Raro como as luzes do outono

“Vem aqui no seu lugar no mundo”, era assim que te convidava para os meus braços antes de adormecermos, afagando tua cabeça tão cheia de temores e conflitos em meu ombro; vem aqui no seu lugar no mundo: uma suplica para que tudo mais deixasse de importar. Vem e esquece a guerra lá fora, a conta no vermelho, o móvel que compramos pela internet e que ainda não chegou, esquece o que não deu certo hoje, a discussão no trabalho, esquece lá fora e faz desse meu abraço o teu lugar, faz de nós o que importa, o que sonhei, deixa a realidade cruel e adormece no meu cheiro, faz de mim tua nuvem de sonhos. Vem livre, sem medo, sem passado, sonha, vem pro seu lugar no mundo…

Tenho abraçado antes de adormecer minhas orações para que teu coração esteja em paz, livre da insônia, livre dessa saudade angustiada que me assola e amedronta, livre de tudo o que te afastou desse lugar que sonhei pra você, o qual te ofertei de maneira tão simples, tão minha, bonita e singela.

Tenho afagado o vazio, a saudade, o sonho que não foi possível, tenho sentido o cheiro do papel molhado sobre a caneta que teima em rabiscar um final que não seja esse, mas você não é uma historia que eu possa escrever, não coube as minhas palavras o final feliz, não é de minha autoria tantas horas cruéis, sem sentido e indiscutivelmente tristes.

Vem aqui no seu lugar no mundo, pronuncio essas palavras a instantes vazios onde você não esta, sem o peso do teu corpo rente ao meu, sem tua mão presa a minha, a falta da tua respiração me aperta a garganta, assustada e sem ar salto da cama e me perco, perco, perco… No ar ausente, no quarto escuro, na coberta gelada, no travesseiro vazio me perco como quem deixa de existir.

Doem-se, entreguem-se, ofertem o melhor colo, o melhor abraço, beije desesperadamente quem você ama, oferte sorrisos em dias cinza, naufrague em fé, seja otimista, confie no universo, nos anjos guardiões daqueles que amam, dê a quem você quer do seu lado um mundo melhor, um mundo de vocês, livre de mentiras, dor, e desesperança, livre do que há lá fora de caótico e cinza. Dentro de um abraço todo amor é possível, protegido, ocupando o lugar que realmente importa: todos.

Amem-se, perdoem, esqueçam, valorize cada pequeno gesto, cientes do quão raro é viver um sentimento verdadeiro em mundo cheio de pessoas de mentira. Saibam: nada mais importa além da paz de ter nos braços a quem se ama.

Abrace seu lugar no mundo, seja ele qual for e onde estiver

D.S.L

 

outon

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“Felicidadezinha” (assim no diminutivo mesmo)

Antes de adormecer peço uma felicidadezinha para o dia seguinte, um carinho pros olhos, um arrepiar de leve a pele, um sorriso mais denso e solto, uma felicidadezinha qualquer, pequena, boba, simples, apenas uma felicidade.

Adormeço e sonho com o mar, lindo, distante, não me assisto no sonho, mas posso sentir o vento fresco com cheiro de vida nova, de alma perfumada, não me assisto, mas sinto os olhos marejarem de saudades, pois a muito não encontrava esse meu velho companheiro, conversei durante toda a madrugada com a melodia das águas.

Fui despertada pela luz que teimou com a cortina e invadiu o quarto, meus olhos não reclamaram, pois a luz fez-se presente de maneira muito delicada, como um carinho de mãe; sorri ao constatar que a luz venceu o despertador, sentei a cama e relembrei meu sonho feliz, meu velho companheiro é capaz de me fazer bem até distante, além dessas montanhas.

Deixo a casa adormecida, pelo caminho vou seguindo por mais um dia, lembro o sonho, a luz que me despertou, e então já são duas as felicidadezinhas as quais a vida me ofereceu, agradeço por tê-las enxergado, tão singelas, tão raras.

Ouço uma musica nova, muito bonita, um amigo me enviou, a letra fala de esperança, de novos tempos que serão melhores a todos, fala de um amor que contaminara o mundo, e que tal contagio não terá cura, nos fazendo viver sobre uma gestão universal de paz e harmonia, a melodia sensibiliza a alma, cerro os olhos e acredito junto.

Um bebe me alcança com o olhar, estende a mão em minha direção e sorri, duas senhoras conversam animadamente enquanto caminham devagar (velhas amigas), um casal se beija cheio de saudade enquanto planejam o jantar de logo mais, uma criança fantasiada corre pela rua com uma espécie de varinha de condão, toca pessoas, fala palavras mágicas e  “alakazam” arranca-lhes um sorriso.

