Ao bom velhinho!

Querido Papai Noel,

 

O senhor já deve saber que estamos em ano eleitoral, bem… Muito tumulto, muita polêmica, muita confusão, e pouco dialogo, o senhor acredita que tem candidato que não comparece a debates? Mas antes de mais nada, preciso explicar porque após tantos anos sem lhe escrever uma cartinha, voltei a acreditar novamente no senhor: por tudo que estou ouvindo nessas eleições, o senhor ficaria pasmo, porque tudo é tão improvável quanto a sua existência.

Prometo ser breve, mas vou lhe contar alguns casos: tínhamos um candidato  a presidência que está preso, e alguns tantos outros que também deveriam estar presos mas que foram eleitos. Contraditório, não é? Mas dizem por aqui que a lei é para todos… Seguimos.

União das Republicas Socialistas da América Latina, é uma tal de URSAL que até então não se tinha notícias, mas que veio a tona nessas famigeradas eleições, o senhor saberia me dizer do que se trata? Tem candidato que evocou “sinais”, o senhor saberia me explicar mais a fundo essa questão de “sinais”? Tem a candidata que não aparece nem de ano em ano igual ao senhor, só nas campanhas presidenciais, e este ano pasme ela conseguiu ser menos votada que o invocador da URSAL.

Papai Noel, dentre os candidatos há um que é um perigo a sua fofurice, um senhorzinho muito legal, o qual ofereço cargo para tornar-se meu vovô, não pretendo destituir o senhor de seu folclore, mas cuidado, todo mundo apela para ele quando a coisa aperta, igual estou fazendo esse ano ao lhe escrever essa cartinha.

Prometo ser breve em pedido, mas meu querido Papai Noel, fatos perigosos estão acontecendo; em pleno século XXI estamos fazendo uma mistura bombástica, a qual historicamente não deu certo: religião, militarismo, política, falta de diálogo, violência, armas, preconceitos, ocultação de reais intenções, machismo, autoritarismo, fala-se em autogolpe, fascismo, ditadura, enquanto pasme: há um candidato o qual a maioria acredita tratar-se de uma profecia divina, onde seu próprio nome invoca o salvador da pátria, quiçá do mundo – não ria Papai Noel – eu ouvi isso, é sério! Defendido cegamente, de maneira assustadora e assombrosa, sem argumentos, o qual será paladino da justiça, da moral e bons costumes. Querem elegê-lo para combater a corrupção, mas tínhamos outras opções, doze para ser exata, e o que me entristece meu bom velhinho, é que falta a essas pessoas que irão votar no tal “coiso”, assumirem seus próprios fantasmas: racismo, homofobia, machismo, violência, arrogância, autoritarismo, falta de empatia, humanidade, falta-lhes assumir que o outro pouco os importa, não sou gay, não sou negro, não dependo de programas sociais, como se o pais fosse igualitário, dando a todos as mesmas oportunidades, mas sabemos que o nosso “buraco” é bem mais em baixo. O que me entristece é esse discurso de ódio: insano, surdo e cego, o qual ecoara por muito tempo, pois muitas coisas foram ditas, e tais palavras não poderão ser apagadas, declarações fantasmagóricas saíram dos armários de todos nós, e esses fantasmas irão nos provocar muito medo por muito tempo.

Querido Papai Noel, não sei dizer se fui uma boa menina, mas meu pedido é breve: #elenao!

D.S.L

PAPAI NOEL

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Amor de bicho

Amor de bicho não fala, não lê, não entende.

Amor de bicho é sem razão, conhecimento, teoria, linhas tênues, mapas, destino, artigos, leis, palavras.

Amor de bicho apenas sente, apenas ama, e como os ditos racionais olha o ser amado, mas o enxerga estelar, luminoso, grande e indecifrável, é o amor do bicho.

Amor de bicho não condiciona, não pondera, não barganha, não comercializa, não racionaliza.

Amor de bicho acelera, cuida, protege, guerreia com gigantes, domina dragões, demônios saem em retirada como cãezinhos assustados diante dos olhos do amor de bicho.

Amor de bicho não ouve, não sabe, não quer saber, não quer entender.

Amor de bicho ama, e rasga, e chora, e dói pra sempre, porque amor de bicho é instinto, e não entende a falta do cheiro, não pondera saudade, amor de bicho é de mãe, de pai, de filho, de quem o coração escolhe, amor de bicho é maluco, entontecido, dilacerante.

Amor de bicho quer ser criança novamente, quer ser menina, precisa ser abraçada.

Amor de bicho no reencontro late, pula, rodopia, lambe, urina de alegria, mas amor de bicho não entende quando não há reencontro.

