A luz da primeira estrela

É seu aniversário neste plano terreno: setenta anos.

Cedinho telefonei “ai pra cima”, a ligação foi completada e após muitas chamadas um anjo atendeu

_ Ele saiu para cuidar dos pássaros sobre sua guarda

Só então entendi o porquê de cantarem tão mais forte e cedo nessa manhã;

O anjo infelizmente não pode chama-lo

_ Tudo bem! Caso seja permitido posso saber como será o seu dia?

Ele sorriu e muito calmamente…

Contou-me que você está de folga dos trabalhos evolutivos, espirituais e estudiosos, portanto após tratar dos pássaros que lhe foram confiados e que voam livres, Nossa Senhora Aparecida o aguardara em sua morada para o café da manhã, Ela preparou uma broa de milho na noite anterior, com erva doce e raspas de limão, quando você chegar a encontrara a porta e após a benção sentarão a mesa, conversarão durante algum tempo e ao se despedir ela passara a mão por seus cabelos, beijara seu rosto e olhando seus negros e profundos olhos marejados e brilhantes lhe confessara:

_ Ela. A primeira menina pediu que lhe presenteasse com esse afago.

Ele consentira com a cabeça enquanto Nossa Senhora subira novamente aos céus com seu manto sagrado cravejado de pedrinhas de luz, deixando nos corações de todo universo seu olhar sereno de amor e paz enquanto retoma seus trabalhos diários e incessantes

Ficara o resto da manhã deitado na rede, ora cochilando, ora recebendo as orações que lhes serão permitidas ouvir e sentir no dia de hoje

No almoço sua avó Zezé lhe fara um prato farto de angu molinho, galinha cozida, couve, arroz fresco e feijão temperado na hora com muito alho

Ao entardecer sairá para um banho bom de cachoeira com seu amigo irmão, aquele mesmo que lhe fazia dupla nas estripulias terrenas

A noite todos estarão reunidos e Jesus lhes prometeu levar vinho para se alegrarem e dançarem, aqui não é um lugar triste, tão pouco sem festa, dança e música, Altemar Dutra comparece com sua voz inconfundível, Clara Nunes trará os chocalhos de angola, e sua Irene enfeitara a casa com bonina

Ao final do relato perguntei ao anjo se poderia deixar ao menos um recado, ele pediu que esperasse um instante, ouvi quando consultou alguém sobre meu pedido e só com esse consentimento me permitiu falar.

Antes de começar perguntei como ele sabia dos acontecimentos de todo o dia

_ O tempo de vocês é outro. Como orientação para que seu recado seja ouvido, não pronuncie palavras, mentalize-as com o coração

Pai quando de sua atual esfera de vida avistar a primeira estrela do céu que partilharemos, olhe com muita firmeza para sua luz, feche os olhos, e que lhe seja permitido sentir todo meu amor e todas as orações que faço a ti nesses tempos desde sua partida onde uma saudade bonita fortifica nosso laço de carinho e caminhada. Desejo-lhe luz, paz e muito aprendizado. Estou seguindo bem, tentando cuidar com muito afinco da missão terrena a mim confiada. Seja luz meu velho! Que possamos sempre enxergar o brilho de uma mesma estrela não somente nesse dia, pois assim de alguma forma, seja como for, estaremos sempre unidos até nosso reencontro na mesma morada.

Um forte abraço fraternal

Deus Seja Louvado

 

BONINA

 

Aprenderei a tocar violão para ter um jeito novo de falar sobre nós

Seus muitos anos não lhe impediram de permanecer a seu lado até o último segundo de toda uma vida.

Não termina aqui!

Uma história de muitos capítulos e personagens: filhos, netos, família, amigos de um que se tornaram amigos em comum.

A mim a dádiva de capturar o ultimo olhar partilhado com seu grande amor nesse plano: grato ainda que incrédulo de sua partida; saudoso como sempre foi ainda que diante a uma distância de horas; amor, só o amor sabe olhar daquela maneira.

O sentimento que me preenche: gratidão! Por certo permanecerão a se olhar, o amor transcende, mas poder apreciar ainda que triste a importância dessa imensidão que tanto nos amedronta pela imperfeição, pelos enganos e tropeços ao longo da vida, pelas histórias que ouvimos de dor e solidão, de apatia e abandono, de caminhos e escolhas erradas por falta de consciência; não é o amor que provoca dor, é a falta de consciência que mascara a importância de quem realmente nos completa.