São muitas as felicidadezinhas, essa oração tola a vida, essa simplicidade tão bela de Deus, tão possível quanto algodão doce em parque municipal.

Leio um texto fantástico em um livro de contos, tão fantástico que sinto o desejo de ligar para seu autor e agradecer, como ele já não esta entre nós, olho para o céu, sorrio e agradeço em pensamento, certeza de que ele ouviu e sorriu de volta, sabendo que sua existência tão conturbada, compartilhando sentimento tão seus, traz paz a quem o lê.

Um grande amigo confidencia que ainda escreve poesias, rascunhos tímidos ele declara, ressalto que a beleza ainda que enferrujada encanta, é lindo quando não perdemos a essência, e o desejo ainda que sufocado de transcender.

Uma lua nova festeja o céu, as três Marias aparecem nítidas e latentes, é uma noite harmônica de outono, o cheiro das folhas partindo, renovando-se sem pressa, sem caos, a vida podia tanto imitar uma arvore no outono, renovando-se sem vomito, sem falta de ar.

Depois de muitos dias, você esta de volta, quase não acredito quando atravesso a porta e encontro seu sorriso novamente, sei que o acompanho a muitos anos, mas nesse dia de tantas e tamanhas felicidadezinhas, é esse sorriso tão lindo e sábio que abrilhanta por completo o que se iniciou com uma oração pedindo um punhadinho de alegria, diante de tempos tão difíceis.

Felicidadezinha pequena, tola, simples, e a vida me presenteia com um dia completo de acontecimentos belos, singelos e magníficos, que alimentam minha alma desnuda como as arvores no outono.

D.S.L

cachorro

 

 

 

Meio assim…

Todo mundo anda meio cansado mesmo, meio partido, ligado no piloto automático. Todo mundo anda meio perdido, se perguntando o que será, como será, o que esperar? Tentando decifrar o amanha tão distante das mãos, tão sonhado longe do despertador. Às vezes imaginamos uma vida tão melhor, com tanta força e fé que chegamos a sentir o cheiro das “coisas” novas, e o peito aperta pequeno feito mola, e os olhos bobos marejam diante de uma luz que só um coração ainda mais bobo consegue sentir.

Todo mundo anda meio sem tempo, correndo pra lá e pra cá, acordando com a sensação de cansaço, às vezes com vontade de chorar, com medo, com dor, mas vai seguindo: sem tempo, com medo, com dor, vai seguindo… Cheio de uma saudade de um tempo, de alguém, da gente mesmo. Todo mundo anda meio ausente de si, a tal globalização que conecta tantas pessoas, não salva ninguém da solidão, não senta – presente – à mesa de jantar pra perguntar como foi seu dia.

Todo mundo anda meio sem tempo mesmo, e já estamos na metade do mês de março, o ano já é um adolescente, com características bem peculiares aos nossos tempos: isolado, confuso, querendo ser bonito, popular, pedindo ao universo aceitação, se perguntando quem é, a que veio, quieto, com olhos que dispensa apresentações ao decretar: quero tudo de uma vez.

Todo mundo anda buscando a plenitude, tentando harmonizar a realidade de alguma forma, meio que se convencendo de que tudo esta bem e o que não esta em breve ira melhorar, e acho que é assim que todo mundo se encontra: em um sentimento comum de esperança.

Todo mundo anda rezando baixinho, pedindo pela Síria, pela Nigéria, pela falta de pão, de amor, de fé, pelas eleições, pela guerra diária nas ruas, nas casas, escolas, por uma trégua com a vida, uma espécie de pacto para que o mundo se transforme em lugar menos triste e cinza, todo mundo anda rezando baixinho, pedindo um pouco de amor, confiança e segurança, todo mundo anda sonhando com um desequilíbrio de coisas boas, prosperas, alegres.

Todo mundo anda querendo olhar para dentro de si e ter paz, enxergando paz no outro, e uma luz iluminando quem tem caminhado aguardando o cair das folhas de outono a espera de que a vida fique bonita outra vez!

D.S.L

 

beleza*

*imagem da internet

Não é em Seu nome!

