A caixa

Vivia em uma caixa, não sei dizer se quando entrei nela ainda era pequena ou se ela é que era grande demais. O espaço era aconchegante, temperatura sempre ambiente, não sentia calor nem frio, sentia-me segura, e o que realmente importava era que cabia dentro dela todo meu corpo, com espaços para respirar, andar, gesticular, sorrir.

Mesmo dentro da caixa conseguia visualizar o lado de fora que me parecia bonito e bem interessante, mas enquanto a caixa era confortável não tinha por que deixa-la.

Algumas pessoas me visitavam, quando isso acontecia era um pouco incomodo porque a caixa era um espaço único, individual, não cabia mais ninguém e se ficasse muito apertado ela podia ruir.

Esticava o pescoço e com as mãos apoiava nas bordas, tudo para contemplar o outro lado, mesmo com os pés pendurados, e os braços cansados pela a força exercida suportava a dor até desfalecer, e então eu caia dentro da caixa novamente, às vezes passava dias sem me mover, mas a visão valia a pena.

O lado de fora com o passar do tempo parecia mais e mais bonito, enquanto me era possível, ficava a observar tudo ao redor daquela caixa, e inevitavelmente comecei a querer sair e a sonhar toda uma vida nova fora dali.

Conforme essa vontade foi crescendo, fui observando o quanto tudo dentro da caixa era na verdade tenebroso ao invés de seguro, as paredes começaram a me fazer sentir medo, sufocar, comecei a arranhá-las, quem sabe conseguiria abrir um buraco, já não havia paz, e meu corpo antes tão aconchegado aquele espaço pareceu crescer de uma hora pra outra, quase não conseguia respirar, sentia forte calor, minhas mãos suavam tanto que já não conseguiam se sustentar a borda, e a caixa de repente ficou pequena demais para tudo.

Comecei a sentir dores insuportáveis, me debati até sangrar varias vezes, e como castigo a caixa parecia ficar cada vez menor, ou melhor, talvez fosse eu que estava a crescer cada vez mais.

O mais aterrorizante era não saber como sair, talvez se alguém ouvisse meus gritos, ou então os ruídos do meu corpo a se debater, aqueles que um dia me visitaram poderiam lembrar de mim e voltar, mas nada disso aconteceu e então resolvi lutar.

Comecei a me sacudir e a caixa se pos a rodar, parecendo despencar uma ribanceira, não sei quanto tempo permaneci vendo o mundo girar naquela rapidez, não havia uma parte de meu corpo que não doesse, mantinha as mãos em sinal de cruz rente ao peito como se estivesse a proteger o coração enquanto tudo girava sem parar, pois enfim algo havia sido feito.

A velocidade foi diminuindo e a caixa parou, juntei todas as minhas forças, respirei fundo e de uma só vez, descruzando os braços e desprotegendo o coração, estiquei todo meu corpo, a luz do sol invadiu meus olhos quando os abri, ao perceber que minha pele sentia a brisa fresca daquela manha em que me libertei.

Posso sentir medo, frio, dor, ser abandonada, me sentir só e fragilizado o coração, mas nunca mais voltarei a ver o mundo de outro ângulo que não me seja privilegiado a vista para o horizonte.

O infinito é mais bonito e possível quando não se tem medo de nunca chegar ao fim!

Defino a vida: ilimitada!

D.S.L

Quem imita quem?

Há quem não goste de modo algum, ache uma espécie de arte pobre, alguns nem a consideram arte, mas a verdade é que o Brasil quase que inteiro se rendeu a pelo menos dar uma espiada no que estava acontecendo no folhetim Avenida Brasil.

A historia começou de modo trágico com mortes, abandono e a falta de escrúpulos de dois dos personagens centrais, até então nada muito diferente do que se passa em quase todas as novelas, não fosse a coragem da “mocinha” desde muito nova para enfrentar seus algozes.

A vingança desmedida foi o tema central do enredo, pouco a pouco, a mocinha não tão “mocinha” assim começou a mostrar suas garras em prol de tirar o sossego daqueles que ela julgava merecer uma lição, sua sede era tão grande que não se limitou quando precisou “abrir mão” de seu amor de infância, ou de qualquer outro que fosse contrario a sua vingança, por mais falta de amor que a mesma viesse a padecer.