De todas as palavras que escreverei nessas linhas, guardem essa frase: não se perca, nem se deixe perder de um grande amor!

Amor é perdão, e partilha, e perdão novamente, e partilha, (qualquer dia desses terei a oportunidade de perguntar a dona daquele olhar quantas vezes ela o perdoou); e partilhar  é estar alegre por tudo com o outro; amor é olhar devagar, e olhar um pouco mais e sorrir, e errar, e pensar que não tem mais jeito, que já não se pode mais, e perdoar outra vez, e querer partilhar, e sonhar partilhar por saber que toda a sua história não terá sentido nenhum caso o amor não seja protagonista.

Afinal por que o amor? Por que o escolhe-lo como matéria prima, meta de vida, sonho, paixão, ideal. Afinal por que o amor?

Assunto exageradamente cotidiano, cantado, tocado, reincidente em meus fones de ouvido, por que o amor? Espalhado em cores em meus quadros abstratos sem forma aparente, sem ideia justificada não passiveis de entendimento mas concreto em sentimentos, em sentir. Aprenderei a tocar violão para ter um jeito novo de falar sobre nós.

Afinal por que o amor? Porque não há dinheiro, poder, beleza, status, sucesso, fama, atuação, não há nada capaz de comprar, ou mensurar um olhar repleto de tamanha luz, dedicação e força.

Não há nada que supere o olhar de um grande e verdadeiro amor. Nada! Nem mesmo a morte.

D.S.L

Obrigada Jorge Amado e Zelia, Caymmi e Stella, Rita Lee e Roberto, Orfeu e Euridice, Deborah e Natalia, Cida e Jair, Alexandre e Natalia, obrigada você.

como-tocar-violão-para-iniciantes

 

Monstrinho

Monstrinho completou dezoito anos.

Gestação não planejada, despreparada consumiu todas as minhas forças, alimentou-se de meu fígado, de meus olhos, de meu sangue, de todos os meus órgãos e sentidos. Monstrinho nasceu exageradamente forte, grande, intenso, tão maior, tão imenso, não condizia com meus poucos anos, um tamanho desproporcional que chocou o mundo, muitos acreditaram em minha morte: enfraqueci, empalideci, não comia, não dormia, não sorria, completamente sem forças, inerte enquanto Monstrinho se agigantava dentro de mim sem noção de tamanho.

Ainda que forte, pensei que não vingaria, eram enormes os obstáculos ao qual enfrentaria antes mesmo de engatinhar, mas Monstrinho vingou e cresceu: pernas tortas, respiração cansada, dificuldades para se movimentar, tonto, não falava, não sorria, pouca visão, babava, esperneava, gritava, Monstrinho rastejava, era trabalhoso cuida-lo, sempre sujo, indomável, desorientado, apanhou muito, ninguém o respeitava, não tinham por ele compaixão, era bobo, inocente e a crueldade a sua volta tremenda.

Monstrinho era desobediente, ainda assim quando retornava para casa era cuidado, banhava-o com muita paciência e carinho, o alimentava com música, poesia, novas visões, ensinei Monstrinho a ler e escrever, a desenhar, pois ainda que soubesse falar não o fazia, não conheci sua voz até os onze anos, quando a porta de casa encarou meus olhos, ergueu a cabeça e para meu espanto disse que estava indo embora, foi assombroso ver Monstrinho partir; Esperei tanto tempo para ouvir sua voz vociferar um adeus.

Não o esqueci completamente, mas precisei seguir adiante, minha criação era livre, Monstrinho precisava partir para experimentar, sonhar, crescer, sua lembrança vestia-se de várias formas: saudade, preocupação, cuidado, oração, tristeza, alegria, lagrimas, fiquei anos sem estar com Monstrinho, sem vê-lo, toca-lo, mas mantinha em mim as poucas vezes que ele recebeu meu amor, as poucas chances que tive de o abraçar e beijar, guardei em um azul infinito todos os momentos a seu lado.

Diante de todo o tempo decorrido rebatizei-o dando-lhe um sobrenome: Monstrinho Nunca Mais.