A guerra na Síria tomou assento no trono de discussões das redes sociais, nos últimos dias viu-se de tudo: crianças chorando, imóveis em ruínas, relatos de que pessoas estariam cometendo suicídio para fugir enfim de todo horror que assola suas vidas, textos e mais textos cobrando da mídia uma maior divulgação e relevância do que esta acontecendo. É tudo muito triste e cruel, a humanidade permanece num descaminho sem fim, ou melhor, muito próximo do fim.
Muitos acreditam que todo esse horror é apocalíptico; sim, as escrituras sagradas narram que nações viveriam em guerra, há trechos que descrevem as ruínas e a extinção da vida em Damasco, capital da Síria.
Há muito que dizer, a muito que pensar, são inúmeras interpretações de tudo o que esta ocorrendo não só na Síria, mas em todo o mundo, vivemos uma situação perigosa que ultrapassa as barreiras dos países em guerra, cada canto do mundo com seu quinhão tem sofrido as dores de parto proféticas.
O que não se pode decretar é que esta é a vontade de Deus, parto do principio de que cada um tem o direito soberano de crer no que bem entender, desde que não ofenda, machuque ou rebaixe o outro. Respeito, tolerância e empatia são primordiais para que se viva em sociedade, mas aceitar as peculiaridades alheias para a humanidade ainda é mais difícil do que pisar na lua.
A historia esta ai para nos mostrar os horrores que foram e que ainda são cometidos em nome de Deus; O imagino caminhando pelo mundo, descrente do que fizemos com suas criações, estamos destruindo o planeta, arruinando famílias, descrendo do amor, plantando desesperança e medo, sangrando crianças de varias formas, pregando preconceitos em seu nome, fundamentando nosso egoísmo e covardia, escondendo nossa crueldade através Daquele que nos pediu tão simples e humildemente para ama-lo e amar a todos como a si mesmo.
As varias publicações que li fundamentando o caos no mundo através do apocalipse tem passado uma mensagem onde Deus parece um ditador psicopata, cruel e injusto, colocamos sobre Ele a cruz que nós escolhemos carregar, pois nos foi dado o livre arbítrio e a historia poderia ser triunfal, Deus poderia estar orgulhoso de sua criação, mas acho que não, penso que não…
Nenhuma guerra pode ser vontade de Deus, ou em seu nome, nenhum mal pode ser justificado com suas palavras, nenhuma vida pode ser rebaixada, ceifada ou excluída pela fé, não façam isso, não mais.
A guerra é mantida pela ganância, pelo oportunismo, enquanto muitos choram e se compadecem os senhores empresários da industria de armas lucram. Uma escola é invadida por um jovem armado: lucro, pois pais amedrontados comprarão mais armas e darão elas a seus filhos, a criminalidade mais bem estruturada do que a policia: lucro. A obra do hospital inacabada, tal qual a falta de medicamento, medico, e demais recursos é lucro para algum político, para planos de saúde, tal qual o roubo e a morte é lucrativo para seguradoras.

Transformamos a vida em uma grande negociata: é bom para alguém, não importa o outro, não importa o professor ganhando pouco, a escola sem estrutura, a vida de muitos sem esperança, é lucrativo para alguém. Faço-lhes uma simples pergunta: O que aconteceria com a guerra, com a violência, se a indústria de armas extinguisse a fabricação de munições? O que aconteceria com o Brasil se não fôssemos vitimas de tanta corrupção, já imaginaram como seria viver em um pais onde toda arrecadação de impostos fosse transformada em melhorias?
Deus não é o culpado, pois Ele é bom todo o tempo, creio que a vida humana tenha sido sua maior criação, a qual tornou-se refém da ganância e da desumanidade. O imagino recebendo cada criança, cada pai de família morto em conflitos diversos pelo mundo, O imagino caminhando descrente na dádiva de nos ter concedido o livre arbítrio, o qual tornou-se nossa mais maléfica arma contra nós mesmos.
Creio no que esta escrito, pois de fato esta acontecendo, mas tenho certeza de que poderíamos ter feito tudo diferente se houvéssemos guardado algumas simples palavras ditas por esse Deus tão bonito e tão incompreendido, mal interpretado e desprezado: “Jesus lhe disse: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o maior e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Estes dois mandamentos contêm toda a lei e os profetas (Mateus, XII: 34-40)”

A guerra, o fim, o caos, não é o agir de Deus, não creio que Ele queira que recaia sobre nós tanto sofrimento, não diga que todas essas mazelas provem do poder do Senhor, pois nenhuma de suas obras é má ou vingativa, estivemos avisados durante todo o tempo, mas nada fizemos para evitar o que iria nos consumir: a falta de compaixão motivada pela ganância.

D.S.L

quemdeus

Nós não sabemos, e é isso!

