Tamanho e besteira

Minha avó costuma dizer que só tenho tamanho e besteira, ela tem toda razão. Sou toda grande: um exagero desproporcional a minha baixa estatura.

Braços grandes, que se esticam em manhãs bonitas em busca do sol, em uma espécie de clamor a coragem para recomeçar, capazes de enlaçar por um minuto em busca de reter o momento que o futuro tantas vezes teima em dizer que é passado; costas largas para suportar o peso das horas, dos dias, do silencio, da calmaria. Boca enorme, sorriso grande de palhaço que não sabe porque ri, apenas ri, pois é isso que importa: vencer a tristeza dos dias e sorrir; mãos que buscam proteção, captando a luminosidade do que não pode ser tocado; dona de um nariz avantajado, desajeita, destrambelhada.

Um excesso ocasionado pelos instantes de poesia, musica, e dias tão bem vividos no mar, donos de uma beleza pura e dilacerante que faz querer cantar e pular e sorrir e ter sonhos e assim tudo sem pausa, sem vírgula, sem protocolo, quase sufocando, trôpego, tremulo. Sonhos e mais sonhos que jamais irão bastar, que não cansam de existir, que rabiscam a vida providenciando tudo o que mais lhe encanta.

Minha avó diz que só tenho tamanho e besteira, respondo que tenho mais besteira do que tamanho, e uma loucura de saber as coisas, tocá-las, ouvi-las, e ver de perto quase sem ângulo o que pode ser delas, dessas coisas vãs, fugidas e lindas.

Besteira e tamanho! O mesmo que nada, ainda que completa por palavras alheias de gente jamais vista, mas sentida de forma tão verdadeira.

Besteira: olhar o mundo, encantar-se por ele e partir no próximo disco voador, ou de carona nas asas de um querubim, quem disse que discos voadores não existem é a mesma pessoa que não acredita em querubins! É você que não vê, seus olhos estão cegos, portanto não tente me enganar: sei que há muita vida por ai, e tanta ilusão a ser descoberta, mas ainda há pouca coberta para cobrir a alma de um sonhador, ainda assim debaixo de meus sonhos sem chão, vejo as estrelas e elas me bastam para acreditar.

É isso: tamanho e besteira, o tamanho, o tanto que parece grande, e um pouco sábio, e as vezes um tanto sem jeito, é teu, teus olhos veem assim: grande. A besteira vem dos céus, de Deus, de tudo o que Ele me ensinou a tocar com os olhos, com a alma, plantando em mim toda essa predileção ao encantamento, o qual creio: jamais caberão em uma só vida, pois a vida, ah… Tenho algo dizer sobre a vida: ela é tão bonita que dói.

D.S.L

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Independência?

Temos um novo governante, não o chamarei de presidente porque a mim essa denominação merece respeito, e não reconheço nesse senhor a excelência para tal. Michel Temer não me representa, rejeito veementemente sua condição, pois a nuvem negra da traição paira sobre seus atos, de aliado a inimigo em muito pouco tempo, condizente inclusive com toda a situação do pais enquanto vice presidente, investigado, suspeito, e por fim de maneira vil traindo com um sorriso vitorioso e sórdido no rosto. Não, não, ele não é confiável.

Sim senhor Michel, o senhor é golpista em todos os sentidos da palavra! E sim senhora Dilma, a senhora é cúmplice de bandido, portanto criminosa!

Ainda assim… Não acredito que os olhos de Temer ficarão vermelhos reluzentes, chifres pontiagudos não irão surgir em sua testa oleosa, caninos não crescerão, nem um tridente aparecera a seu lado em um trono aveludado e ornamentado por chamas, em contramão Dilma não recebera um par de asas, tão pouco merece ser posta em um altar com rosto sereno, mãos ao peito e rodeada de luz. Nem demônios, nem santos, nem anjos, tão pouco salvadores da pátria.

Todo processo um grande teatro, papeis gastos e personagens esfarrapados, mentirosos, fanfarrões, dotados de um cinismo descomunal.