Muitos são os fatores que “prenderam” os telespectadores ao folhetim durante todos esses meses que permaneceu “no ar”, todos os personagens eram um tanto quanto caricatos, remetiam historias simples, cotidianas, podíamos identificar neles nos mesmos, e acredito que assim se fazem grandes historias, pois afinal a arte imita a vida, tudo bem que sempre recheada de muito mais emoção, lirismo, delírios, e belas paisagens, com direito a passagens no tempo que muitas vezes poderiam acontecer também na vida real, para que mais rápido o tempo levasse de nos tudo o que nos separa do final feliz sempre tão aguardado.

Trazendo muito da novela para nossas próprias vidas, quem é que não se pergunta o que vai acontecer quando um problema ou outro deixar de existir, quem não quer que o tempo se apresse para que as férias aconteçam, aquela promoção na empresa, uma mudança brusca diante de um sonho realizado, quem é que não sonha com um: “e foram felizes…”.

A expectativa para o final é apaixonante, porque assim como na vida, nos também ficamos a imaginar, e sonhar, e querer justiça, e vivenciar amores que dão certo, pessoas que vencem seus limites e conquistam suas vitórias, ficamos ali depois de algum tempo ainda suspirando e imaginando o quão melhor poderia ser a vida se ela imitasse a arte, mesmo quando temos no coração a sapiência de que o autor nos ama, e escrevera tudo da melhor maneira, não tem jeito: como meros telespectadores ficamos a frente da vida querendo dar palpites em uma obra que tão pouco nos pertence.

O final desse folhetim foi surpreendente pra quem soube enxergar a verdadeira essencial do que o autor quis dizer. A mocinha na verdade não queria apenas vingança, o que ela esperava de sua algoz era que a mesma enxergasse um caminho diferente e honesto para a própria vida. Para os que conseguiram olhar a historia por esse ângulo vale a pena refletir, pois talvez seja o que esta faltando as pessoas: desejar que o outro cresça, e se torne melhor, com novos pensamentos, sentimentos e valores de humanidade, compaixão e união.

Tivemos uma vilã e tanto, que com toda certeza chamou mais atenção do que a mocinha, pois fomos descobrindo que as chances para que ela fosse diferente eram poucas diante do histórico de sua vida, pois é tipo de pessoa que desde muito cedo precisou aprender da pior maneira que a vida não é cor de rosa.

O grande final superou todas as especulações: a vilã como em tantas outras historias, poderia ter terminado louca, presa, morta, sozinha, derrotada, poderia ter fugido do país, libertando-se de seus crimes passados e pronta para cometer outros mais, mas não!Nada disso aconteceu, e a vilã terminou perdoada, abraçada a sua vitima em um choro compulsivo que remetia paz de espírito por estar liberta da falta de amor que sempre blindou seu coração.

Avenida Brasil deixou em nós a sensação de que tudo pode ser perdoado, haja o que houver, por mais difícil que seja, e perdoado da melhor maneira: selado com um abraço firme e verdadeiro.

D.S.L

*Imagem Rede Globo

Não posso bater nele!

Sinto um medo absurdo dentro de mim, tenho cinco anos, hoje é meu primeiro dia de aula, deixarei tudo o que me cercou durante todo esse tempo pra que afinal de contas? Dizem que vou fazer amiguinhos, e brincar, mas gosto de ver televisão pela manhã, meus desenhos preferidos, e ainda tem a minha chupeta, na escolinha não vou poder levá-la, tão pouco minha boneca preferida que chamo de bebe.Minha mãe segura forte a minha mão, não entendo pra que escolinha, pois já aprendi a escrever meu nome, e eu sei que a maioria das crianças que estão lá não sabem, alguém que não conheço parece estar vindo me buscar, e então eu agarro minha mãe, porque eu não quero ir, choro, grito, esperneio, mas não tem jeito, minha mãe solta a minha mão e tenta me acalmar dizendo que vou gostar, que vai ser bom pra mim.

Algumas outras crianças não choram, outras choram, umas parecem com sono, outras estão encantadas, sem medo algum, enquanto tudo o que mais quero é voltar pra casa.

Hoje sei o por que de tudo isso, não era medo do novo, mas sim das pessoas, queria aprender, mas tinha medo das pessoas que não conhecia, era como se alguém pudesse me fazer um mal horrível, e então quem iria me proteger, minha mãe não estaria ali, e se alguém me batesse ou algo parecido? Como bateram, apanhei algumas vezes, até saber que também podia bater, e então depois de saber que podia revidar, deixei de ter medo.