Não é assim que tudo deveria ter acontecido, não é essa a lógica das grandes historias, ou ao menos não deveria ser, reencontros depois de anos, são aqueles parágrafos mágicos, que nos faz ter esperança e fé na força de um sentimento, é aquela parte da historia em que todo mundo vibra e aplaude: o amor triunfa, vence, é o grande campeão nessas novas linhas que desafiam o passado; afinal, o tempo fez bem a seus personagens: amadurecendo-os, como se a vida os estivesse preparando para algo muito maior do que poderiam supor.

Onde estão as flores primarias se tenho as mãos cravejadas por espinhos que roubaram a beleza do que deveria ter sido… Onde estão as flores que sonhei abraçar? Não chegaram, não floresceram…

A vida é mestra em transgressões relativas a probabilidades, fatos impossíveis ou improváveis, a vida é mestra e traz como bandeira um decreto: não é uma ciência exata, pontual e fatídica.

Não há vidência que lhe diga quando, onde, com quem, em que situação, não há mapa astral que consiga acompanhar os desenhos costurados por Deus; nós não sabemos, e é isso!

Era pra ser aquela parte da historia em que tudo faz mais sentido dentro de um abraço que parece laço diante de tanta saudade sufocada, aquela conversa a beira mar onde ele inacreditavelmente se mostraria mais bonito frente aos teus olhos, tão próximos aos meus, e então nessa parte da historia entontecida pelas cores desse por do sol a beira mar, recordaria em silencio às vezes em que busquei no horizonte um sentido na vida que não fosse a espera pelo teu amor, e a resposta estaria no seu rosto: nesse teu sorriso que seria tão por nós, que desafiaria esse passado de contratempos e saudades, me saudando baixinho feito uma prece, a qual meus olhos agradeceriam aos céus pela tua vinda, por esse tempo.

Não faz sentido essa cor cinza, esse olhar úmido, essas palavras tremulas que parecem temer o som, não esta certo adormecer em outro lugar que não seja o teu abraço, não é correto não ouvir mais a sua voz, não alcançar tuas mãos, não é justo a saudade tornar-se alienada do que não foi possível e perseguir-me durante as horas que me trazem como herança uma pergunta tão curta, a qual não condiz com o tamanho da crueldade que se manifesta em silencio: por quê?

Seja como for: nos não sabemos, e é isso! Seja como for, sempre terei o mar diante dos meus olhos, quem sabe soprando respostas com sua brisa calma e curativa, explicando a minha alma o que não faz sentido, o que não pode ser nessa vida, ou apenas sendo espera como quando tudo era apenas um sonho.

Eu sempre terei o mar…

D.S.L

sempre

O guardião das sementes

Guardei durante muito tempo em uma caixinha azul sementes que esperavam ansiosas para serem germinadas, a cada ano elas pareciam cada vez mais fortes, o tempo as vezes pode ser cruel, mas no caso dessas sementes foi amigo conservando-as intactas, cada vez mais brilhantes, intensificando a esperança de que bons frutos seriam colhidos assim que elas encontrassem o único terreno a qual elas poderiam pertencer. A única instrução que me foi dada pelo tempo era exatamente essa: tais sementes só poderiam ser germinadas em um terreno distante, o qual somente a força do destino poderia fazer encontrar.

Percorri longos caminhos. Por muitas vezes questionei as regras impostas, tive medo de que sementes tão bonitas apodrecessem, ou que minhas mãos tão calejadas perdessem a força e a esperança de cultiva-las. Incontáveis foram os sonhos de um vasto jardim, elas floresciam em meus olhos, a força do meu querer era tão forte que por diversas vezes meu pensamento criou cheiro, cores, e vida aquelas sementes que permaneciam guardadas, eram elas meu maior segredo, o grande sonho, eram daquelas sementes a força de toda uma vida, a elas seria dado todo o esforço que fosse necessário para que pudessem germinar, trazendo beleza e encanto aos olhos dessa menina de coração sonhador.

Dinheiro, status, bens materiais, vaidades tão comuns a todo e qualquer ser humano, cada um que busque seu quinhão, a cada um cabe um mundo individual de felicidade, a mim aquelas sementes representavam toda a riqueza que um coração poderia ter, uma vez cultivadas seus frutos alimentariam de felicidade, paz, e fé o tempo que me resta de vida.

Meus olhos avistaram a terra tão esperada, ao longe sonhava com o que mal acreditava… Era um sonho, um grande sonho… Tudo o que poderia ser, nada mais me parecia impossível, enfim aquelas sementes encontrariam seu destino.

