugar depressa demais e isso pra mim é muito perigoso, essa tua carência inesgotável, tuas afirmações que não chegam a ser mentirosas, porem de nada adiantam agora, pois já não acredito em nenhuma delas.

Fechei a porta, mas antes de trancá-la te empurrei pra fora, não quero você martelando no meu coração essas lembranças que não nos levarão a lugar nenhum.

O caminho que temos a percorrer dessa vez é o do esquecimento, até mesmo para que não se extermine de vez as boas lembranças de quando ainda vivia em mim a esperança de ter enfim te encontrado.

Não deu certo, e por mais esforço que você faça para tentar colar o que ainda resta, não tenho mais disposição para andar por ai carregando no peito um coração desenhado, refeito por retalhos.

Meu silencio diz respeito a não ter o que lhe dizer, não faz sentindo essa tua luta, vez que ainda continuas sendo a mesma pessoa que eu quis deixar partir.

Meu tempo de luto, recolhimento vem chegando ao fim, o sol dessa manha brilhou em meus olhos novamente como naquele outro tempo antes de ter você.

A vontade de estar viva, viver, e sorrir é renovada em meu peito, assim pretendo voltar a caminhar livre das amarras de tuas lagrimas acusadoras querendo me fazer carrasca de teu sofrimento.

Não há culpados, nem mesmo santos ou diabos, há somente uma historia entre duas pessoas que se amaram, mas que não deram certo, sem apelos sentimentais, ou dramas, a vida definitivamente tem que continuar, pois se de uma vez por todas não é me chegado ainda o tempo de viver um grande amor, quero com toda certeza e intensidade viver uma grande vida.

D.S.L

Lê-se: “…”

Malditos sejam todos os discursos e falsas esperanças que nós sem exceção, penduramos no pescoço assim como placas de transito que indicam a direção da onde queremos ir, ou levar alguém.

São as típicas frases de efeito de todos os começos: “estou em busca de alguém especial”, “quero ter alguém com quem compartilhar a vida”, “amar e ser amado”, “viver um grande amor”, e por ai vai.

Todo relacionamento começa assim, mesmo que a intenção seja tão somente uma noite e nada mais, é como se as pessoas tivessem se acostumado a dizer isso a qualquer um.

E ao contrario do que acontece na maioria das vezes, estes mesmos relacionamentos deveriam terminar ou não terminar, com o mesmo empenho e louvor o qual essas frases foram implantadas.

Por que não dizer a verdade? No estilo: “sou sincero”, deixando as coisas bem claras desde o inicio: “olha não estou a fim de nada, te achei legal, você é bacaninha, cheira bem, trabalha, é decidida, determinada e talvez me ajude a encontrar um sentido pra minha confusão, por que até agora acho que vim ao mundo a passeio”, ou então: “você beija bem, tem um bom papo, tem como a gente ir pra cama de vez em quando sem nenhum compromisso?”, mais ainda: “sou cínico, dissimulado, não acredito de fato em sentimentos, não vou ficar com você pra sempre, nem te levar pra jantar, nem viajar com você no dia dos namorados, não vou ser nada daquilo que você espera, quer ficar comigo?”.

Seria tão mais fácil, verdadeiro, humano até, todo mundo tem o direito de não acreditar no amor, de não querer compartilhar nada na vida com ninguém, tem-se o direito de querer se satisfazer indo pra cama com todo mundo deixando de lado esse “negocio” de fidelidade, respeito, companheirismo, fazendo da própria vida uma só confusão, sem mentiras, sem rodeios, ou machucando quem não merece, quem ao contrario ainda acredita em tudo isso.

Não é fácil cumprir promessas, não é moleza encarar um relacionamento a dois, e se não se estiver disposto a ceder, a pedir desculpas, a sonhar, e principalmente a medir conseqüências dos próprios atos para não machucar o outro, é preferível que não se de o primeiro passo, é preferível não ligar no dia seguinte, não fingir, não prometer.

