Entreaberta

 

Alguém que conhece alguém, aquele amigo que traz outro amigo…

Em uma festa de aniversário, sorriram tímidos quando cruzaram o olhar aparentemente sem intenção. Acenaram de longe em outra ocasião, nada demais, casos comuns de pessoas que se encontram por anos, sem abrir portas na vida um do outro, apenas se veem, não se conhecem, se ouvem falar, mas não constroem uma ponte afetiva capaz de leva-los a outros caminhos.

Vez ou outra ele a observa enquanto dança, ela “torce o nariz” para a música, sem saber que ele estava no controle do som

_ Você não gosta? O que prefere ouvir?

A timidez tirou de seu rosto o sorriso que estampava, apesar de triste e cansada de seus próprios pensamentos os quais circulavam incessantemente nos últimos tempos sem encontrar direção, ela sorria com a certeza de que a vida voltaria a fazer algum sentido em breve; enrubesceu, gaguejou e respondeu que a música estava ótima. Bola fora de cara!

Pensou por dias em seus olhos, no som da voz, a curiosidade chegando devagarzinho repetindo olhares, sorrisos, como seria o beijo, o gosto de sua boca, qual cheiro teria a curva de seu colo, abraço quente ou dividido pelo medo, sem esperança, anos e anos e tantas e tantas pessoas, e incontáveis abraços e olhares e tantas tontas historias perdidas e amores esvaziados diante do tédio tão incapaz de vencer o cotidiano cansativo, matando o encanto desacreditado pelos céticos, mas fundamental a vida, até mesmo para respirar melhor é preciso magia.

A música…

_ Dança comigo?

Mãos entrelaçadas, o corpo cada vez mais próximo, experimentando os primeiros encaixes, o cheiro e o suor se misturando; cada vez mais perto, recostou a cabeça em seu ombro feito quem pedi: cuida de mim, você é um bom lugar para permanecer.

Nos afastamos sorrindo, nos olhando um pouco mais, delicados e inquietos, o primeiro abraço, o corpo se reconhecendo, as portas entreabertas, as mãos entrelaçadas, o instante aguardando o desfecho, o momento congelado ao redor, os ruídos silenciando diante da respiração cada vez mais próxima

_ Deixa te olhar assim, deixa te olhar bem, quero guardar esse instante, será meu relicário antes de estragarmos tudo.

D.S.L

ENTREABERTAS

 

Fantasmas

Queria ter assistido ao momento em que o senhor atual presidente desse nosso Brasil, se olhou no espelho, inflou o peito, encarou o espectro, e julgou-se capaz de governar.

Salvo os soberbos, qualquer um com o mínimo de bom senso, mínimo mesmo, quase nada antes de encarar uma empreitada se auto analisa: sou capaz? Irei conseguir? Alguns podem chamar essa ponderação de covardia, à atribuo a sabedoria, auto-conhecimento, amadurecimento, crescimento pessoal, com os anos em alguns casos a vaidade ocupa cada vez menos espaço, mas é evidente que esse senhor não é do tipo que pensa.

Expulso do exército, deputado inerte, parasita dos cofres públicos a anos; Há um fator histórico em sua desequilibrada ascensão: o grito, o clamor, que na maioria das vezes cavalga acompanhada da alienação, do sangue, do autoritarismo, e por favor não me venham com discursos: o outro governo, o outro, o outro, parafraseando Sartre até quando o inferno será o outro?; o momento de falarmos de outros governos passou, deu-se na campanha eleitoral, a qual defino com uma palavra utilizada outro dia por um ministro desse senhor ao se referir as universidades: balburdia! De kit gay a juiz parcial, de atentado duvidoso a falta de debate.

Recarreguem as canetas senhores historiadores, detalhem todas as verborragias do desgovernante, o qual desafia órgãos de estudos, especialistas, doutores, analistas, afinal não é toda hora que vemos algo tão hediondo e grandioso surgir sorrateiramente, senhoras e senhores, estamos diante de um ditador, de um senhor fantasmagórico, mentalmente limitado, humanamente mal, triste, bobo, sustentado por um rebanho alienado que acreditou nesse falso Messias. Acompanhem: primeiro eliminam quem se opor no alto escalão, depois, bem depois, qualquer massa de manobra contra o governo será aniquilada em porões, os quais o tal senhor vocifera conhecer bem, inclusive simpático a causa desde sempre.