Amor de bicho é insano, desmedido, imensurável, amor de bicho só sabe viver.

Amor de bicho não esquece, não envelhece, não se adapta com o tempo.

Amor de bicho não diz adeus, amor de bicho só sabe esperar.

Amor de bicho não morre.

D.S.L

amor de bicho

O primeiro ato – A oração

Desde o útero fui agraciada pela fé, pelas mãos já envelhecidas que acariciavam o ventre daquela que me gerou, que me portou por ordem de olhos que não dormem, protegida em oração: fui entregue e consagrada.

Eis me aqui pareço de vidro mas não quebro, eis-me aqui pareço calar mas tenho todas as palavras e testemunhos, eis-me aqui com a verdade a assombrar, eis-me aqui diante do deposito de uma justiça que jamais tarda, que nunca falhara, pois sei em Quem creio.

Sou a brisa do amor, o frescor do sonho, desde sempre carrego em mim a oração, e é com ela que me defendo, me oriento, entendo e guerreio.

Faça silencio, pois vou orar por você. Sim! Irei orar por você, e que não lhe pareça deboche, ou sentimento pobre, que não lhe pareça perda de tempo, escárnio, ou brincadeira, RESPEITE, vou orar por você! Mas antes é preciso que algo simples seja entendido: essa minha atitude é o que nos difere, não sou feita da matéria podre que teu coração dissemina, não sou feita para honrar o ouro que tanto lhe cegou a ponto de perder algo que jamais retornara: o tempo.

Que Deus tenha misericórdia daquele que julga o sonho, do que cativa a esperança para destruí-la, do que se apossa de algo que não entende, valoriza ou cultiva. Foi clamando com os olhos vermelhos de dor que ouvi cada palavra proferida. Fui abençoada quando o coração seco, estarrecido pela ganância transbordou a sentença: jamais terás paz, nunca serás alguém, sonhos teus não serão possíveis; na tenra idade o silencio calou a dor, e a vida se encarrega de responder toda ofensa, ainda que o acusador aos olhos do seu pequeno mundinho fétido seja visto como vítima.

Olhe bem, olhe duas vezes se preciso for, atente não ao acusado, olhe para quem aponta, para quem sentencia. Cuidado com abraços fugidos, palavras amenas, amiúde, de voz que parece chorar, de uma fragilidade santa, que na imagem pura e sem mascaras oculta o mal. Cuidado ao cultivar erva daninha, o seu emaranhado demora a se desenrolar, mas a tudo alcança, pois, sua natureza nunca está satisfeita.

Que Nossa Senhora proteja os que julgam filhos alheios, e desconhecem o amor bicho. Que a mãe de Deus acolha filhos feridos por palavras mentirosas, enganosas, difamatórias, preconceituosas, machistas. Quando Pedro fala de Paulo, sei mais sobre Pedro que de Paulo. Que Maria, interceda por todos os que julgam a verdade de cada um, piedade advogada, pois somos todos pecadores, mas alguns se esquecem disso, e por esquecimento nem ao menos um telhado ainda que de vidro lhes restara, pois nada  poderá salvar dos raios justiceiros que recairão nas noites sombrias de tempestades a qual tua alma enfrentara.

Louvado seja o teu perdão, bendito seja o teu perdão, pois entontecida pela luxuria, pelo que não era amor, pelo que não se tem respeito a mesa, para paúra de todos os anjos servidão ao que lhe alimentava no sustento enquanto outro, pasmem, lhe devorava na cama suja, enlameada! Louvado seja o teu perdão por tanta vaidade, louvado seja o teu perdão por tanto egoísmo, por tanta intromissão, por tamanha dissimulação, pela psicopatia que lhe acompanha, por fingires uma devoção que não mais se sustenta, uma devoção que fechou os olhos, que não se conteve, que esqueceu do ato final. Louvado seja o teu perdão por tamanha falsidade, por tanta esperteza, por acreditar somente nos anos que se passaram e que realizaram todas as tuas vontades maléficas e destruidoras, louvado seja o teu perdão por tão ledo engano.

Paz ao coração do que afasta, do que semeia discórdia, do que oculta o sombrio desejo, do que desdenha da força do sangue, do amor verdadeiro, paz ao que impede o abraço, a presença, paz ao que se faz engolir a todo custo como se dissesse: sou maior que você, sou maior do que seu amor, sou gigante diante de tudo. Paz ao que comemora a destruição.

Que Deus tenha piedade das mãos que aplaudem ausências consentidas com dor, tristeza, choro. Piedade ao causador, ao motivo, ao silencio que protegia algo bem maior, desconhecido por aquele que não senti, seco de alma, seco de vida, de brilho. Apenas a inveja lhe reluz os olhos.