Nenhum telefonema, recado, carta, ninguém sabia dele, parecia existir somente em meus pensamentos e orações, as vezes julguei ter enlouquecido e inventado sua existência. Algumas vezes sentia-o morto dentro de mim, pressentia seu sofrimento longe de meus cuidados, várias manhãs chorei suas lagrimas mesmo sem saber e entender, é loucura mas sentia Monstrinho, gravei o som de seu adeus, mas ouvia seus gritos, chamava por mim, porém não sabia como voltar, estava perdido.

Monstrinho voltou após dezesseis anos com a promessa de que viveríamos juntos, felizes, fortes.

Carinhoso, lindo, surpreendente, encantador, larguei tudo para ficar com ele, enfim a chance de ser feliz a seu lado. Ó Deus! Um sonho realizado, um conto de fadas, que história fantástica essa nossa Monstrinho! Entreguei-me de olhos fechados, senti seu amor, seus olhos me enxergavam, queriam a mim, desejava estar comigo para sermos enfim nós; mas Monstrinho estava doente, muito doente, fraco, cuidei-o com todas as minhas forças e amor, mas não foi suficiente; parou de andar, falar, comer, revoltou-se muitas vezes, indócil, triste, doente, muito doente, febril, agressivo, sangrei novamente, Monstrinho consumiu todas as minhas forças, mas dessa vez tive muito medo e então me afastei, precisei tranca-lo com meu medo em lugar muito escuro e frio e isso também quase me fez morrer novamente, ainda que ele não entenda ou jamais acredite. Monstrinho precisava curar-se, mas ninguém poderia sangrar por ele, ou junto a ele.

Um dia volto a falar sobre essa história, por enquanto não sei o que irá acontecer, tão pouco consigo imaginar, o que sei é que Monstrinho merece ser feliz, muito feliz, sobre muita luz, proteção e verdade. Monstrinho é bom, lindo, apaixonante, romântico, parte de mim, cheio de fé e otimismo e esperança, e festa e música e dança e vida e sonhos, por isso quando completamente curado saberá exatamente que direção seguir…

D.S.L

MONSTRINHO

*foto: desenho feito por Monstrinho aos 7 anos

 

 

 

A caixinha branca

 

Ouvi uma música nova essa semana, domingo início de noite para ser mais exata, a letra é a nossa cara, e a melodia o nosso embalo, então pensei em te enviar na mesma hora, por mensagem, sei lá, pensamento, sinal de fumaça, serenata…

Passei por uma vitrine outro dia e te imaginei no lugar do manequim, sua cor preferida combinou muito bem com o sorriso imaginário de um momento irreal em que saíamos para jantar e comemorar a gente

Chove e faz frio desde segunda feira, é primavera, mas o tempo está louco e desajustado feito a nossa história, a primavera está escondendo a sua beleza e harmonia como fez o nosso amor.

A noite em casa, quando a campainha tocou, corri, sorri, ajeitei o cabelo, esqueci que pedi comida, lembrei que não era você

Cortei o dedo em um pedaço de vidro quebrado na cozinha, e enquanto o sangue não estancava lembrei de todas as vezes em que ao tentar colar os seus pedaços eu sangrei. Sangrei para aprender que amor não cura sozinho, não é super-herói para salvar alguém, tão pouco merece viver de lagrimas no passado, amor não faz milagre, não substitui espiritualidade, terapia, escola, trabalho, o amor nos ensina muito, mas não substitui nada, é uma dadiva que desconhece a autossuficiência, ele tem o seu lugar majestoso, iluminado, merece respeito, aconchego, valor, carinho, merece olhares tontos, bobos, e apaixonados, merece ser abraço sonolento durante a madrugada onde a saudade de horas me desperta concorrendo com o relógio só para ter você antes dos primeiros raios de sol, só pra ter você antes do café, do transito, do trabalho, só pra ter você

As vezes fecho os olhos bem forte para te lembrar, nunca precisei abri-los enquanto te beijava, abraçava, ou fazia amor, pois sentia exatamente o que estava tocando, conheço todos os caminhos e o destino à minha frente era único: o amor, você

Fui apresentada rapidamente a sua nova criatura: inteira, refeita, ciente e consciente, é um sonho antigo te ver feliz, livre de cegueiras, amarras, passado. Quem sabe essa pessoa sem pedaços me convide para jantar uma noite qualquer, com o desejo verdadeiro de se apresentar para alguém que aprendeu a não sangrar pelo outro, e a nossa história venha de fato a vencer o tempo para enfim realizar seu único propósito: ser bonita, plena, ser amor em um presente que conjugue o infinito.