Recarreguem as canetas senhores historiadores, relatem esse momento preocupante nos livros de maneira muito bem explicita para que não se repita nunca mais; estamos diante da consequência de uma maioria que votou de acordo com o ódio, a descrença, a mentira, a fé num salvador que prega o inverso ao discurso de Cristo. Estamos assombrados em muitos aspectos, agora o que nos resta é uma esperança cada vez mais golpeada torcendo para que sejam de fato apenas fantasmas.

D.S.L

 

Seja um bom pressagio

Queria ter dito alguma coisa para a moça que passou por mim nessa manhã chorando. Quando não se consegue segurar o choro em um ambiente completamente estranho e inseguro como uma rua é porque algo de muito sério está acontecendo; ninguém chora na rua em uma quinta feira as sete meia de uma manhã fria de inverno à toa, desejei sem conhece-la que ainda naquele dia ela tivesse um motivo para sorrir, ciente de que tudo passa; que ao chegar em casa respirasse fundo, ou que chorasse ainda mais para se esvaziar, que encontrasse refúgio no abraço de alguém que ama, que desencanasse daquele sofrimento, ou gritasse por ajuda, desejei que fosse feliz, e que trocasse os soluços de dor, por um suspiro de esperança.  

Seja um bom pressagio!  

Algo bom acontece quando desejamos, é como se cada um de nós carregasse uma vela, ao desejarmos o bem a alguém essa chama se acende automaticamente, iluminando o outro e nos enchendo de luz, uma troca invisível que eleva o universo; uma força grandiosa capaz de propagar sentimentos nobres.  

Você não faz ideia do quanto de amor lhe desejo todas as vezes que nos encontramos e constato nos teus olhos tristes e frustrados o colo que lhe falta, a vontade de um abraço, o enorme desejo de pertencer a alguém; clamo com muita força que o tempo seja generoso e se encarregue de surpreender você, que lhe afague o rosto, e que com ternura adorne sua alma com amor. 

Queria te dizer que essa fase apática e cinza está prestes a terminar, os dias de sol irão retornar em breve, as boas sementes que plantamos estão prontas para germinar, a vida está apenas esperando o apito inicial para voltar a ser doce e nos encantar com infinitas novas possibilidades, aventuras, e momentos que de tão especiais nos arrancarão do chão. Tudo voltara a ficar bem, e nós teremos novamente aquela sensação de saciedade, afinal temos muita sorte e gratidão. 

Queria desenhar um sorriso no seu rosto, te dar um mundo menos penoso, mais igual, com menos julgamento e mais felicidade, instaurar decretos ousados: crianças não ficariam doentes, nem seriam abandonadas, sem fome, sem frio, com sobra transbordante de afeto e cuidado; a cada uma tristeza vivida para o crescimento e aprendizado, oito alegrias para nos lembrar o quanto a vida é bonita, é agora, e passageira; os sábados teriam as noites estendidas, e os domingos manhãs mais longas sempre com sol e café da manhã sem pressa, todo mundo teria uma casa, um bom amigo ou vários, e uma esperança novinha em folha renovando o desejo de ser feliz e se encantar; ninguém morreria de frio, ou falta de amor; desconheceríamos os sentidos de palavras como traição, desigualdade, injustiça, violência, caminharíamos em paz, sem perigos, sem armas, guerras, ou bombas; todas as cidades por menores que fossem teriam mar, montanha, e campos de plantações de girassóis bailando ao vento como se ouvissem uma melodia tocada do céu; nas ruas mais arvores, mais pássaros, menos fumaça e mais estrelas, antes dos afazeres diários ouviríamos poesia e música. Ao termino de cada dia um silencio ensurdeceria a todos, nos fazendo refletir e esquecer para que assim o amor nosso de cada noite não fosse aborrecido, encontrando o coração calmo, pleno e completamente pronto para se perder no tempo e admirar a lua enquanto adormecêssemos em um abraço. 

Queria colorir a vida de esperança como luzes acesas em noite de festa. 

D.S.L 

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Era você…

Tenho ouvido tantas coisas a seu respeito, sua reputação está em baixa, tanto é que estão contestando veementemente a sua existência, desconfiando do seu poder, desmistificando toda e qualquer poesia que o retrate.  