Criou-se essa falsa cultura de que é preciso ter alguém a “tira colo” custe o que custar, sendo que nem todo mundo quer de fato ter alguém, o amor não é pra todos, nem para poucos que aparentemente parece merecê-lo, o amor é pra quem de fato quer amar, é idolatra deste prazer bobo de fazer o outro feliz, o amor é muitas vezes uma negação da própria existência, não podendo nunca ser confundido com banais futilidades egoístas, o amor não nasce para ser feito de bobo, e amaldiçoados serão todos os que um dia tomaram um coração com essa triste finalidade.

Deve-se tentar, deve-se tentar e tentar, e amar, e pelejar, e sofrer, e sentir, e desgastar-se quantas vezes forem necessárias, pois vale a pena se de fato o coração estiver embriagado de uma doce vontade de amar, de se ter um chamego, um carinho na alma que se deseja pra sempre, o que não vale é dissimular, colocando placas no pescoço com direções que não levam aqueles que as lêem a lugar algum, ao contrario fazem com que os caminhos se percam, tirando de passos sinceros até mesmo a vontade de caminhar.

Não carrego placas com falsas promessas, alguns me lêem e se confundem por si só, não indico direções, nem caminhos, lê-se em mim a seguinte frase: “caminha comigo, juntos decidimos aonde podemos chegar”.

D.S.L

Do que é feito o mundo?

Como? De quanto? Do que é feito o mundo?

O mundo é feito de pessoas indo e vindo, sem saber pra onde, muitas vezes nem por que, feito do vento que melodia os ouvidos, espaços vazios, feito de horas controladas por ponteiros que não se cansam de circular.

Do que é feito o mundo?

De passos apressados em calçadas apertas, cheias de rachaduras, o mundo é feito de gente que não combina roupa e de outras que combinam tudo, o mundo é feito de conversas ao celular, ônibus lotado, sinais verdes, dias que terminam com chuva fina, transito, barulho. Feito de ruídos, gritos, sussurros. Do que é feito o mundo?

Gente que morre de repente, e desaparece deixando um vazio assombroso capaz de silenciar tudo por segundos.

O mundo é feito de saudade?!

Do que é feito o mundo?

De pessoas que desistem de tudo, enlouquecem e acordam no chão despertando para uma vida que já não existi, feito de corpos sem alma que vagam em silencio, de pensamentos fortes, de obviedades, caretas recalcadas que torcem o nariz para quase tudo.

O mundo é feito de passos, de laços inexistentes que terminam sozinhos no escuro, o mundo é feito de fotografias rasgadas, de gente cansada, que corre, corre em busca do nada.

Do que é feito o mundo?

Pessoas apavoradas, devoradas por uma onda gigante tão enorme quanto o desejo humano de destruir, de machucar, iludir, enganar, o mundo é feito de gente que bate em doente, em idoso, que abusa de criança.

Do que é feito o mundo?

De óculos escuros que protegem a visão do sol, mas não desintegram a vista obscura de quem você é.

Do que é feito o mundo?

De mãos tremulas que roem unhas, de cabelos loiros, de cabelos lisos, de gente querendo aquilo que nunca terá, sonhando com o que não chega, o mundo é feito de apostas com a própria vida, feito de dor, de tristeza, de fé aos pés da santa que advoga sem argumentos por pecadores com cada vez mais pecados.

O mundo é feito de historias repetidas, de amores corrompidos pelo interesse, olhares perdidos em busca de algo que os possa nortear.

Do que é feito o mundo?

De ingleses, russos, chineses, angolanos, gente que não conheço.

De estrelas, de céu azul, de raios de luz que irradiam a vida nas manhas onde Deus parece sorrir. Terços, oferendas, encomendas, preces, procissões, querubins, espíritos, do que é feito o mundo?

Será ele feito desse vão que se forma entre a terra o céu e o mar?

Será o mundo uma grande e infinita rede social onde não cabem tristezas, mas somente fotos que demonstram uma beleza desinteressante e efêmera.

O mundo, o mundo é feito de que?

Trabalho árduo, restos de construção, mãos empoeiradas, sonhos esquecidos, o mundo é feito de voz e violão, desse pouco cuidado com tudo o que não nos pertence.

O mundo é visto do alto, ou do chão?