Passado tanto tempo, é como se o mesmo medo estivesse de volta, mas diante dele não posso revidar, não vou poder bater em ninguém, e assim o medo permanece aqui, batendo em mim, latejando em minha cabeça, bagunçando meu coração. Não posso contar a ninguém, porque cresci e vão me achar muito boba, e mesmo que muitas pessoas amparem minhas mãos, o medo permanece, porque ninguém vai poder sentir esse medo, não posso trocar de lugar, não posso ir embora, não posso desistir, vou ter que seguir em frente, como alguém que caminha no escuro, com o peito acelerado, porque o escuro é o oculto, carrega o desconhecido, e mesmo com algumas luzes acesas, ainda tenho medo, pois meus olhos não sabem o que vou encontrar na claridade quando puder enxergar.

Porque eu cresci, e ainda que de vez em quando, eu tenho medo!

D.S.L

Humanos prisioneiros de mecanismos tristes e tão racionais

Temos ainda aproximadamente oitenta dias, pois de acordo com o calendário maia a data prevista para o fim do mundo conta de vinte e um de dezembro deste ano, portanto o negocio a partir de agora é tratar de aproveitar esses últimos dias, afinal o tempo passa cada vez mais rápido, parecendo mesmo correr para chegar a algum lugar, mesmo que seja o fim.

Torço para que esse mundo realmente acabe, ou melhor, torço para que a data faça uma espécie de mágica no cosmo, já que alinhara o sol com a via láctea como está previsto e que com isso algo aconteça de fato não ao mundo, mas sim as pessoas.

Talvez esse tal alinhamento possa atingir, afetar e causar bons resultados a causa de todos os males da humanidade: o humano.

Somos nós que precisamos acabar, seria hora de fazermos uma auto-analise dos próprios sentimentos, das nossas tantas motivações ou da falta delas, precisamos de uma espécie de cura, porque é visível que estamos doentes, prova disso são os noticiários cada vez mais assustadores onde somos autores de barbáries, atrocidades. Nós somos um desastre natural.

Praticamente estamos voltando ao estado primitivo, obedecendo à lei de talião que expressa a máxima: olho por olho, dente por dente, e como já se era de esperar a maioria de nós estamos cegos.

Não sabemos mais pedir desculpas e quando o fazemos muitas vezes somos retalhados, fazendo a vitima replicar, dando espaço a uma extensa discussão, “a coisa” anda tão caótica que as pessoas não sabem simplesmente desculpar e ponto final.

Maquiamos o preconceito aceitando amigos gays, deficientes, vamos com a família a paradas, palestras, somos a favor da luta contra o HIV, mas experimente ser gay dentro de casa, ou soro positivo, ou adquirir alguma deficiência, a postura com toda certeza ira mudar. Ok, sou a favor das minorias, mas longe da minha casa.

Falta-nos educação, traquejo, estamos criando pequenos competidores, miniaturas de adultos, que já não sabem brincar senão com jogos eletrônicos, tão pouco gozam da liberdade de imaginar e fantasiar, trabalhamos com a meta de que precisam ser campeões, e melhores, e sempre em primeiro lugar, fazendo desde muito cedo crer numa falsa noção de felicidade, dificilmente cultiva-se sonhos nas crianças, outro dia ouvi um garoto dizer ao pai que gostaria de ser astronauta e imediatamente o cidadão o tolheu: não filho, é muito difícil, complicado, melhor ser advogado, minha vontade foi de lhe falar: senhor qual sonho que não é difícil ou complicado?Só o de padaria!

Para muitos as redes sociais é a ferramenta mais utilizada para conversar e conhecer um pouco mais das pessoas, todo mundo meio que parou de fazer questão de olho no olho, abraço afetuoso, sorriso, cheiro. Todo mundo anda meio mecânico, é melhor esbravejar no transito a ligar o som do carro e curtir a volta pra casa tranquilamente, mas e a pressa? Pressa pra chegar em casa e checar e-mails, ligar a teve e alienar-se de tudo.