A verdade é que a sua ausência tem ocasionado consequências gravíssimas: consultórios psicológicos lotados, muito dinheiro, vaidade, beleza e uma tristeza violenta sorrindo para fotos, beijos sem encanto, jantares silenciosos, café da manha sem riso, abraço aconchegante para adormecer com o travesseiro, dias iguais motivados por em vazio depressivo, frio e cinza. A culpa não é sua, mas sim dos seus impostores os quais a todo custo tentam confundir de maneira leviana e triste aqueles que o aguardam, por conhece-lo bem, tentarei defende-lo nessas linhas rabiscadas relatando as vezes que nos encontramos, mas confesso que não será fácil, pois as desconfianças são fortes, fundamentadas por uma legião a qual afirmam que você não vale a pena, que seu prato predileto é a ilusão, a posse, a ansiedade, e que sua companhia favorita é a solidão. 

A última vez que nos vimos, você estava triste, perdido, acreditando em um novo tempo o qual na verdade já fazia parte do passado, conversamos alguns dias, caminhamos de mãos dadas, ouvimos música, acalentamos a lua com olhares saudosos, mas ausentes do brilho primário necessário para o desejo de continuar, nos deixamos esquecer das horas ruins que nos separaram, mas então sem encontrar esperança e assombrado por um passado de dor foi preciso te deixar partir. 

Uma vez te encontrei de madrugada, encantado, carinhoso, um toque suave em meu rosto fazendo o possível para não me despertar; Era você: tímido, temeroso, preocupado com o amanha, mas completamente consciente daquele momento raro de paz e harmonia, para afugentar qualquer duvida ainda de olhos fechados o abracei, em oração pedi que você fosse forte, confessei minha entrega baixinho ao seu ouvido, e então voltamos a adormecer, e aquele momento foi o melhor sonho do resto de nossa noite. 

Outro dia você me surpreendeu: fim de tarde, engarrafamento, o pensamento cansado, a pressa cotidiana e coletiva da volta para casa, olho para o lado e lá esta você: sem celular, sem pressa, cantando, trocando olhares, feliz, iluminado, completamente alheio ao mundo la fora, em seu melhor estado: apaixonado, sorri sem que você pudesse notar, foi contagiante e arrebatador: liguei o som, o transito começou a fluir, a vida ficou leve, afinal você é bonito e essencial para nos livrar do caos. 

Naquele domingo de inverno apos o café, sentei na varanda, um livro sobre o colo, o sol tímido, o tempo sem pressa, mais um pouco de café, cerrei os olhos, ensurdeci todos os pensamentos e comecei a ouvir o vento, as folhas, os pássaros, senti saudades, os olhos brilharam tímidos parecendo querer chorar, talvez durante a tarde saia para caminhar com o cachorro, talvez escreva um pouco, ou pinte um novo quadro, um filme, uma boa conversa com um amigo, senti mais saudades… Era você! 

D.S.L    

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Hoje você não precisa ser forte

Chora!

Desacelera!

Dê esse tempo para você.

Chora! Não consegue? Chora!

Chora tudo o que precisar: sem vergonha, sem medo, sem essa de que está tudo bem. Chora de soluçar, de babar, de inchar os olhos, de tremer as mãos, de cair no chão.

Chora, desespera o que está guardado, deixa sangrar de maneira hemorrágica, o motivo não está no dicionário, não há palavra que defina, se rasga, confesse a dor, chora!

Chora de olhos abertos, fechados, esfrega os olhos, trava os dentes, chora!

Sem essa de força, de sabedoria, de espiritualidade, esquece esse autocontrole, deixa a dor passar, desfaz os nos dessa garganta apertada, assusta a vizinhança com os teus soluços. Chora por você, pela saudade que vem te consumindo, pela falta de esperança, pela ausência de motivo, teus objetivos sem rumo, chora o que não deu certo, o que está doendo e que só você consegue sentir, chora o casamento, o namoro, a pessoa amada que está distante, infeliz, as tuas escolhas, chora a consequência de amar sem amor e sem limite, chora a tua culpa, o que te envergonha, o sonho que não se realizou.

Chora pelo mundo que mostra sua face mais cruel, somos exilados, criticados, julgados, ilegais, governados por velhos tradicionais, babacas babões ao lado de mulheres que parecem infláveis, falsos moralistas, sem princípios, escrúpulos e humanidade.