A maior, ou talvez única verdade que será documentada nesse impeachment será a frase vociferada pela senadora Gleice Hoffman (diga-se de passagem, o marido esta preso por envolvimento em maracutaias políticas) indignada: “Qual é a moral que tem os senadores aqui para dizer que ela é culpada, para cassar? Quero saber. Qual é a moral que vocês têm?”. Nós também queremos saber senadora, nós também!

Alias pensar em governar com moral, respeito e honestidade a pátria amada tão dilacerada, assaltada e desgovernada Brasil é o que eles menos fazem, não se enganem: o poder é bem mais atrativo do que o pobre, portanto é pelo poder, pelo dinheiro, não tem nada pelo outro, tem para si mesmo, e isso meus caros cidadãos é contagioso, dificilmente quem beberica nessa taça consegue não se lambuzar, e como indulto para uma consciência as vezes atormentada o clássico: tiro o meu, mas faço algo por todos, e assim temos  a pratica da propina, do extra, do caixa dois, do mensalão, do petrolão, institucionalizada e perdoada.

Nesta guerra de poder quem perde mais uma vez é o pais, que continua depenado, sabemos o quanto custa manter uma base sempre aliada ao governo, de olhos bem abertos temos a noção do quanto a falta de estrutura nos sistemas de saúde, educação, agricultura, etc., esta condicionada a essa gana ensandecida por parte dos nobres governantes que a qualquer custo, na base do doa a quem doer, defende seu mando, no alto de uma soberba incalculável. Eis a monarquia que coroamos nas urnas.

Estamos todos escravizados, todos!

No mais, continuo torcendo pelo Brasil, sem partido, sem golpista, sem ladrão, pelo Brasil do bem, que faz musica, poesia, dança, arte, continuo torcendo pela professora que estimula seus alunos, pelo medico do posto de saúde que olha o paciente nos olhos, torço pelo menino da comunidade que passou no vestibular, torço por esse povo de fé e devoção, solidário, humanista, que emociona a todo mundo por atos de coragem, bravura, inteligência, humildade e talento, e que um dia estará liberto dessa gente covarde e tão pequena.

D.S.L

 

 

 

A festa é nossa!

É incontestável: há outras prioridades no país, as quais por muitos motivos andam sempre a margem da própria sorte, amparada pela negligencia por parte do poder publico.

A cidade sede das olimpíadas, o tão famoso Rio de Janeiro sofre com cofres públicos arrasados, o governo desmantelado não tem dinheiro se quer para arcar corretamente com sua folha de pagamento, isso sem falar na falta de segurança, trafico de drogas, prostituição infantil, etc.

Falta-nos saúde, educação, justiça, igualdade… São problemas estruturais, crescentes, os quais não serão resolvidos em um piscar de olhos, e o que lamento é saber que todos esses problemas provem da ma gestão, somos assombrosamente assaltados por aqueles que nos governam.

Não temos um rei, temos vários, vejo-me diante de uma monarquia sem sobrenomes, onde o eleitor escolhe seus algozes, e eles nos tem comandado com requintes de crueldade.

A culpa não é sua, nem minha, nem de todos aqueles que acordam cedo, batalham, estudam, e tentam caminhar sem usurpar nada de ninguém, porem é um sentimento que tem se apossado de nossos ombros e com todo esse peso, esses monarcas escolhidos por nos, tem arrancado de todos um bem muito precioso, esse descaso gritante tem ofuscado a esperança sempre tão brasileira de que somos um povo bonito e único.

Ninguém tem que sentir vergonha do pais, quem precisa ser envergonhado são esses ratos de esgoto, desconhecedores de caráter, dignidade, honestidade e verdade. Não somos nos os perdedores, são eles, cada um deles, homens cambaleantes, donos de falas desconectas, mentirosas e arrogantes, que desconhecem a lei do retorno, mas que chegara, e a fatura caros ratinhos é bem alta.

Nossa alegria esta maltratada, chicoteada, em fase quase terminal.

O pais esta bagunçado, e ainda assim convidamos o mundo para entrar, sentar e tomar café, e essa visita não chegou de surpresa, tal qual essa crise que estamos atravessando ela foi anunciada.