Que Deus me perdoe por todo o silencio, por essa oração tardia, pelo coração que agora navega revolto por tanta falta de respeito, que Deus perdoe a mim pelo anos de apatia, os quais poderiam ter lhe dado mais algum tempo, mas acima de qualquer coisa que Deus perdoe as suas escolhas impensadas que feriram os que mais lhe amaram, e os quais jamais lhe esquecerão.

Deus Seja Louvado

 

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  • Visão de Hamlet por Pedro Américo – 1893

Ah menino

Deram-me a dádiva de te ver em algum lugar do tempo, escolhi vê-lo menino.
Ao longe colocaram-me para te observar: franzino, de pernas secas e canelas russas, descalço na terra vermelha, no rosto uma mescla de sapequice, curiosidade e a naturalidade de tudo cabível a todo menino criado no mato, na roça, em meio a bichos e colo de mãe no fim do dia.
Levado, inquieto, perdido entre a grandeza dos pastos que se faziam seus, afinal, menino é dono de tudo aonde seus pés possam alcançar, e então você se fazia boiadeiro, fazendeiro, montador de cavalo bravo, numero um na corrida de assustar galinhas espalhando-as desorientadas entre suas gargalhadas. Especialista em derrubar fruta do pé, observador da arquitetura do João de barro, mas o canto que lhe prendia entontecido era o do Sabiá, a majestade! Leite fresco, quente, sem ferver, tomado na caneca esmaltada corroída pelo tempo, como consequência uma dor de barriga que o fazia rolar na grama verde com as pequenas mãos no colo até passar, pois bronca de mãe não tinha, era ela doçura infinita, jamais bronca, coça nem pensar, aquela Maria era só colo, só ventre, destino de amar, amar, amar; o próximo, o vizinho, o que lhe fazia mal, destino de amar seus meninos, os dos outros, amor universal, mas leoa brava, difícil de enfrentar caso ferissem ente querido, filho, neto, não podia zangar, não podia bater, ai de quem machucasse, mas cedo Maria fechou os olhos, e agora outra vez posso vê-la observar mais um menino seu que volta para seu colo.
Ah Maria… Bronqueia por mim esse teu menino, pois ele foi-se embora cedo demais.
Colhia jabuticaba no pé, e lhe encantava a elegância da moça ao agradecer sorrindo sobre o mau jeito do menino de colocá-las apertadas entre a camisa pequena que esticava com as mãos. Apanhava mangas, as mais doces, e escondido as oferecia a outra menina, essa baiana, de frente forte, mas coração justo, puro e amor verdadeiro, a sua nega, só dele! Colhia flores, as depositava em vaso velho jogado fora, e garantia o agradecimento de uma pequena, feita da menina que ele amou como filha.
Quanto a mim que o observava como se só restasse ele de menino nesse mundo inteiro, fui surpreendida pela sua corrida em minha direção, chegou sorrindo, agarrou minhas mãos e as beijou, com a voz embargada consegui agradecer, foi quando ele se debruçou sobre meu colo e nos abraçamos, pude acarinhar seus cabelos, beijar-lhe a face suada, pedindo em silencio que Deus o abençoasse, ele permaneceu quieto em nosso abraço, e o coração que antes batia apressado da corrida de sempre se aquietou em meu colo; mas era menino e suas muitas meninices o esperavam, desfez-se o nosso abraço e sorrindo quando lhe perguntei aonde ele iria, respondeu-me já correndo:
_ Estou voltando pra casa!
Ah menino… Deus lhe abençoe, ilumine e enfeitei seus caminhos com muitos pássaros.

Deus Seja Louvado!

E.T: menções a Mabel Guimarães a moça das jabuticabas, a pequena Sarah de Daniele Guimarães e seu vasinho de flores e Nair de Jesus a nega

 

casa

Grito!