Quando meus pés finalmente tocaram a terra, a sequidão do tempo havia consumido a vida daquele chão, um deserto formado por mãos que surrupiaram a fertilidade necessária ao solo para cultivo, muitos eram os espinhos, ervas daninhas, mau trato da terra, mas aquela era a terra as quais as sementes pertenciam, a mim caberia paciência, dedicação, amor nas mãos que poderiam trazer vida aquela terra tão machucada.

Tentei vencer o emaranhado de espinhos, mas eles brotavam todas as vezes que a terra se mostrava pronta, esperei pacientemente a tempestade passar ainda que o medo sacudisse meu coração a cada raio que riscava os céus, alguns dias de sol me traziam esperança, mas então a ventania repentina ocultava a luz, tornando tudo cinza e triste. Tinha as mãos machucadas, o corpo cansado, os olhos embotados de terra, suor e dor. Incontáveis foram as vezes em que me ajoelhei sobre esse chão, em suplica aos céus para que um novo caminho surgisse salvando o solo de minhas sementes.

Em desespero tentei fazer de lágrimas e orações o adubo capaz de salvar aquela terra, em desespero velei aquele chão pela madrugada com a esperança de que o orvalho da noite junto a fé de um sonho transformasse aquela natureza; Em desespero finquei as sementes na terra, a força do amor poderia enraizar devagar feito um carinho inesperado, vencendo a aridez. Em desespero chorei agarrando a terra entre os dedos, suplicando em oração para que as sementes germinassem, mas de tão seca ela as expeliu uma a uma; em desespero as recolhi, pois a mim são preciosas, raras e imensuráveis.

As sementes estão seguras agora, as manterei longe da tempestade: em meu coração o qual torna-se guardião do que tenho de mais precioso, estarão comigo eternamente e num flerte com o impossível encontrarei a chave para o infinito, para o que não pode ser nessa vida, seja como for, as palavras serão os frutos possíveis, e ainda que solitárias elas carregarão a beleza das flores do jardim que sonhei para nós.

D.S.L

 

flor

Hoje pode ser o ultimo dia

Amanha ligo sem falta, semana que vem nos encontramos, nas próximas férias faço uma visita, no próximo feriado, daqui a quinze dias… Seguimos com essa espécie de procrastinação de vida, cientes de que não temos o controle sobre o minuto seguinte, fato que planejar é preciso, mas adiamos como se escrevêssemos o roteiro sozinhos unicamente com as próprias mãos. Não poderíamos jamais nos libertar de constatação tão solida ainda que triste: hoje pode ser o ultimo dia!

Pode ser o ultimo dia, aquele pode ter sido o ultimo abraço, o ultimo olhar, a ultima palavra, o ultimo beijo, noite, momento, sua ultima chance em um capitulo final determinado pela vida, seja pelo fim da viagem, ou pelas mudanças que ocorrem sem nos perguntar qual é nossa vontade ou opinião.

Não era pra ser, precisava ser assim, Deus planejou dessa maneira; destino, carma, resgate, somos treinados a pensar dessa forma, pois o indulto recai sobre a alma castigada como balsamo, mas antes, bem antes, analise suas parcelas de culpa, pois existe uma grande diferença entre resignação, resiliência e consequência.

Devemos carregar uma boa dose de medo, pois ele nos protege, nos faz mais cuidadosos, cautelosos e obviamente sábios.

Consciência limpa e alma tranquila fazem da dor um degrau para que possamos amadurecer, afinal ninguém precisa ser forte diante da felicidade.

Dizer adeus sabendo que cada instante foi aproveitado, cultivado e cuidado nos trás alento, um “quentinho” no coração em meio a tanta solidão, a qual como já dizia o poetinha é o fim de quem ama.

Não podemos controlar o tempo, esse senhor sábio, curativo, algoz de algumas situações, anjo consolador em tantas outras, o qual caminha tranquilamente entre nós enquanto nos esbarramos desconectados do que realmente importa: hoje pode ser o ultimo dia.

Hoje pode ser o ultimo dia, ou o primeiro a que você compreenda de fato o quão importante é essa consciência, pois assim o pensamento trabalha em harmonia a atitudes capazes de nos salvar do remorso diante da dor inevitável da perda.

Acredite nos clichês: valorize, cuide, acalente, abrace, beije, brigue menos, agradeça sempre, analise melhor, ganhe tempo pensando, faça uma oração antes de agir, respire fundo, evite machucar, ferir e, por favor, de importância ao que é primordial: a quem se ama.

Acredite: hoje pode ser o ultimo dia.

D.S.L

TEMPO