A desculpa é a falta de tempo, sempre!E então o que estamos fazendo aqui? Se não temos mais tempo pra nada, muitas vezes nem mesmo para pensar, olhar-se no espelho, não temos tempo para sonhar com as férias, porque as vendemos em troca de dinheiro para aquela reforma da casa, e então nos contentamos com um dia e meio do fim de semana para descansar, cuidar de si, passear, fazer compras, consertar a televisão, levar o cachorro no pet, encontrar os amigos, cantar, ouvir musica, ir ao cinema… Obviamente que não da tempo pra tudo, e muitas vezes acabamos por fazer nada, porque qualquer programa fora do sofá ou de casa, cansa.

Perdemos o valor do humano, do olhar pras coisas boas do mundo, temos cada vez menos tempo pra viver, nos permitimos cada vez menos sonhar, por quê? Porque passamos a julgar a maioria dessas coisas como idiotas, quando na verdade o que mais tem nos faltado é sabedoria, não a dos livros, mas sim aquela intuitiva que nasce dentro de nós e aflora ao mundo o que temos de melhor, de mais bonito, afinal tudo o que é belo provém de devaneios.

Devaneie que o mundo de fato ira acabar e repense seus valores, quem sabe assim ainda lhe reste na esperança do amanha um novo olhar para o mesmo caminho.

D.S.L

Em algum lugar seremos sempre eu e você!

Não adianta chorar até os olhos ficarem turvos, inchados e doloridos, não é tão simples, alias nada mais é simples, tudo antes parecia resolvido e a vida voltara a ter cor, cheiro, enfim você, nosso amor outra vez, ou melhor, nosso amor de sempre, agora mais forte, maduro, e novamente tive que te deixar partir.

Não resolve tomar banho, dormir não resolve, beber não tem o mesmo sabor de festa, comer não tem gosto de nada.  Amanhecer dilacera, e qualquer ação por mais simples que seja apenas dói, escovar os dentes, pentear os cabelos, desodorante, perfume, barba, despertador, trabalho, tudo começou a doer, afinal nada resolve, nada dessas coisas trarão você de volta, e então não tenho mais vontade, e não ter vontade é o mesmo que não ter mais vida, mas estou vivo e tenho que continuar respirando, e respirar dói, porque me faz lembrar que a vida vai ter que continuar, e agora de uma vez por todas sem você, ou melhor, sem nós.

A verdade é que desaprendi a viver sem sua voz, sem te ligar ao terminar o dia ou logo cedo quando o dia era verdadeiramente um “bom dia” porque você existia no meu dia, sinto seu cheiro pela casa, ao meu redor, meu xampu faz lembrar você, porque foi indicação sua, como tudo, você sempre soube o que era melhor pra mim, só não acertou quando quis me fazer entender que o melhor daqui em diante é seguir sem você.

Não quero dar um ponto final nessa historia, porque você é uma das melhores partes da minha vida, te quero em muitos outros capítulos, nas tantas paginas que temos para escrever, tenho medo que essas páginas continuem em branco.

Tenho vontade de encolher, de ficar pequeno, porque toda a grandeza do meu ser não tem mais alimento, nem sentido, era esse amor que me fazia grande, a pureza dos nossos momentos estampado nesses olhos que não souberam ser de mais ninguém, a certeza de que nada era tão importante quanto a minha mão junto a tua, nossos segredos, e todas as outras coisas que selamos intimamente, tamanha cumplicidade jamais soubemos nos olhar sem verdade, nunca soube mentir pra você, nunca quis mentir pra você, e como agora diante de tudo isso posso deixar de te amar?

A noite impiedosa chega sem pedir licença, pintando a lua no céu mesclando-a por brilhantes estrelas alheia a todo meu sofrer, o mundo parece dar de ombros a meu pranto, continua do mesmo jeito, casais se encontram, passeiam de mãos dadas, olhos apaixonados, dançam, brincam, as pessoas continuam a sorrir, enquanto em mim tudo só faz doer, continuo aqui lembrando que você não vai mais chegar, que vou ter que te esquecer, e dessa vez com a mesma intensidade da fé que sempre me fez crer que fosse como fosse, nos seriamos eternos.

Vou virar a pagina como dizem por ai, mas os parágrafos grifados vão a cada folhear do livro se destacar, fazendo com que eu sempre tenha vontade de lê-los novamente, nem que seja apenas pra fechar os olhos e ter você uma vez mais “pra sempre” em minha historia.

D.S.L

Minha senhora querida!

Querida vida,

Melhor não tratá-la assim, mesmo sendo intima e convivendo já à algum tempo, nesses casos de declarações melhor manter certa formalidade.