Eu quero um poema que fale, um poema que grite tudo o que meu olhar não derrama, tudo o que não consigo decifrar em rima.

Terá o mundo ainda quantos mais anos de vida?

Será que o mundo é vida, ou a vida é o mundo, ou nenhum dos dois é coisa alguma?

Do que é feito o mundo?

Feio, bonito, corajoso, inseguro, pânico, euforia, desespero… Um coração partido, um telefonema não dado, uma rua, uma luz, um sorriso?

Será o mundo feito de medo, será tudo uma ilusão, será invenção da morte para enganar a vida, enquanto tudo não termina, será o mundo passageiro e nós pilotos dessa nave desgovernada que nunca para. Será o mundo um quadro, mas quem afinal o admira do outro lado da parede?

O mundo fede, o mundo cheira, em que lado do bem estamos, de qual lado do mal nos calamos?

Do que é feito o mundo?

De crianças, de mães, de cachorros, será o mundo televisão, antena parabólica? Será o mundo uma estrela que deixou de brilhar depois de ter sido habitada?

Do que é feito o mundo? De horas agitadas a espera de ir pra casa? Será o mundo uma noitada, um infinito porre e a vida uma grande ressaca?

Do que é feito o mundo?

Será feito do segredo que se perdeu frente ao espelho no tempo em que eu era alheia a tudo?

Do que é feito o mundo?

D.S.L

Promessa cumprida

De acordo com as previsões astrológicas nossos signos formavam um ângulo harmonioso com os demais astros do universo, portanto seriamos uma boa união cósmica, onde os astros estariam de acordo com o que haveria de acontecer aqui na terra.

Conhecemos-nos na primavera, onde tudo floresce, nasce, cresce, desenvolve, uma estação que me encanta, renova esperanças. Você parecia a brisa que eu tanto esperava para acarinhar meu coração.

Os anos de minha idade a tua frente a principio serviriam de ensinamento, experiência, segurança, mas na verdade quem a todo o momento estava completamente desprotegida era eu.

Apesar de todas essas inclinações favoráveis, o que me unia a você era essa louca vontade de se pertencer a alguém, de se derramar num abraço, lançando-se uma vez mais do alto mais alto, sem ter o cuidado de refletir se lá embaixo havia ao menos rede de proteção para amenizar a queda, ou uma cama de colchão macio que repousaria meu corpo nas noites em que não mais estaríamos juntos.

Mais tarde as contas seriam refeitas e a equação a ser resolvida seria algo como: doação vezes tempo, dividido por razão, menos falta de comprometimento, igual a mais uma historia de tantas outras que terminam da mesma maneira.

Parece simples, mas de fato ainda não sei o que deu errado, foram tantos os erros, assumo meus pecados, confesso-os ao travesseiro, choramingando pelo perdão, e sussurrando: minha culpa, sim, minha culpa, pois eu sabia que esse sonho não havia sido feito pra durar, um dia eu iria acordar, encarar a realidade e conscientizar-me de que você não era a pessoa certa pra mim, queria ter acordado enganada, ou não ter acordado, e assim prosseguir sonhando que a minha busca enfim de fato havia chegado ao fim.

Irei ver você seguir sua vida, a minha tomara também outro rumo que ainda não sei, aposentei minhas velhas pretensões, e inspirações, hoje em paz, voltei a caminhar sozinha, atenta as cores do mundo, aos sons dos céus, não pressinto o desejo ou a ilusão de uma nova chegada, pois mais uma vez sou tão somente partida.

Espero te encontrar feliz, proprietário de uma consciência nas coisas da vida, maduro, seguro de si, sem usufruir do indulto de teu passado tão recheado de feridas, encontrar-te sem vírgulas, ou engasgos no peito, anseio apenas que não guardes magoas de mim, pois de tudo a minha promessa foi cumprida, permaneci a teu lado apenas pelo tempo que nos foi dado para sermos felizes.