Chora pelo teu trabalho sem prazer: pelos cantos fofoca, pelas salas vaidade, pelo chão autoridade moralista falida.

A vida não está de férias, o quadro não está bonito, a música é triste, os dias são iguais, você desarmado em uma guerra desalmada, com frio, com sede de beleza, com o peito doente de tanto ter fé, com os joelhos ardentes de tanta oração, clamando por alivio, por graça, suplicando a todo instante para que tudo seja mais fácil, para que a luz te invada e transborde, chora esses teus dias tristes, chora tua insatisfação, a tua poesia que anda calada, escondida.

Ser forte requer verdade, e hoje a tua verdade vem do teu choro, das palavras que não se consegue rabiscar, seja fiel a você, sem plateia, sem conselho, sem amparo para a dor, sem rede social, sem telefone, chora sozinho.

Chora o teu cansaço, são muitos anos no aparente papel de vencedor, de batalha, de guerreiro forte, o principal do front, mas hoje soldado, tira a farda, olha as tuas cicatrizes, as tuas tantas mortes, abaixa a guarda, sossega o peito e chora a tua solidão, a tua falta de amor, deixa a gratidão para o amanhã, porque hoje soldado você precisa chorar; e não há nada de errado com você, os outros veem fingindo, se contemplando com tarjas cada vez mais pretas, consultórios terapêuticos, psiquiátricos, veredas da salvação buscando uma perfeição que nós não merecemos, pois somos tão somente insolentes pecadores julgando o alheio com cada vez mais afinco, bares e bocas de fumo fazendo fila, festa lotadas de gente insegura e sozinha, muitos veem fingindo soldado, você blindado de poesia e encanto muitas vezes não percebe, mas a maioria se engana e se máscara para não conhecer a verdade refletida no espelho.

Chora hoje soldado, porque amanhã o sonho de vencer essa guerra precisa estar vivo, e acredite: tudo ficara mais claro depois que os teus olhos se deixarem lavar por essa verdade contida no teu choro. Descansa soldado, fica em paz, porque hoje você não precisa ser forte.

D.S.L FB_IMG_1558871884401

Ajuda!

Qualquer informação referente a venda, invenção ou notícia futura sobre a criação de uma máquina do tempo, favor comunicar!

Recompensarei a informação com gratidão e uma quantia vultosa. Estou disposta a vender todos os meus pertences: isso inclui caixas repletas de folhas amareladas pelo tempo com escritas variadas, ricas em devaneios, sonhos, esperanças e amor, rabiscadas a mão, datadas de quando as maquinas ainda não haviam dominado tanto espaço, junto a tais escritas, fotos reveladas de uma vida repleta de boas e divertidas histórias, desfaço-me de três manuscritos não publicados, transfiro os direitos autorais de duas obras, entram na negociata dois quadros pintados recentemente, um tamborim, um berimbau e um violão velho e desafinado.

Caso a invenção já esteja disponível em algum mercado, seja ele “branco” ou “negro” pago o valor pedido sem delongas, acredito arrecadar boa quantia com o tesouro que possuo descrito no parágrafo anterior, mas se toda essa minha riqueza não for suficiente posso negociar meu tempo, o qual poderá ser partilhado junto ao proprietário da engenhoca a fazer-lhe companhia, ouvindo suas histórias, ansiedades, lembranças.

O preço não interessa, mas a eficácia da peça precisa ser comprovada, caso o inventor não queira se desfazer dessa maluca preciosidade tão rara, negocio o aluguel para utiliza-la para algumas viagens no tempo.

Antes que julguem que estou fora de meu juízo normal, afirmo-lhes: outro dia em minhas pesquisas conheci um ancião que testemunha ter viajado no tempo por três vezes, o mesmo garante que sua façanha fora possível por conta de um viajante egípcio, que em forma de gratidão por um ato de bravura frente a um assalto que o mesmo iria sofrer, lhe ofereceu as tais viagens como recompensa, porem o homem lhe pontuou algumas regras: ele não poderia tentar mudar nenhum grande acontecimento histórico da humanidade; não poderia levar nenhum artefato tecnológico; em cada viagem ele só poderia permanecer no momento escolhido por 60 minutos; e por último não utilizar de nenhuma informação para adquirir riqueza. O ancião concordou e pode viajar no tempo por três vezes, não burlou nenhuma regra, não me contou muito sobre as viagens, declarou somente que viajou para rever a mãe, a esposa já falecida, e a filha em uma apresentação de bale ainda na infância que ele não havia podido ir.