Senhora vida,

Pronto! Acho que senhora é um bom tratamento, vez que é casada com o destino, e dizem as más línguas que é galanteada pelo tempo a toda hora, as vezes para que se apresse aos acontecimentos, outras para que se demore trazendo aprendizado enquanto as novidades não vêem, dizem que o tempo quando novo queria casar-se com ela, mas não se entenderam muito bem, e até hoje é assim, as vezes o tempo passa rápido demais e a vida jamais esteve de acordo com isso.

Estamos juntas a alguns anos, e queria lhe falar algumas coisas, afinal durante todo esse tempo, creio que mais lhe ouvi do que falei, sempre aceitando suas imposições, regras, e até mesmo momentos de distanciamento, quando muitas vezes me perguntava o que a senhora estava a fazer com meus dias que pareciam todos iguais.

Minha confiança na senhora é cega.

Estive pensando nessa nossa relação um tanto quanto unilateral, mas completamente apaixonada, sentimento que acredito ser recíproco, fato que me levou a escrever não somente essas palavras, como todas as outras todas.

Senhora vida, quero na verdade lhe agradecer por tudo até aqui, incontestavelmente fostes minha parceira, amiga e confidente, sou tão apaixonada pela senhora que procuro entende-la e observá-la em tudo, expressando em palavras o que raramente sei dizer.

Quero lhe agradecer por ter me ensinado a ser paciente, sabemos que nem sempre foi assim, outrora quando com pouca idade, tudo era motivo para que o mundo estivesse acabando, era difícil enxergar soluções e possibilidades frente a tão pequenos problemas, mas com o passar do tempo me destes a consciência de que absolutamente tudo passa, e que mesmo sendo clichê ao extremo és feita de momentos.

Não posso deixar de falar, no modo sutil que me destes para enfrentar todos os que não vieram a mim de bom agrado, com boas intenções, foram muitos os que torceram para que em todas as quedas não tornasse a levantar, mas eles não sabiam que eu contava com um segredo: tua mão invisível que ao me ajudar, apertava-me forte parecendo dizer levanta uma vez mais, pois não é o fim. Enfrentei a todos em silencio, sem gritar, sem brigar, pois melhor que isso é fazer com que engulam o próprio veneno.

Às vezes acordava-me tão feliz, com tantos sonhos dentro de mim, e tanta fé, e tanta esperança nesses sonhos e nessa fé, que amanhecia tonta, em uma espécie de embriaguez eufórica incontrolável.

Ensinou-me preces silenciosas a um Deus que rege a ti, a mim e a tudo mais, mostrou-me as estrelas, dando-me noites fantásticas em torno da lua, cega meus olhos de luz todas as manhas enquanto faço um acordo intimo para que tudo seja fantástico com as horas seguintes daquele dia que se inicia.

És de uma divindade e justiça inacreditável, misturada a uma maneira tão peculiar de fazer tudo acontecer, mesmo que muitas vezes em um primeiro momento não se faça entender, sabes à hora exata de nos fazer enxergar a tudo.

Aprendi a te amar mesmo com todos os teus mistérios, labirintos, mesmo com todo esse silencio em volta do que ainda não aconteceu.

As vezes você se supera, e como em um jogo o qual não sabemos o que acontecera ao chegar na ultima fase, vamos vencendo, nos preparando, para enfim pousarmos nos braços da paz certos de ter conquistado a tão sonhada vitória.

Senhora vida sou sua fã!

D.S.L

Parabéns: você sobreviveu a agosto!

O mês de agosto é cercado por inúmeras superstições, sabe-se lá porque, mas o fato é que ele ganhou vários “apelidos” ao longo dos tempos, dizem que é o mês do cachorro louco, época em que o melhor amigo do homem, rosna, baba e avança com facilidade em qualquer um. Alguns supersticiosos ao extremo não se casam em agosto, nem viajam, ou fecham negócios, “a coisa” é tão seria que nossos “hermanos” argentinos aconselham a não lavar a cabeça, pois aquele que o faz esta chamando a morte, é o mês de esperar grandes tragédias para alguns, tem gente que se pudesse nem saia de casa, mas em minha opinião o pior de todos os codinomes é: agosto é o mês do desgosto.

Desgosto é uma palavra daquelas que até no som é carregada de uma negatividade imensa, chega a dar um calafrio na espinha.