Não sei se adoto um cachorro ou se não me levanto mais da cama, se tomo um porre, ou faço uma peregrinação em busca de paz. Desfazer as redes sociais? Voto de silencio? Ansiolíticos, analgésicos, antibióticos? Queimar todos os livros de minha prateleira, uma tatuagem, férias, roça, praia, montanha, um show de heavy metal ou uma noite de boemia regada a muita MPB. Algumas garrafas de vinho com um amigo?
Um filho?
Brigar, discutir, tornar-me estúpida, quem sabe o machismo, o preconceito, a extrema direita, votar naquele que ultimamente ninguém menciona o nome (mas que tem incomodado tanto, porque votar nele só pode ser protesto, não é ideologia não; Ou é?). Gritar: ecoar a alma em algum desfiladeiro até sangrar a garganta. Parar de tentar comer, parar de tentar dormir, parar de tentar sorrir, parar, parar, parar.
Contorcer todos os dedos até provocar uma fratura exposta na mão, qualquer coisa que doa menos, qualquer dor que desvie os sentidos desse sangramento, qualquer dor ou amor que acalme a tempestade que há em mim, esse vento forte que levanta areia e machuca meus olhos.
Qualquer dor, ou amor, qualquer historia que você possa existir novamente.
Entendo tudo: cessou o sofrimento, a angustia, é a lei da vida, continuamos em outro lugar, Deus sabe o que faz. Creio na força da fé, no tempo que tudo cura, nas mãos de Deus que operam milagres invisíveis; convicção plena do quanto Deus é Deus, e do quanto lhe sou imensuravelmente grata inclusive por você, mas precisa parar de sangrar. Precisa parar, porque dói de maneira irracional, não há explicação, teoria; sei que o tempo ira amenizar, mas até lá o que fazer?
Você esta bem, refazendo-se em luz, você me disse, era você outra vez, e eu te falei que não se preocupasse que o importante era que agora estava tudo bem, mas ainda assim continua a doer, e a culpa é minha, pois eu não sei amar pouco, não sei amar pela metade, não sei sentir nada raso, a culpa é minha: não sei sentir falta sem rasgar a pele, não sei chorar se não encher um oceano, a culpa é minha por precisar escrever, por ter que apagar esse cigarro aceso no peito*, porque não sei gritar de outra forma, não sei falar de outro jeito, não sou completa, falta-me a explosão, não quebro por fora, a minha demolição é ao avesso.
Você deixou a vida para seguir adiante, e a mim resta amar para continuar.
D.S.L

A sua menina

A sua menina

Foi você que me fez conhecer o encantamento de receber flores, lembro-me da captura do momento, do instante, do quão maravilhada fiquei após aquele gesto tão inesperado e bonito, mas ali, em posse das margaridas brancas mais lindas que já floresceram, no silencio de cada flor daquele buquê, você me disse o quanto eu era sua menina.
A sua menina! A qual não deveria crescer, que não poderia chorar, que não merecia sofrer, pois era sua menina, sua: de olhinhos assustados e encantados pelo mundo visto do alto de seu ombro; você não me criou para o mundo, você me fez sua, de maneira a me fazer acreditar que o mundo inteiro era o seu colo, e que nenhum outro alguém poderia me arrancar dos seus braços, afastar-me de você.
Nós viajamos juntos, e dai nasceu o meu amor pela terra Minas, você me protegia como se eu fosse a coisa mais preciosa de todo o universo, seus olhos não saiam de mim, suas mãos gigantes me cuidavam de todas as formas, de todos os perigos, você me fazia sentir a pessoa mais importante de todo o seu mundo, e o seu mundo para mim era todo o meu universo.
A sua menina, a sua criança, a sua filha, sua, sua, sua, mas crescer era preciso e inevitável, e então você acreditou no que se perdeu, você não conseguiu mais enxergar a menina que cabia no seu colo, tudo ficou muito estranho, e as mãos que protegiam começaram a desfazer os pequenos castelos de areia da menina que precisou crescer para salvar a si mesma.
O encanto se desfez, e a mim coube saber que você não fazia parte de um conto de fadas, você era real, precisei deixar de amar o personagem, para amar o homem pai, falho, humano, inquieto, você se enganou quando me viu crescer, e imaginou que não precisaria mais de você, se enganou ao pensar que eu não caberia mais no seu colo, mas Pai, eu nunca deixei de ser menina, de ser a sua menina, a sua criança, a minha mão sempre precisou da sua, o meu mundo sempre precisou do seu colo para não ruir, as minhas lagrimas sempre precisariam do seu ombro, a minha vida sempre precisaria da sua; e ainda que agora eu saiba que você vive em outra dimensão, longe de toda a dor a qual seu corpo físico não suportou, ainda que eu tenha toda a compreensão espiritual necessária para compreender a sua partida, ainda assim, eu preciso de você, preciso que você saiba o quanto sou apenas a sua menina, a sua filha, a sua criança, e tal qual na época de minha infância, neste momento me encontro buscando a tua mão para aprender a caminhar novamente.
Posso e irei escrever palavras belas sobre você, irei contar a nossa história, a nossa vida, mas hoje, agora, preciso dizer a verdade sem adaptar a realidade com beleza, preciso ser crua, franca, nua e transparente ao declarar: estou muito triste, muito triste, estou muito triste, estou muito triste. Não sei dizer quando sorrirei outra vez, não sei precisar quando essa tristeza se transformara em outra coisa que não seja tão somente tristeza, não sei o que irei fazer com essa loucura tão grandiosa, sei que irei continuar da mesma maneira que você continua em um lugar longe de toda e qualquer tristeza, dor, sofrimento, irei continuar da melhor maneira possível, irei vencer a vida como você combateu o seu bom combate, irei guerrear a cada dor como você se portou frente a tantas dores, serei cada vez mais parecida com você em mansidão, calmaria, desprendimento. Optarei pelos mais humildes, pelas sabedorias que não são descritas em livros, escolho a simplicidade como uniforme para batalhar pela vida, irei ouvir os pássaros, serei melhor, serei melhor, sem jamais deixar de ser apenas a sua a menina.
A sua menina.
Caminhe em paz meu amor, caminhe de cabeça erguida por esta estrada luminosa que lhe aguarda, siga sentindo todo amor possível que há em mim, vá de encontro aos braços dos seus que lhe esperam em festa por tão bonita ter sido a tua jornada de luta e coragem.
Não termina aqui! Até breve meu Pai!
D.S.L