Sei que tudo esta muito errado com o pais, mas não podemos deixar que isso nos leve de uma vez por todas a esperança, não podemos ficar imunes a tudo o que de tão bonito ainda temos, não é justo apenas criticar, não somos perfeitos, mas somos lindos, um povo cheio de mistura, cor, musica, e que como ninguém sabe sorrir.

Não podemos perder a emoção, o brilho nos olhos ao ouvir o hino nacional de força tão linda sendo cantado por um craque da musica popular e toda sua elegância, vimos a velha garota de Ipanema caminhar maravilhosa, soberana e reinventada, a força de empoderamento da mulher negra, o grito de quem clama: “eu só quero é ser feliz”, não podemos deixar de dizer que isso aqui, é um pouquinho de Brasil(e que é esse pouquinho que vale a pena ser conhecido), que canta e é feliz, proveniente de uma raça que não tem medo de fumaça e que não se entrega não.

Não devemos, não podemos e não merecemos nos entregar somente as criticas, as tristezas, e mazelas, pois não venceremos todos os nossos problemas motivados pela amargura, tão pouco pela falta de esperança.

A lagrima é verdadeira já dizia Renato Russo nos versos de sua canção, e que seja sempre verdadeira, e que ela se derrame com as poucas vitorias e raros momentos em que ainda podemos nos orgulhar de ser um povo bonito e único, donos do maior show da terra, a qual sua gente sabe executar com maestria, ainda que escalpelados pelo descaso de quem não merece ser brasileiro.

A festa não é deles, é nossa!

D.S.L

Raros, Por João dos Anjos

As veias saltavam nas costas das mãos acinzentadas e ressecadas pela lida com o cimento, palmas ásperas e calejadas, os dedos grossos como uma parede rebocada. A cara, na altura dos olhos tinha os cantos enrugados de sol, uma cor acobreada que condenava: a vida me castigou cedo. Foi preciso lutar para vencer a fome e a solidão de criar oito irmãos lançados a própria sorte desde que o pai foi assassinado de maneira covarde e cruel.

Uma morte sem sentido, ignorante, que feriu muita gente.

Um forasteiro desavisado que não honrou o pagamento da construção de um telhado. Pai foi alvejado pelas costas quando de manha bem cedo em forma de protesto pelo não recebimento dos valores que o sujeito lhe devia, subiu até o segundo andar do sobrado de marreta em punho e começou a quebradeira que lhe tirou a vida; quem viu a cena jura que pai voou do telhado como se tivesse asas, alguns pedindo desculpas antecipadas relataram beleza no bailar do corpo no ar, mesclado pelos primeiros raios de sol daquela manha em que toda uma vida de honestidade, trabalho e amor foi encerrada com o baque ensurdecedor do corpo ensanguentado que terminou no chão áspero do homem que se quer cumpriu pena, o sujeito tinha as costas quentes e o peso de varias mortes sobre elas.

A cidade se alvoroçou por uns dias, quiseram linchar o amaldiçoado, mas o advogado o enfiou em seu fusca velho e rumou com o cabra estrada a fora, nunca mais se ouviu noticias do sujeito, nunca mais minha mãe voltou a ser alegre.

Herdei o oficio, oito irmãos, uma casa, ferramentas velhas, duas vacas, meia dúzia de porcos, e uma mulher triste que fazia um esforço tremendo para manter-se de pé, criar os filhos e se juntar ao amado em um céu prometido, um lugar bem mais feliz e justo do que esse daqui. Chorava quando nos olhava nos olhos e declarava romântica e sombria: ainda pelejo com vida por vocês.

Segurando uma bandeja ela surgiu e logo o ar se embriagou com seu perfume chamando minha atenção, estava terminando de alinhar os três metros restantes da porta da sala ao portão; quando a vi tirei o boné e parei a vida nos olhos dela que caminhou pelo cimentado fresco estragando o serviço de um dia inteiro de trabalho, não atentei, estava em transe. Diante de mim ofereceu o copo: água fresca e gelada que bebi com gulodice sem tirar os olhos dos dela, nos tornamos raros um para o outro naquele instante.