Preciso de uma máquina do tempo, duas a três viagens. Quero lhe encontrar moça, forte, te ver na beira de algum rio lavando roupa, cantando, ralhando com as meninas, quem sabe você não me permite ajudar carregar sua trouxa, quem sabe não proseamos um pouco, quero ver teu sorriso outra vez, não iria dizer quem sou, até porque você me desconjuraria, mas confesso que abriria os braços para um abraço, crente que o teu coração iria me reconhecer.

Viajaria para dez anos atrás, ano de dois mil e oito, deixaria uma carta para meu “eu” passado, pontuaria sobre algumas atitudes equivocadas, sem revelar as consequências, caberia a mim e somente a mim novamente tomar as decisões.

Encontraria você, em um ponto do tempo estudado com muito cuidado para que fosse possível e concreto nos salvar de nós mesmo, nos salvar desse hoje ferido o qual golpeia a esperança e nos distancia envoltos em uma tristeza de não saber como calar tanto sentimento, precisaria ser firme, te olhar nos olhos sem a embriaguez de te ver mais jovem novamente, sem a euforia de modificar um presente de saudades, voltaria no tempo para nos consertar, para tentar arrumar tudo bem direito, como precisa ser para acontecer feliz, e ainda que a liberdade nos desorientasse, ainda assim poderia dizer que tentei mais uma vez, e que ultrapassei até as barreiras do tempo para tentar segurar tua mão para sempre.

D.S.L

a porta

 

O tempo, você e as amoras

Desejo tempo, aquele que não se interessa pelos ponteiros sorrateiros e sem caráter do relógio, desejo tempo sem fim, sem hora marcada, sem compromissos inadiáveis e chatos que retiram de nós a esperança real de uma liberdade por enquanto apenas imaginada.

Horas infindáveis que não se curvarão a um despertador enlouquecido a roubar sonhos que ainda não terminaram.

Desejo tempo pela manhã para olhar teus olhos, para admirar teu sorriso sem pressa na companhia de uma xícara de café, tempo para ouvir os primeiros ruídos de um novo dia segurando tua mão como uma criança que enlaça a linha de seu balão pelo medo inocente de perde-lo; Desde agora que nossa única perda seja o voo dos olhos em busca de uma estrela cadente que deseje o mesmo pedido, ou diante de raios de sol primários que nos cegue perante a morada de Deus.

Tive pressa até aqui; antes de encontrar, agora meu único desejo é que o tempo se esqueça.

Quero tempo para segurar teus olhos sobre os meus e deixar-me invadir pelo teu querer de tempo a meu lado; e que ele se encarregue de passar, apostando que nós não passaremos e fiquemos assim: a nos olhar, a sentir o sabor do café forte e doce em uma partilha de paladar no primeiro beijo do dia, quero ser desperta pelo teu cheiro de sonho adormecido, e ainda de olhos fechados sentir você e sorrir em paz, sem a cruel ansiedade de te imaginar. Chega de inventar você!

Quero tempo para velejar contigo sem pressa nesse mar de vida que nos espera.

Tempo para receber os amigos, para balanço de rede, mãos na terra, plantemos orquídeas, morangos, amoras, manjericão para a macarronada as três da tarde de um domingo de música e vinho em nossa casinha branca: simples, pequena e cheia dessa harmonia que construiremos para nós, criemos uma realidade menos cruel, mais próxima da poesia, uma verdade nossa que afaste qualquer maldade ou vaidade, sejamos nós e que todas as lutas propostas pela vida as quais não podemos fugir, sejam partilhadas e amenizadas diante da força inabalável da união de nossas mãos.

Tempo para te escrever, desenhar, pintar, esculpir você, tempo para ouvir o som de tua voz de maneira tão extasiada a me fazer perder a noção de tuas palavras, retendo apenas a melodia de tua voz; horas a dançar contigo, a cantar desajeitada no teu ouvido, tempo para descansar da vida no teu colo, para sermos nós, tempo para não parar de te olhar e segurar tua mão no outono diante de um tapete de flores.

D.S.L

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