D.S.L

A frase que me desperta

Sempre imaginei que a grande “sacada” da vida era a própria vida, nesse emaranhado de anos, dias, horas. Acreditei que o amor pudesse ser uma coisa simples, e que a amizade um sentimento nobre que todos naturalmente carregam no peito.
Mas o que a vida nos oferece de mais interessante, não é a própria vida, mas sim o fato de que tudo é possível.
Todos os dias ao acordar penso: hoje tudo é possível.
Pode parecer loucura, mais ao sair de casa para o enfretamento de mais um dia, pinto em cores alegres esta frase no meu coração, para muitos uma grande ilusão, para mim o sentido de tudo.
Seja lá a situação boa ou ruim, tudo é possível, e o que mais nos amedronta nisso é que tudo independe de nossa vontade.
Essa semana, acompanhei o drama vivido por um pais atingido pela fúria da natureza, e imaginei todas aquelas pessoas com tantos planos e vontades, muitos deles destruídos por uma onda gigante, que chegou sem avisar.
Assim é a vida: incontrolável, avassaladora, única.
Sabemos do agora, e nada mais.
Aos que sobreviveram pouco restou, acredito que em um desejo final quiseram unicamente continuar vivos, para talvez fazer da própria vida algo diferente.
Quero dizer com tudo isso, que nos apegamos a coisas tão efêmeras, conheço pessoas que passam uma vida inteira, sem viajar, ou jantar em um bom restaurante, passear, fazer um curso de fotografia por capricho por pensar que algo assim é apenas um momento que passa, sendo que a vida nada mais é do que um momento, grandioso ou pequeno, é tão somente um momento.
De que nos adianta amontoar dinheiro, seja para a tão famosa “emergência”, seja para adquirir um carro, ou qualquer outro bem que se queira, certo que todos desejam uma casa, um carro, ou seja, lá o que for, porém não se pode viver unicamente para se ter, esse é o ponto, não se pode deixar de realizar pequenas coisas que estão ao nosso alcance para economizar, ou não gastar, considerando-as fúteis, pode-se ter tudo, só não se pode privar-se do primordial: da própria vida.
Muitas vezes nos arrependemos: “não devia ter feito isso”, “não devia ter comprado aquilo”, Deveria sim… Na verdade o importante é ter no coração o intuito de fazer melhor, de fazer bem, a conseqüência jamais nos pertencera, porem a consciência será pacifica, vez que se fez aquilo que lhe fora permitido.
Sei que muitas vezes nos falta coragem de arriscar, de tentar e até de sonhar, e de tentar novamente, e de persistir em um sonho mais uma vez, pois a vida para nos ensinar às vezes deixa de ser “mãe”, para ser “madrasta”, e assim nos maltrata, nos encolhe, nos devora, nos amedronta, fazendo com que carregamos no peito um coração machucado que jura a si mesmo não mais acreditar.
Deixando de acreditar, lentamente vamos deixando de sorrir, de sentir, de viver, de esperar o impossível, por vê-lo tão perto, de repente correr para longe novamente.
Permita-se, em nome de tantos, que por tantas coisas deixaram de viver, pense neles, em seus desejos que não mais poderão se realizar, nas pessoas que eles não poderão amar, nas amizades que não irão fazer, pense em todos aqueles que tiveram que morrer para que eu estivesse aqui refletindo sobre essas palavras com o coração cheio de uma esperança boba por estar tão somente viva, e que certamente a você que através dessas palavras tão obvias, junto a mim também se permitiu deixar o coração irradiar: vida, esperança e amor.
Viva!
D.S.L

Quarta Feira de cinzas

Eis que terminou o carnaval, para alguns o ano começara a partir de agora, hora de colocar os projetos em dia, executando as promessas de final de ano.

Despindo-se da fantasia e limpando o rosto da maquiagem utilizada para iludir, iludir a si mesmo que se pode ser em algum momento outra criatura, pertencente à outra historia, contada em ritmo de samba, repleta de uma alegria incapaz de vingar pelo simples fato de ser inventada.

A farra, a bohemia, o samba, o bamba, fazem parte de mim desde que me conheço por gente, já passei por muitos carnavais, os quais estive entregue ao espírito da folia, porem de alguns anos pra cá, este espírito folião tem dado lugar a calmaria, ao anti-carnaval, pelo fato dessa obrigação que a maioria se impõe de ser e estar feliz a qualquer custo, mais que isso, de fazer coisas inaceitáveis em nome da ideologia de que nesses quatro dias tudo é permitido.