D.S.L

 

jantar-romantico

 

 

 

 

 

Lista de presentes

Uma máquina de escrever em bom estado de conservação, comprada, vendida, presenteada, doada, vendida novamente, usada para escrever entre outras coisas muitas cartas tendo a saudade como remetente, e que o uso tenha lapidado suas teclas,  melodiando as letras afim de que perfumem o ar com sons de bons poemas e palavras bonitas 

Um chapéu alado que eleve os pensamentos e acompanhe o balãozinho azul das melhores inspirações, criando uma explosão de criatividadeé bom ter a cabeça coberta quando os pés estão fora do chão, viajar com a imaginação é voar alto 

Um sorriso involuntário por dia de um desconhecido, e se o estranho for uma criança o bom pressentimento será acolhido em dobro 

Um baú que abrigue decepções, frustrações, ansiedades, e que automaticamente quando cheio seja lacrado e levado ao fundo do mar, bem lá no meio do nada, no azul mais escuro do oceano para que não se ouça mais choro passado 

Uma cesta inteira, repleta de frutos de novas esperanças que só de olhar faça uma poça de água na boca, de todas cores e sabores alcançando todas as esferas da vida: amor que não se precise ir embora, nem se esquecer, nem se deixar de ser, alegria calma e confiante, prosperidade acompanhada da melhoria da gente humana, entrega verdadeira de amizade gratuita e aconchegante, aqueles velhos abraços tão raros e conhecidos que acolhem sem julgamentos 

Lenço feito de pó de estrela cadente para consolar os olhos e faze-los sorrir quando alguma saudade insuportável castigar.  

Uma música nova a cada mês. 

Orquídeas  

Sonho realizado, acontecido de surpresa, desprovido de probabilidade, natural feito piscar os olhos 

Inverno menos frio, e primavera estendida, brisa e mar sombreados em tela de pintar branquinha, flores devidamente concentradas em encantamento e beleza 

Banho demorado: de rio, de cachoeira, de mar, de chuveiro, banho de orvalho em madrugada alegre e enfeitada de boémia, banho de esperança em cada novo amanhecer, livro na rede, pôr do sol, música que faça fechar os olhos e se ter vontade dançar na rua, churros na praça, abraço sem medo, nem tempo, largo e cheiroso 

Cerveja com samba, conversa boa com amigos 

Acarajé uma vez por semana com sabor de tarde em Itapuã 

Exibição sem limites de milagres conquistados em oração, sei que orgulho é pecado, mas que Deus fique um tantinho vaidoso realizando milagre atrás de milagre, sem cota, nem hora, nem tempo, milagres daqueles bem bonitos que nos regaste a fé de que Ele ainda não se esqueceu de nós. 

Que o cansaço da vida pare de pelear com o destino do sonho; vem ser bonita primavera, vem ser bonita… 

D.S.L 

Starsinthesky

O google é burro

Digitei os sintomas: cansaço, taquicardia e falta de apetite, conclusão: insuficiência cardíaca; primeiros sintomas de um infarto, trinta dias é o tempo que resta, na minha idade é fulminante. 

google disse que roer unhas faz muito mal, habito causado pela ansiedade, insegurança, timidez, e que espinhas podem ser indícios de uma disfunção hormonal, ou estresse aconselhou uma viagem só não me mostrou onde está a fada mágica que me abençoara com tempo e dinheiro, li três dos dez melhores livros literários que indicou, talvez leia os outros sete, o google disse que ler faz muito bem, concordo com ele.  

google respondeu que é preciso seguir em frente, ter esperança, que frustrações fazem parte do crescimento de todo individuo, que vitamina B5 é bom pra pele, me ensinou um método infalível para acertar na loteria, e que hoje astrologicamente o sol está em virgem e a lua em sagitário. Uma orquídea pode demorar até oito anos para florescer. Virginianos são perfeccionistas, organizados e racionais, e que piscianos são sonhadores, românticos, sensíveis; estou a exatos 1.497Km da Bahia; ascendente em peixes o qual predomina após os trinta anos, o google disse que sonhar faz bem, desde que não interfira na realidade e motive a realizar. 