Portanto se você, assim como eu, graças a Deus, sobreviveu a esse mês, parabéns: é chegada a hora de respirar fundo, fechar os olhos e sentir o cheiro de primavera chegando com a brisa boa e fresca do mês de setembro.

Que venha ela, a primavera, enfeitiçada, encantando nossos olhos com flores que nos espantam ao brotarem tão inusitadamente, é como se elas tomassem conta de tudo, enfeitando o mundo e a vida.

Setembro e seus dias de sol brando que não arde à pele, mas que nos aquecem como um abraço apertado depois do inverno, nos aliviando a alma desse mês de agosto, que mesmo não trazendo desgosto, entristece-nos um pouco ao sentirmos que ele parece custar mais a passar do que os outros, fazendo a primavera demorar ainda mais a chegar.

Posso imaginar os ipês servindo de cobertor as passarelas de concreto, em cheiro, em flor, nos fazendo sonhar ao pisar nas pequenas pétalas amarelas, rosas, brancas, verdes, roxas. Respira-se melhor em setembro, viver parece mais alegre, acordamos diferente: mais dispostos, menos cansados, mais iluminados pelos raios de sol, o mundo fica mais cheiroso pelas orquídeas, begônias, rosas, lírios, margaridas que florescem.

A alma se reveste de mais esperança.

Assim como existem pessoas que acreditam nas superstições de agosto, acredito nas boas vindas de setembro, em seus bons fluidos, em suas cores mágicas, é um mês incrível onde amores acontecem, pessoas reatam laços, novas amizades chegam, a inspiração aumenta, é como se crescesse em nos uma necessidade incrível de sonhar.

Com a chegada da primavera creio que iniciamos após nove meses do ano, a colheita de tudo o que foi plantado.

Cheiro de chuva em fim de tarde, pôr-do-sol mesclado com arco iris no céu, alias o brilho das estrelas são de dar inveja,  vontade de tudo: de balanço de rede com livro para viajar, não tem vento, tem brisa, e brisa leve, aquela com toque de felicidade que nos toca o rosto e alma.

Que venha setembro, sua primavera e todos os bons momentos.

D.S.L


O vago olhar de mundo fora do casulo

Tenho a vista de quase toda a cidade aqui de minha sacada, é bom olhar do alto, ver os carros passando ao longe, e esse mundo de luzes acesas nas casas, barracos, restaurantes, hotéis, em cada luz acesa um pensamento diferente.

Em algumas janelas a escuridão quebrada pela luz da televisão, noutras pessoas que assim como eu vigiam a noite, mas elas não se demoram em suas janelas ou sacadas, é inverno e a cidade quase congela a essa hora, preferem somente o vago olhar de mundo fora de seus casulos.

Perco-me por horas observando essas luzes, tentando imaginar tudo o que pode estar acontecendo na vida dessas pessoas.

Quantas delas pensam em dinheiro nesse instante? Nas contas a pagar, no salário pouco, na vontade de mudar. Quantas delas brincam ou brigam com seus filhos, ou os esperam chegar do trabalho, da faculdade. Algumas podem estar cuidando de alguém doente, outras assistem algum programa de televisão em família, onde só a televisão interage, pois eles mal conversam entre si.

O silencio que paira sobre a cidade aqui do alto chega a trazer a sensação de que todos estão dormindo, mas não estão, pois as luzes continuam acesas e algumas delas nunca se apagam, quem sabe por medo do escuro, quem sabe por falta de sono, ou talvez pelo cansaço que consome de tal maneira a fazer esquecer a luz acesa.

Quantas dessas luzes fazem amor nesse momento? Quantas choram de saudade, ou de solidão? Quantas outras ajudam os olhos a percorrer palavras em um livro, ou ainda quantos desses olhos estão fechados escutando uma musica com a mente repleta de lembranças boas, ou sonhos que mais parecem devaneios diante de momentos imaginados que ainda não aconteceram.

Algumas pensam no amanha, no muito a fazer no novo dia que será aceso pela luz do sol, mas o que esperar? O que pensar antes de adormecer? Com o que sonhar?

Alguém aparece na janela falando ao telefone, parece uma conversa animada daquelas que a gente não quer que termine, uma senhora coloca o lixo na rua, um cachorro passa solitário parece estar voltando pra casa, ou procurando uma, uma jovem moça ajoelha a cabeceira de sua cama, parece rezar, esfrega os olhos após derramar algumas lagrimas, levanta-se e apaga a luz, acabo por rezar junto a ela e mesmo sem ter idéia do conteúdo de suas orações rogo aos anjos que as encaminhem a Deus.