Ela abandonou a família (não o contrario) a qual mais cheia de poses do que posses: definhava. Movida pela coragem de um amor tão necessário quanto respirar, foi dividir a vida comigo num casebre construído com muito suor e esforço na terra de chão batido que pertencia a meu pai. Da casa ancestral fez questão apenas dos livros, quando acusada de perdida, devolvia resoluta: escolheu o amor, o simples, trocou a ilusão de princesa que sonharam pela vida real, de fato não nascera para usar coroa, rebuscada por pessoas que cheiram muito bem enquanto a alma apodrece, gritou corajosamente: nasci para ser feliz!

Em noites quentes sobre um teto coberto de estrelas, e uma lâmpada fraca, acesa em frente de casa, lia seus livros nos levando para seu mundo encantado, às vezes contava estórias inventadas ao tempo e a hora de uma imaginação que transformou não só minha vida, como a de meus irmãos, e de minha mãe a qual com sua presença tornara-se menos triste.

Toda essa conversa, que em alguns momentos parecia soar como prosa, noutros posto drama, para lhes dizer que ser amado é o que nos faz raros, engana-se quem acredita no dinheiro, fama, e qualquer tipo de posse material que nos diferencie ou nos classifique nessa vida, somos todos comuns, iguais, não há nobreza, ou sobrenome que salve, a salvo apenas os poetas ainda que platônicos.

Ser amado é o que nos faz raros, condutores de uma luz diferente, única e divina que passa a nos guiar.

Não é questão de escolha, ou opção, somos escolhidos, e só assim dessa forma: com a alma perfumada, é que nos tornamos verdadeiramente presenteados por uma vida incrível, intensa, e extraordinariamente bela.

D.S.L

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Facilite sua vida!

Tanto a aprender e de maneira tão simples, descartamos beleza ao olhar somente o futuro, a inovação, e as vezes é na simplicidade sem apertar nenhum botão que encontramos respostas para questionamentos muito particulares, ou seja, os que de fato importam.

O que o futuro nos reserva frente a essa invasão de maquinas que nos causa frisson com o slogan: facilite sua vida!

Facilite sua vida: cafeteira, espremedor, televisão, micro-ondas, luz com acendimento automático, sensor de ré (ok. tenho que admitir essa facilidade me agrada); facilite sua vida: piloto automático, teclado, corretor ortográfico, fotoshop, comida pronta, TCC, monografia, diagnostico medico e todas as respostas ao clique de um Google; Sim, facilite sua vida, nada errado com a modernidade, afinal precisamos evoluir, ou ao menos tentar, mas não se iluda: a vida não é fácil, tão pouco pratica tal qual uma maquina de café em cápsulas.

Facilitando a vida, nos deparamos com uma triste realidade: estamos desaprendendo, ou melhor, não estamos preparados para encarar nenhuma dificuldade. Como assim ainda não inventaram uma maquina para produzir novas ideias? Existe alguém que resolva meu problema, o problema da empresa, o problema do mundo, então porque essa pessoa precisa ser eu? Estamos acostumados e acomodados a facilitar a vida, sim claro é mais fácil, mas aonde isso ira nos levar, ou melhor, aonde não chegaremos? É serio isso de que vou ter que buscar respostas sozinha? Cadê aquele tarja preta que preenche qualquer vazio?

A consequência de ter alguém ou alguma maquina para facilitar sua vida é essa: um tropeção, uma dor mais forte, ou algo que requer um pouco mais de você, de sua fé, sensibilidade ou determinação, é o mesmo que lhe deixar vendado em um labirinto, sabemos como cair, mas levantar esta cada vez mais difícil, melhor tatear o criado mudo, e fazer descer goela abaixo aquele comprimido amigo que ajuda a esquecer.

Evoluímos de tal maneira que não buscamos mais encontrar a saída, resoluções simples em alguns casos se dependerem cem por cento do humano não são realizadas com excelência, olhe a seu redor: conte quantas maquinas estão próximas a você.