Como é o céu? Um panorama obtido a partir da terra, não gostei da resposta (esperava mais poesia, maldito ascendente em peixes sempre em busca de um romancezinho). Perguntei como é morrer e se dói, como ter certezas sobre o amor, quanto tempo dura uma amizade, o sentido de afinidade, quais as principais características de um orgasmo, como faz pra mudar a vida, quem inventou a fotografia, o que é coach de uma vez por todas, a melhor harmonização de bebida para carne vermelha, perguntei porque o #elenão foi eleito e porque pensar em ajudar os outros automaticamente nos faz comunistas, porque pessoas dormem na rua, porque uns com tanto e outros com tão pouco, porque crianças adoecem, porque não sonhamos todas as noites, porque as oportunidades são tão discrepantes. 

google disse que fumar faz mal, que beber faz mal, que comer muita carne vermelha faz mal, fones de ouvido prejudicam a audição, que aves industrializadas crescem a base de muitos hormônios e que faz mal, que o ar esta poluído, que as plantações estão cheias de agrotóxicos, que a Amazônia está queimando, as geleiras derretendo, que há países em guerra, que a rua é perigosa, o google me mostrou novamente a imagem da criança síria na praia, disse que pessoas sensíveis tendem a chorar mais, e que ninguém é feliz o tempo inteiro, respondi um questionário sobre personalidade, levantei algumas questões sobre intuição, perguntei ao google porque o “pra sempre” não deu certo, uma borboleta vive muito pouco, o google disse que é preciso esquecer, que fazer teatro é ótimo, que existem terapias, rituais, Prozac, perguntei onde encontro seu cheiro, o que fazer com a saudade, mas o google que sabe tudo nunca sentiu absolutamente nada, o google é burro. 

 D.S.L 

@

Entreaberta

 

Alguém que conhece alguém, aquele amigo que traz outro amigo…

Em uma festa de aniversário, sorriram tímidos quando cruzaram o olhar aparentemente sem intenção. Acenaram de longe em outra ocasião, nada demais, casos comuns de pessoas que se encontram por anos, sem abrir portas na vida um do outro, apenas se veem, não se conhecem, se ouvem falar, mas não constroem uma ponte afetiva capaz de leva-los a outros caminhos.

Vez ou outra ele a observa enquanto dança, ela “torce o nariz” para a música, sem saber que ele estava no controle do som

_ Você não gosta? O que prefere ouvir?

A timidez tirou de seu rosto o sorriso que estampava, apesar de triste e cansada de seus próprios pensamentos os quais circulavam incessantemente nos últimos tempos sem encontrar direção, ela sorria com a certeza de que a vida voltaria a fazer algum sentido em breve; enrubesceu, gaguejou e respondeu que a música estava ótima. Bola fora de cara!

Pensou por dias em seus olhos, no som da voz, a curiosidade chegando devagarzinho repetindo olhares, sorrisos, como seria o beijo, o gosto de sua boca, qual cheiro teria a curva de seu colo, abraço quente ou dividido pelo medo, sem esperança, anos e anos e tantas e tantas pessoas, e incontáveis abraços e olhares e tantas tontas historias perdidas e amores esvaziados diante do tédio tão incapaz de vencer o cotidiano cansativo, matando o encanto desacreditado pelos céticos, mas fundamental a vida, até mesmo para respirar melhor é preciso magia.

A música…

_ Dança comigo?

Mãos entrelaçadas, o corpo cada vez mais próximo, experimentando os primeiros encaixes, o cheiro e o suor se misturando; cada vez mais perto, recostou a cabeça em seu ombro feito quem pedi: cuida de mim, você é um bom lugar para permanecer.

Nos afastamos sorrindo, nos olhando um pouco mais, delicados e inquietos, o primeiro abraço, o corpo se reconhecendo, as portas entreabertas, as mãos entrelaçadas, o instante aguardando o desfecho, o momento congelado ao redor, os ruídos silenciando diante da respiração cada vez mais próxima

_ Deixa te olhar assim, deixa te olhar bem, quero guardar esse instante, será meu relicário antes de estragarmos tudo.

D.S.L

ENTREABERTAS

 

Fantasmas

Queria ter assistido ao momento em que o senhor atual presidente desse nosso Brasil, se olhou no espelho, inflou o peito, encarou o espectro, e julgou-se capaz de governar.

Salvo os soberbos, qualquer um com o mínimo de bom senso, mínimo mesmo, quase nada antes de encarar uma empreitada se auto analisa: sou capaz? Irei conseguir? Alguns podem chamar essa ponderação de covardia, à atribuo a sabedoria, auto-conhecimento, amadurecimento, crescimento pessoal, com os anos em alguns casos a vaidade ocupa cada vez menos espaço, mas é evidente que esse senhor não é do tipo que pensa.