 

pai

Cachorro

A vida não é uma ciência exata*: uma das definições mais clássicas e verdadeiras de que tenho noticia.
Não há nessa deslumbrante e transitória passagem por esse mundo algo que possamos pensar com exatidão, estamos aqui, seguimos em frente, um dia após o outro, ou melhor, um quintilhonésimo de segundo após o outro, uma fração caprichosa do tempo que muda, e se agiganta, sem rota, sem rumo, sem cama elástica, cinto de segurança, ou para quedas, estamos aqui, seguimos em frente, e é isso.
Irão dar vários nomes para sua dor: aprendizado, crescimento, maturidade, karma, destino, resgate.
Irão oferecer ajuda: leia isso, faça algo novo, saia de casa, simpatia, pule vinte ondas, de três passinhos para a direita; não vai ajudar. Há somente o tempo, o dono do que é agora e do que será no instante seguinte, pois a tudo ele observa, e sorri, sabidamente é um contador de historias, varias delas, todas engolidas pelo desejo ardente de viver, surradas pelas tantas horas de solidão que o querer implica; quem sabe a morte angustia de quem vive, quem sabe a solidão fim de quem ama… Diria meu amigo*
Não dará certo porque você sonhou, quis ferrenhamente, depositou toda fé, ainda assim pode não dar certo, não é um calculo matemático, com formula e resultado, ação e reação, não pode ser explicado, não dependente exclusivamente de você, ou do tamanho de sua paixão, assim como não tem explicação o mundo ter se tornado um lugar estranho e ruidoso, tão diferente do colorido que ele ganhou quando você chegou.
Um mundo inteiro cheio de fragmentos dessa inexatidão da vida, os quais semeiam uma saudade que caminha estampada, abrindo o peito fragilizado e salgando os olhos que tentam disfarçar quando o mundo grita querendo algo de você, porque é isso que precisa ser feito: continuar navegando por essa fração caprichosa do tempo, no aguardo da tão inesperada e triunfante fração de segundo seguinte.
A vida se transformou em uma imensa caixa azul a qual já não é capaz de guardar as palavras, a saudade, as lembranças, porque tudo teve vida, sentido, sonho existindo em tardes ensolaradas na grama verde, e dança na cozinha, o riso refletido no espelho enquanto escovava os dentes, os dias incomuns de paz e plenitude, a falta de sono e a presença de amor, sem despertador, sem cansaço, o café fraco, o bilhete sobre a bancada, um bichinho acuado, bobo, um bichinho adoecido de amor, um anjo branco cúmplice de todas horas, o qual em silencio nos protegia e parecia abençoar. Tudo muito simples, muito bobo, pequeno, mas de uma preciosidade imensurável, e que agora se alimenta de mim como um vírus que corroí o corpo inteiro, corroí horas, sorrisos, vontades e desejos, enquanto me pergunto: o que sobrou de mim? O que foi feito da promessa de ser feliz?
A vida não é uma ciência exata*, e isso não basta, não explica, não direciona, ainda que seja aceito, e seja verdade, jamais bastara, diante de algo tão maior que a ciência, e resultados matemáticos, e das probabilidades todas, das ações na bolsa, dos possíveis infinitos, algo muito maior, incomensurável.
D.S.L

boa sorte
* ilustração retirada do filme Boa Sorte, dirigido por Carolina Jabor com roteiro de Jorge Furtado e Pedro Furtado
* frase atribuída a Damião Fecher
* menção a Soneto de Fidelidade do poetinha.