Balela todo esse blá blá blá: Facilite sua vida!

Ainda não foi inventado um botão de reset que zera a vida e a reinicia automaticamente, novinha em folha com a memória descarregada, pronta para ser usada por horas, o nome disso ainda é descanso, paz de espírito, grama verde roçando nas costas, vista para o mar, roda de amigos, auto analise, musica…  Mas nos optamos por não parar… Qualquer dia surge uma maquina que queira isso mais do que nós.

D.S.L

Cinemascope-inteligência-artificial-3*Imagem filme AI – Inteligência artificial , do diretor Steven Spielberg

Vou caminhar por ai…

Vou caminhar por ai, talvez sábado passear com os cachorros, preciso lavar o carro, mas isso só se o tempo ajudar, arrumar armários, quem sabe no fim de tarde no domingo uma conversa com amigos, vou ler, assistir televisão, ouvir musica, instalar mais prateleiras na parede, e tentar não chorar, por enquanto vou somente caminhar por ai…

Não vou mover um centímetro que seja para ofuscar tua presença, nada de guardar porta retratos, nada de anúncios ou alardes, pois na verdade não pretendo te esquecer, por enquanto vou apenas caminhar por ai, socando o ar vez ou outra com um suspiro mais fundo que parece lamentar não ouvir tua voz, e ainda que os olhos denunciem uma tristeza silenciosa, ainda que vez ou outra uma lagrima teimosa me escape, vou apenas caminhar por ai…

Talvez segure sua foto nas mãos tentando esquecer que tudo mudou, por um minuto chego a discar seu numero no telefone, não saber você é tão cruel quanto uma pagina em branco enquanto um amontoado de inspirações teimam em não deixar a imaginação, mas por agora vou apenas caminhar por ai…

Nada de olhar para o lado, não sou do tipo que precisa de consolo para se encontrar, ainda que eu não tenha pressa e mesmo temendo o tempo, é para os seus braços que espero correr quando essa tela cinza desaparecer de sua visão, quando a sua vida voltar a ser bonita e você conseguir deixar o silencio intimidado com o som desse riso irônico e debochado que tantas vezes desarmou minha seriedade, ah esse azul cor de céu que por tanto tempo encantou meu coração e que na lembrança ira me guiar há caminhar por ai…

A minha verdade não permite que o amor suporte a tudo, preciso me desfazer dessa culpa, é necessário zerar as magoas e acusações, quebrantar as lacunas formadas pela vida, preciso me perdoar, deixar de ser triste e voltar a sorrir em paz, mas por hoje apenas caminhar por ai…

A vida criou esse redemoinho, tentei lhe segurar incansavelmente, porem a natureza fez suar minhas mãos e pouco a pouco a tua foi se desprendendo, tentei combater o vento, enxergar você alem dessa parede cinza, mas ao abrir os olhos a poeira misturada a velocidade do vento cegava-me novamente, o barulho ensurdecer de teus gritos ou de teus silêncios acabaram por nos afastar cada vez mais e então não consegui mais te ver, há muito tempo você já não estava ali, e ainda que minha vontade tenha querido resistir, foi preciso admitir: não restavam mais forças, a tempestade sucumbiu todos os sentidos, levando-nos a um deserto cruel e solitário.

Vou caminhar por ai, sarar meus olhos feridos pela força do vento e embotados de poeira e tristeza, vou caminhar por ai buscando a saída desse deserto, encontrar um campo vasto e verdejante onde possa novamente deitar meu corpo sobre a terra fresca e ouvir poesia, vou caminhar por ai, deixando que a brisa toque meu rosto novamente tão castigado pelo choro, meus olhos precisam de cor, alegria e vida, meu corpo clama por um banho de águas puras que possam resgatar minha alma, iluminando-a novamente.

Ainda que não possa mensurar o tempo, sei que iremos nos reencontrar em uma nova era bem distante de todo esse nevoeiro, mas por enquanto vou caminhar por ai…

D.S.L

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Não pode ser apenas o dia seguinte

E agora que o tempo passa rápido demais, mas as noticias e os dias são os mesmos?