Expulso do exército, deputado inerte, parasita dos cofres públicos a anos; Há um fator histórico em sua desequilibrada ascensão: o grito, o clamor, que na maioria das vezes cavalga acompanhada da alienação, do sangue, do autoritarismo, e por favor não me venham com discursos: o outro governo, o outro, o outro, parafraseando Sartre até quando o inferno será o outro?; o momento de falarmos de outros governos passou, deu-se na campanha eleitoral, a qual defino com uma palavra utilizada outro dia por um ministro desse senhor ao se referir as universidades: balburdia! De kit gay a juiz parcial, de atentado duvidoso a falta de debate.

Recarreguem as canetas senhores historiadores, detalhem todas as verborragias do desgovernante, o qual desafia órgãos de estudos, especialistas, doutores, analistas, afinal não é toda hora que vemos algo tão hediondo e grandioso surgir sorrateiramente, senhoras e senhores, estamos diante de um ditador, de um senhor fantasmagórico, mentalmente limitado, humanamente mal, triste, bobo, sustentado por um rebanho alienado que acreditou nesse falso Messias. Acompanhem: primeiro eliminam quem se opor no alto escalão, depois, bem depois, qualquer massa de manobra contra o governo será aniquilada em porões, os quais o tal senhor vocifera conhecer bem, inclusive simpático a causa desde sempre.

Recarreguem as canetas senhores historiadores, relatem esse momento preocupante nos livros de maneira muito bem explicita para que não se repita nunca mais; estamos diante da consequência de uma maioria que votou de acordo com o ódio, a descrença, a mentira, a fé num salvador que prega o inverso ao discurso de Cristo. Estamos assombrados em muitos aspectos, agora o que nos resta é uma esperança cada vez mais golpeada torcendo para que sejam de fato apenas fantasmas.

D.S.L

 

Seja um bom pressagio

Queria ter dito alguma coisa para a moça que passou por mim nessa manhã chorando. Quando não se consegue segurar o choro em um ambiente completamente estranho e inseguro como uma rua é porque algo de muito sério está acontecendo; ninguém chora na rua em uma quinta feira as sete meia de uma manhã fria de inverno à toa, desejei sem conhece-la que ainda naquele dia ela tivesse um motivo para sorrir, ciente de que tudo passa; que ao chegar em casa respirasse fundo, ou que chorasse ainda mais para se esvaziar, que encontrasse refúgio no abraço de alguém que ama, que desencanasse daquele sofrimento, ou gritasse por ajuda, desejei que fosse feliz, e que trocasse os soluços de dor, por um suspiro de esperança.  

Seja um bom pressagio!  

Algo bom acontece quando desejamos, é como se cada um de nós carregasse uma vela, ao desejarmos o bem a alguém essa chama se acende automaticamente, iluminando o outro e nos enchendo de luz, uma troca invisível que eleva o universo; uma força grandiosa capaz de propagar sentimentos nobres.  

Você não faz ideia do quanto de amor lhe desejo todas as vezes que nos encontramos e constato nos teus olhos tristes e frustrados o colo que lhe falta, a vontade de um abraço, o enorme desejo de pertencer a alguém; clamo com muita força que o tempo seja generoso e se encarregue de surpreender você, que lhe afague o rosto, e que com ternura adorne sua alma com amor. 

Queria te dizer que essa fase apática e cinza está prestes a terminar, os dias de sol irão retornar em breve, as boas sementes que plantamos estão prontas para germinar, a vida está apenas esperando o apito inicial para voltar a ser doce e nos encantar com infinitas novas possibilidades, aventuras, e momentos que de tão especiais nos arrancarão do chão. Tudo voltara a ficar bem, e nós teremos novamente aquela sensação de saciedade, afinal temos muita sorte e gratidão. 