Vejo várias pessoas perderem a civilidade, a dignidade, o humanismo e o respeito pelo próprio corpo.

Do divino ao profano, prefiro o meio termo, nem asas, nem chifres, trago-me imperfeita, consciente de varias qualidades, sem falsa modéstia louváveis.

Não posso me calar diante dos apaixonados pelo verdadeiro carnaval, aqueles que carregam o escudo de sua escola de samba, os que pensam que “cachaça é água”, e saem pelas ruas a brincar e brindar uma alegria espontânea e ingênua, onde tudo mais que se busca é divertir-se. A felicidade cansada dos baluartes do samba é possível ver nos olhos deles o orgulho do samba não ter morrido.

O carnaval mais uma vez se vai, nesta quarta feira de cinzas, com ruas ainda cheias de confetes, serpentinas, a vida vai voltando ao normal, o ano começa afinal, e todos nos ficamos aqui a espera de boas novas, e noticias que nos alegrem tanto quanto uma escola a ganhar o campeonato.

Enfim 2011!

D.S.L

Feliz Fantasia

Lembro do teu corpo sobre aquela chuva de confetes, serpentinas, as cores de tua roupa que coloriam aquela noite de carnaval.

Foi num momento de folia e alegria que te avistei.

Gostaria de saber antes que aquela seria a única vez, quisera que algum Pierrot ou Alecrim tivesse sido amigo e me avisasse que tu passarias por minha vida como um desfile de escola de samba que não tornaria a voltar, mesmo sendo campeão em meu coração, não houve outra chance de te reencontrar.

A batucada não permitiu que eu ouvisse teu nome, mas meu corpo sentiu o teu embriagado pelo calor da dança, teu beijo com gosto de álcool misturado a um hálito de cigarro, sambava entre tantos, mas sozinho conquistastes meu olhar, fostes teus os meus olhos durante todas as horas em que todo aquele povo permanecia em festa, eu com o coração parado, fora do ritmo me apaixonava por ti, por aquela loucura de carnaval.

Quisera eu que tivéssemos durado os quatro dias de folia, pois assim seriamos então daqueles amores que sabemos não serem feitos para durar, mas não nem teu nome eu saberia, essa seria então minha sina desde aquele carnaval.

Outros carnavais vieram, outras ilusões nasceram, mas o teu gosto, o teu beijo, o teu cheiro, seriam para sempre o que movia minha fantasia de folia, te procurei por muitas ruas, e te avistei em alguns momentos sem de fato nunca ser você.

Seria então essa minha paixão apenas mais uma entre tantas outras historias de carnaval? Bobeira minha esperar por você, não te esquecer, mas o que afinal fazer se você não saia de mim, restava-me chorar junto ao Alecrim, esperando por um personagem que talvez estivesse entregue no momento do meu pranto a outro.

Na ultima noite de folia, avistei você parado em minha frente, sorrindo esticou a mão, convidando-me para dançar, como fizera desde a primeira vez, sorrindo fui a teu encontro, e após o beijo que matou toda aquela saudade, ouvi de tua boca:

_ Afinal de contas, aonde foi que você pulou os outros carnavais?

Respondi encantada:

_ Aqui! A tua espera.

Tenhamos assim esse sonho de querer encontrar não só no carnaval, mas pela vida a fora alguém que faça em meio a tudo mais o coração parar e a alegria reinar, como a fantasia de uma chuva colorida de confetes e serpentinas.

Cultivemos em nos essa esperança de que a vida seja uma eterna lembrança de noites felizes há enfeitar nossos anos.

Sejamos livres e felizes pelas ruas, transformados em palhaços, pierrôs, alecrins, colombinas, sejamos quem sonhamos nestes quatro dias de folia, para que possamos conhecer e transformar a feliz fantasia desse momento num instante eterno para os demais dias do ano.

D.S.L

Ps: Beba conscientemente. Use camisinha. Divirta-se sem MODERAÇÃO