E agora que o peito parece absorver esse frio do tempo, tudo congelado, em câmera lenta, deu-se uma pausa, e o verbo é indeterminado, não pode ser conjugado, não serve pra nada, deixou de ser sujeito para ser sujeitado, sujo, estático e sombrio. Uma tristeza acumulada parece aflorar sem pressa caminhando perigosamente junto a ansiedade, estamos todos roendo as unhas, de mãos atadas, com olhos chorosos e tarjas pretas que já não sustentam o peso de momentos que ostentam sorrisos somente no instante do clique, que ao segundo de um flash desaparecem, perdem o brilho e voltam cabisbaixo ao mundo irreal que criamos e que tem nos dado tantas vezes a sensação de infelicidade. Tem muita tristeza sorrindo para a foto.

O amanha não pode ser apenas o dia seguinte, é preciso mais que isso para manter a esperança na cabeceira da cama, olhar para ela e sorrir antes de colocar os pés no chão, caminhar até a mesa de café, e se vestir para o novo dia. É necessário mais do que esse tempo que parece correr para lugar nenhum, mas como o amanha pode renascer com esse estado moribundo entregue a uma mesmice corriqueira, vivemos uma era sombria: nos recusamos a crescer, muita informação e pouco pensamento, muitas imagens e pouca visão, muito conhecimento e nenhuma sabedoria, opinião própria não se faz necessário, afinal temos a quem literalmente seguir ainda que terminemos dependurados em uma privada vomitando o que automaticamente ingerimos através do outro.

O amanha não pode ser apenas o dia seguinte, acreditar nisso é o mesmo que desacreditar do tempo, desfazendo-se das horas com o que não é importante, é jogar a vida fora, desdenhar da existência, tempo é o que há de mais necessário e rico em nossa passagem terrena tão efêmera e inesperada, ele voa, não volta atrás, não pode ser comprado, ou vendido, não nos espera decidir por ser feliz, desperdiçar tempo com sentimentos inferiores, com a vida alheia, invejando o outro é suicidar-se um pouco todos os dias.

Analisar o coração e descobrir onde esta seu tesouro, os que faz brilhar os olhos e agradecer pela vida, e só assim nomear riquezas, podendo lutar por elas, toca-las, alcança-las e claro larga-se sem tempo determinado a desfrutar do que a nós de fato importa, eis um bom modo a gastar o tempo: amando, iluminando-se ao por do sol, deleitando-se ao som do mar, ouvindo do vento as confissões daqueles que ele percorreu e testemunhou o quão bela fora a vida.

Defendo a todo custo: o amanha não pode ser apenas o dia seguinte.

D.S.L

AMANHA

Cartilha

Atacada, assaltada, violentada, corrompida, a todo custo querem tirar-me o ar, não este que respiramos, mas o também vital que nos faz brilhar a alma e prosseguir, querem a todo custo roubar-me a esperança, sinto-me como uma presa amarrada e torturada em uma sala escura, debatendo-me a todo instante, de mãos atadas procurando uma forma de desvencilhar as ataduras nas mãos machucadas, encontrar a luz e viver novamente a poesia, a liberdade, aquele bom da vida que parece ter sido sacrificado por tanta tristeza, maldade, inveja e violência.

As noticias são as piores, vivemos a cultura do preconceito, do machismo, do achismo, da violência, da intolerância, da desigualdade, da corrupção, do estupro, do racismo, vivemos a cultura do egoísmo, do egoísmo, do egoísmo.

Como entender que uma criança de nove, dez, onze anos esta disposta a matar? A roubar? É de uma perplexidade inacreditável, é espantoso se deparar com esse tipo de maldade instaurada tão precocemente, do alto de minha imaginação, distante da cena olho para esse garoto e procuro em seus olhos embotados de ódio uma criança que morreu. Porque, ou por quem, sua infância foi assassinada? Com espanto lhe diria: você é só um menino.