Queria desenhar um sorriso no seu rosto, te dar um mundo menos penoso, mais igual, com menos julgamento e mais felicidade, instaurar decretos ousados: crianças não ficariam doentes, nem seriam abandonadas, sem fome, sem frio, com sobra transbordante de afeto e cuidado; a cada uma tristeza vivida para o crescimento e aprendizado, oito alegrias para nos lembrar o quanto a vida é bonita, é agora, e passageira; os sábados teriam as noites estendidas, e os domingos manhãs mais longas sempre com sol e café da manhã sem pressa, todo mundo teria uma casa, um bom amigo ou vários, e uma esperança novinha em folha renovando o desejo de ser feliz e se encantar; ninguém morreria de frio, ou falta de amor; desconheceríamos os sentidos de palavras como traição, desigualdade, injustiça, violência, caminharíamos em paz, sem perigos, sem armas, guerras, ou bombas; todas as cidades por menores que fossem teriam mar, montanha, e campos de plantações de girassóis bailando ao vento como se ouvissem uma melodia tocada do céu; nas ruas mais arvores, mais pássaros, menos fumaça e mais estrelas, antes dos afazeres diários ouviríamos poesia e música. Ao termino de cada dia um silencio ensurdeceria a todos, nos fazendo refletir e esquecer para que assim o amor nosso de cada noite não fosse aborrecido, encontrando o coração calmo, pleno e completamente pronto para se perder no tempo e admirar a lua enquanto adormecêssemos em um abraço. 

Queria colorir a vida de esperança como luzes acesas em noite de festa. 

D.S.L 

IMG_20190720_164626866

Era você…

Tenho ouvido tantas coisas a seu respeito, sua reputação está em baixa, tanto é que estão contestando veementemente a sua existência, desconfiando do seu poder, desmistificando toda e qualquer poesia que o retrate.  

A verdade é que a sua ausência tem ocasionado consequências gravíssimas: consultórios psicológicos lotados, muito dinheiro, vaidade, beleza e uma tristeza violenta sorrindo para fotos, beijos sem encanto, jantares silenciosos, café da manha sem riso, abraço aconchegante para adormecer com o travesseiro, dias iguais motivados por em vazio depressivo, frio e cinza. A culpa não é sua, mas sim dos seus impostores os quais a todo custo tentam confundir de maneira leviana e triste aqueles que o aguardam, por conhece-lo bem, tentarei defende-lo nessas linhas rabiscadas relatando as vezes que nos encontramos, mas confesso que não será fácil, pois as desconfianças são fortes, fundamentadas por uma legião a qual afirmam que você não vale a pena, que seu prato predileto é a ilusão, a posse, a ansiedade, e que sua companhia favorita é a solidão. 

A última vez que nos vimos, você estava triste, perdido, acreditando em um novo tempo o qual na verdade já fazia parte do passado, conversamos alguns dias, caminhamos de mãos dadas, ouvimos música, acalentamos a lua com olhares saudosos, mas ausentes do brilho primário necessário para o desejo de continuar, nos deixamos esquecer das horas ruins que nos separaram, mas então sem encontrar esperança e assombrado por um passado de dor foi preciso te deixar partir. 

Uma vez te encontrei de madrugada, encantado, carinhoso, um toque suave em meu rosto fazendo o possível para não me despertar; Era você: tímido, temeroso, preocupado com o amanha, mas completamente consciente daquele momento raro de paz e harmonia, para afugentar qualquer duvida ainda de olhos fechados o abracei, em oração pedi que você fosse forte, confessei minha entrega baixinho ao seu ouvido, e então voltamos a adormecer, e aquele momento foi o melhor sonho do resto de nossa noite. 

Outro dia você me surpreendeu: fim de tarde, engarrafamento, o pensamento cansado, a pressa cotidiana e coletiva da volta para casa, olho para o lado e lá esta você: sem celular, sem pressa, cantando, trocando olhares, feliz, iluminado, completamente alheio ao mundo la fora, em seu melhor estado: apaixonado, sorri sem que você pudesse notar, foi contagiante e arrebatador: liguei o som, o transito começou a fluir, a vida ficou leve, afinal você é bonito e essencial para nos livrar do caos. 

Naquele domingo de inverno apos o café, sentei na varanda, um livro sobre o colo, o sol tímido, o tempo sem pressa, mais um pouco de café, cerrei os olhos, ensurdeci todos os pensamentos e comecei a ouvir o vento, as folhas, os pássaros, senti saudades, os olhos brilharam tímidos parecendo querer chorar, talvez durante a tarde saia para caminhar com o cachorro, talvez escreva um pouco, ou pinte um novo quadro, um filme, uma boa conversa com um amigo, senti mais saudades… Era você! 

D.S.L    

IMG_20190714_142457403_HDR