Percebo que diante de todo esse vasto mundo de luzes acesas, nessa noite fria de inverno, sou apenas mais uma luz, um pequeno ponto de claridade diante da escuridão do mundo, meus olhos começam a se entregarem ao cansaço, irei adormecer imaginando o quanto dos pensamentos de todas essas luzes serão realidade amanha.

No momento em que nenhuma luz de pensamento estiver acesa, quando o mundo por algum instante adormecer por completo, um instante que seja, todas as estrelas brilharão com mais intensidade, a esta hora creio que Deus inicia seus trabalhos rabiscando o amanha ao ouvir as orações silenciadas pelo sono e adormecidas em esperança, é neste mágico momento que se acendem as luzes invisíveis dos corações que adormecem em fé.

Que todos os dias sejam bons dias, e que ao menos um desses pensamentos se concretizem na manha seguinte, para que assim todas as noites possam adormecer em paz, amor e luz.

D.S.L

Germinando sonhos

As mãos continuam tremulas, frias e agora corroídas por uma ansiedade diferente, antes me perguntava quando, agora me pergunto como será, o que mudara, e assim percebo o quanto já mudei, o quanto tudo isso já me fez diferente em tão poucos dias.

É estranho: esperei por isso quase que sempre, durante muito tempo e varias vezes, e noites, tardes, horas, às vezes fingia esquecer pra não enlouquecer, disfarçava o tempo com qualquer outra coisa que pudesse me tirar um pouco do foco, dos pensamentos que o rodeiam, das duvidas todas.

Engraçado acreditar em um sonho, por mais simples ou complicado que ele seja, acreditar, ter fé, lutar, e então vê-lo se realizar aos poucos, estar diante dele e sacudir a cabeça duvidando da realidade, a um ano atrás esse sonho não estava se quer pronto, já tinha nome, cara, mas não tinha forma, nem mesmo tempo para percorrer o mundo, e hoje ele esta aqui: vivo, como uma criança que começa a engatinhar, logo ele estará caminhando com as próprias pernas, e a pergunta que me faço assim como qualquer mãe é que caminho ele irá seguir,e assim como um filho ele poderá me encher de orgulho, ou me afundar em um mar de decepções, poderá brilhar ou simplesmente passar despercebido, poderá ir muito longe, ou quem sabe jamais sair de perto de mim, mas mesmo diante de todas essas inseguras, dessas lagrimas que mesclam orgulho, vitória e ansiedade, mesmo ainda com o coração batendo mais forte do que o de costume, mesmo que esse meu filho, ou melhor sonho não atravesse os portões da minha casa eu o amarei como sempre, e o carregarei em meu braços  como uma mãe embevecida de orgulho, o mostrarei para todos que cruzarem meu caminho, pois ele é minha grande vitória.

Todos nos nascemos de um sonho, o sonho de um casal, ou de uma mulher que quer ser mãe, nascemos do sonho de uma noite, de uma viagem, as vezes nascemos improvavelmente sendo uma surpresa para todos.

Nascemos nesse grande sonho que é a vida com todas as suas imensas possibilidades, e vamos crescendo e então idealizando outros sonhos, ao longo dos anos engavetamos alguns deles que pouco a pouco são massacrados pela realidade, mas enquanto se respira dia a dia toda essa poeira do mundo, e se cansa noite adentro vagueando em idéias que esperam a manha seguinte para acordarem e se levantarem junto a nos em busca de uma manha em que possam se tornar possíveis, o importante é crer que tudo é possível, que o melhor ainda esta por vir, e que a vida é essa caixinha de surpresas boas, com pessoas maravilhosas que partilham das nossas vitórias, sempre prontamente dispostas a te aplaudirem ou te levantarem para que você jamais desista, porque mesmo quando não se acredita mais, talvez seja por essas pessoas que não se deve desistir, assim se percebe o quanto ainda resta força para continuar por muitas outras manhas.

Sonhos dependem do destino, da estrada, de seus próprios pés, de algumas escolhas e muitas coragens, dependem infinitamente da misericórdia divina, mas para tanto é preciso um coração fértil capaz de fazer germinar em muitos outros corações a crença as vezes esquecida de sonhar e ter fé.

D.S.L