O corpo do outro, a dor de todas, a violência de tantos, a prepotência da propriedade do que nunca lhe seria dado, roubam a paz, a vontade de amar, de entregar o corpo, não é doença, nem distúrbio, não é animalesco, nem demoníaco, é tão somente desumano, cruel, não há nada de bárbaro ou viril em um estupro, não é culpa da vitima, da saia, do horário, da bebida, a culpa é da sua covardia, do seu desejo de querer a todo custo intimidar. Covarde, covarde, mil vezes covarde!

Nascemos livres e tão bonitos, choramos a morte de formigas, viajamos pelo céu em busca de desvendar a forma de cada nuvem, brincamos de chegar mais rápido a um ponto de dois passos, bom dia senhor sol, até mais dona lua, a joaninha na ponta do dedo, a areia na palma da mão fazendo cócegas, a gargalhada sem sentido e contagiante, o joelho sangrando e o medo de nunca mais curar aquela dor, somos donos de uma poesia natural, portanto discordo de quem acredita que o ser humano é mau por natureza.

Aprendemos a maldade, instauramos mais essa cultura em nossa sociedade doente, e o resultado esta lhe apontando uma faca nesse instante, o resultado acaba de invadir um aeroporto cheio de explosivos, o resultado esta sentado no congresso roubando merenda, saúde, educação, roubando sua esperança, o resultado esta tampando a boca de sua esposa enquanto a espanca na frente dos filhos, esse é o resultado do que você chama de opinião, religião, cultura.

Ensine seu filho a devolver o que é do outro, a respeitar o que não é espelho, seja pela textura do cabelo ou pela cor de pele, que não é bonito rir do colega que prefere bonecas, ou maquilagem, que prefere a dança ao futebol, ensine seu filho claramente o sentido da palavra não, ensine a respeitar o ser humano, falar do outro é feio filhinho, sem esse papo de sexo frágil e rosa, e todo esse blá blá blá que dita a cartilha desses machistas em miniatura, ensine seu filho sem ladainha, ensine que ele é único e especial, mas que não esta sozinho no mundo, diga as suas meninas que sim: elas podem jogar futebol, ter carrinhos, pilotar aviões, ser astronauta, ensine sua filha que a beleza, aquela que realmente importa vem de dentro, ensine a fazer escolhas e a honrar suas consequências, ensine seres humanos a ter corações mais bonitos e menos egoístas, e se você, é você: que sonha em ser mãe, pai, se não estiver com disposição, paciência, tempo, ou saco para ensinar, aprenda de uma vez por todas: não tenha filhos.

D.S.L

EDUCAÇÃO-PIMENTEL

Nós dois nunca mais

Vá lá fora e respire um pouco, sugeriu um amigo.

Assenti com a cabeça, e instintivamente ele se propôs a ir comigo, o impedi, precisava ouvir apenas o som de minha respiração. Sai procurando o ar como alguém que esta confinado a anos em quarto fechado e escuro, minha atitude em nada lembrava a de uma pessoa que esta em uma festa rodeada por sorrisos e conversas alheias a minha falta de ar e de espaço.

Já faz um tempo que não caibo em mim, sobram-me pensamentos durante essas noites frias e saudosas do brilho das estrelas, o inverno nunca me fez bem, mas este tem o sabor amargo da ausência de esperança, a realidade tem ofuscado de meus olhos o sonho, a ilusão, farta verdade que dilacera os sentidos. Falta-me animo pela manha diante de mais um dia onde pareço um eletrodoméstico que automaticamente vem cumprindo suas funções a vários anos, estou gasto, cansado, a ponto de um colapso, qualquer dia vou superaquecer, ter um curto circuito e enlouquecer.

Quem é que vai me jogar fora quando der defeito? Ou melhor, quem será o próximo a me dizer até nunca mais? A quem mandarei embora em silencio, quem mais estará distante por essa ausência de palavras, ainda que tantas vezes elas transbordem, tantas me faltam, e tantas me calam e me fazem sufocar.

Respirei a primeira vez e o corpo reagiu tremulo ao estimulo, mais uma longa respiração e as mãos foram se aquietando, da terceira vez o coração um pouco menos acelerado deu lugar a serenidade anestesiando o choro, não iria chorar, não aquela noite. Respirei paz e inspirei saudade.

A saudade fez meus olhos percorrerem todas aquelas luzes que pareciam mais brilhantes do alto daquele prédio, fez correr meus pensamentos por ruas onde sei não te encontrar, é como se a cada esquina encontra-se um bilhete com sua letra bonita dizendo apenas: nós dois nunca mais. Cerrei os olhos, respirei fundo novamente e meu silencio mais uma vez calou tudo o que já não posso e não devo te dizer, restou em meu pensamento paredes brancas que desenham repetidamente com tua letra bonita as únicas palavras que nos resta: nós dois nunca mais.

_ Esta na hora. Você esta bem?

Assenti que sim, ainda surpreso com a chegada de meu amigo.

No elevador perguntei como ele sabia que me encontraria ali.

Respondeu-me com um sorriso triste, que a saudade procura por espaço quando não pode chorar.

D.S.L

*private_moon_leonid_tishkov_1.jpg*imagem incrível do projeto Private Moon de Leonid Tishkov

Meu copo, meu trago, meu cheiro

Vicio: defeito ou imperfeição grave de pessoa ou coisa. Na maioria dos casos provem de algo ruim pra saúde, pra a alma, pra a vida, mas colocando essa palavra diante de um bom sentimento, essa definição perde o sentido e se transforma em algo bom, eis a maior dádiva que alguém pode receber, um dom melhor e mais proveitoso do que o do Rei Midas, transformar a tudo em algo bom.

Tenho vicio pela alegria, pela bondade, pela literatura, por palavras, vicio em sorrisos e abraços, e amigos mais que queridos, sou viciada pelo amor e dele não me curo, ao contrario: amar cada vez mais, e muito, e sempre.

Se alguém me perguntasse o segredo da felicidade, ou melhor, o segredo de tudo, o sentido da vida, não titubearia em responder que este segredo é amar. Não ocultaria o fato de que é um sentimento difícil, e construído pouco a pouco, o qual tem como estrutura principal das paredes a compreensão, as janelas são feitas de empatia, o teto de  compaixão, o jardim de uma mescla rara de solidariedade. Amar é roubar do outro aquilo que lhe faz chorar, sofrer, amar é estar perto ainda que apenas em oração, amor verdadeiro não conhece a morte, não se desfaz com a separação, pois é muito mais do que a conjunção de corpos, mantendo-se distante de sentimentos como posse, ciúme, magoa.

Todas essas palavras soam clichê, mas olhando para o mundo, assustadoramente para dentro das pessoas vemos o quanto estes clichês estão esquecidos; se o caminho continuar por essa estrada não será necessário praga, dilúvio, apocalipse para destruir o mundo, se continuarmos nesse caminho vamos nos auto extinguir, e o que me assusta são os requintes de crueldade que estão sendo utilizados os quais pareciam fazer parte de uma época muito distante onde a humanidade era considerada menos evoluída.

Palavras não mudam o mundo, mas elas são capazes de tocar corações, todo ser humano é um solo fértil, produtivo, capaz de dar frutos, o difícil é encontrar quem queira cultivar bons sentimentos, doar-se verdadeiramente, e o erro muitas vezes tem começado no ventre o qual é fruto da irresponsabilidade de quem não saberá ser responsável.

Seja como for: amar é o que nos salva, e enquanto o mundo estiver sendo um lugar difícil, cheio de noticias complicadas de se entender, enquanto respirar com um nó na garganta for exercício diário, triste e doloroso, enquanto tudo estiver cinza, que tal falar de amor.

Amar é meu copo, meu trago, meu cheiro e único caminho. O bom da vida de quem ama, é que pode amar sempre, e assim nunca deixa de amar, e a vida vem trazendo cada vez mais pessoas que querem e precisam de amor, e é isso, é o amor que não nos deixa desistir, parece coisa de sonhador, mas se pararmos para pensar o mundo assim seria um lugar bem mais bonito.

D.S.L

BOLA MENINO

*Foto internet