Vou anotar seu telefone!

A internet mais precisamente as redes sociais talvez tenha sido o grande marco da ultima década. Quase nada acontece sem ser registrado, seja através de fotos ou de palavras em nossa timeline, que é quase uma vida paralela em um espaço virtual.

Declaramo-nos diariamente tristes, felizes, vitoriosos, consumistas, indignados, revoltados, comilões, revolucionários, ostentadores do cotidiano tão simples e comum, que em muitos casos fica até mais bonito e interessante a partir de outra visão ou ponto de vista, as redes sociais brindam e coroam o mais antigo desejo da maioria dos seres humanos: ninguém quer ser anônimo, todos querem se mostrar e se fazer importante seja como for.

É possível que este texto assim que postado seja lido por muitas pessoas ou por ninguém, gente que não conheço partilhando, lendo, compartilhando da minha idéia, do meu pensamento, do que estou sentindo, e assim como na vida algumas pessoas vão se importar outras não.

O legal desse grande canal de divulgação sem duvida alguma é tudo o que não tínhamos acesso com tanta facilidade, afinal até mesmo a grande mídia senti-se ameaçada, pois seus juízes de audiência hoje em dia pertencem voz, e estão cada vez mais críticos e severos tornando-se formadores de opinião e disseminadores do que particularmente gostam.

Como tudo tem seu lado ruim, os fofoqueiros de plantão deleitam-se cheios de delírios e razões em comentários, julgamentos, piadinhas e ataques virtuais. Ninguém esta salvo e as indiretas parecem ainda mais pesadas aos que não evoluíram o suficiente para não se importarem com o que os outros pensam.

Para caminhar nesse mundo virtual é preciso gritar: viva a liberdade da timeline.

Ao passo que nos aproximamos daqueles que não vemos todos os dias, ou ainda que jamais encontraremos, e que talvez nunca trocaremos uma palavra se quer, nos distanciamos daqueles que eram mais próximos, afinal até a saudade vesti-se hoje em dia de outra maneira, é demonstrada de outra forma, antigamente falávamos mais, tínhamos agenda de telefones, e quando conhecíamos alguém, com o crescimento da relação o telefone servia apenas para marcar um encontro, afinal no Brasil paga-se uma das tarifas mais altas de minuto no mundo, portanto a conversa era rápida, sempre ouvindo ao final: pessoalmente conversamos melhor.

Pessoalmente olhamos nos olhos, sentimos o cheiro, tem som de riso, e abraço apertado, pessoalmente somos mais gente, a saudade deixa de ser palavra passa a ser verdade, ao vivo e a cores encontramos mais pessoas, espantosamente pode-se conhecer muita gente nova e extraordinariamente novos amigos, não aqueles da timeline que temos tão pouco contato, amigos de verdade e não apenas mais um numero em alguma rede social.

Dias atrás a mãe de uma amiga faleceu, confesso que a muito tempo não a vejo. Normal, a vida segue e vamos nos acomodando a não estar tão presentes, o que não deveria ser assim, enfim, queria ter ligado para ela, ouvido sua voz, não que nada do que eu dissesse fosse mudar alguma coisa, mas com toda certeza estaria mais presente nesse momento de extrema dor, infelizmente não tinha mais seu telefone, assim como não tenho o de muitos outros amigos e como muitos outros amigos não tem o meu.

Restou-me deixar um recado de algumas poucas palavras através de uma rede social, tentando fazer com que ela sentisse meu abraço a consolá-la por um carinho que só existiu virtualmente. Sou apaixonada incondicionalmente pelas letras, mas senti-me triste por elas não estarem acompanhadas de um gesto mais presente e humano, ou ainda trocadas pelo silencio de um abraço.

D.S.L.

A fresta, o tempo e a visita

Deve existir uma espécie de fresta no tempo em que permaneça o que já se passou na razão de um segundo.

Contendo o segredo do mundo, e porque não dizer a aspiração da alma de querer voltar a um instante que aqui nesse tempo não existi mais.

Pode ser o vão que separa o céu e a terra, o lugar onde se guarda e que mais nada se espera, afinal, nessa fresta tudo é apenas passado.

Em que momento da sua vida você gostaria de retornar se fosse possível, se essa fresta estivesse aberta? Qual desejo refaria se o passado aparecesse como um poço mágico? Quantas moedas apostaria nos novos e sólidos sonhos não improvisados?

Sonhos certos como a fuga das folhas secas sobre seus pés, fazendo balé da natureza, valsando beleza e mediando a vida com o simples toque do vento.

Sabe-se no presente permanecer errando e querendo voltar atrás, portanto quais seriam os pecados não cometidos, e se não condenado o que você seria hoje, onde estaria?

Essa fresta se existe, talvez seja guardada por muitos anjos guerreiros, zelosos e fortes, os mesmos que limitam o céu e a terra, guerreando de posse de uma luz intensa contra quem por ventura se aproxime desse limite sem permissão, talvez sejam eles que separem o tempo do passado, restando a nos olhar com a mesma distancia a qual enxergamos o horizonte.

Não adianta negar: o passado interessa e muito, ele nos diz aonde chegamos, e amanha saberá aonde conseguimos chegar, não é obsoleto, tão pouco sem sentido, afinal poderá abrigar muitas coisas que já não fazem parte de nós: a inocência, a grandiosidade dos sonhos que nos faziam levitar e que com os anos diante de tantas passagens endurecemos os pés não sabendo mais como voar. O passado abriga abraços, vozes, olhares que atravessaram com a permissão dos anjos o limite entre a terra e o céu para os que acreditem que o azul não é morada apenas das nuvens.

Gostaria de conversar com a menina de oito anos, de olhos negros e fortes que desde muito cedo tentava entender aquilo que sentia, queria tocar suas pequenas mãos e beijar seu rosto, ouvir sua voz e sentir seu abraço, precisaria de poucos minutos para dizer-lhe: seja muito forte, cuide-se, tenha fé e não desista nunca, pois a esperança será o sentimento que lhe salvara nos piores momentos, fique com Deus menina e seja feliz.

Aproveitando a visita, através da fresta aberta iria presenteá-la com cadernos novos, cheios de folhas em branco para que ela escrevesse quem sabe uma nova historia.

D.S.L

A eterna primeira vez

Não lembro como tudo começou, é injusto isso de não saber o que pensamos quando a vida nasce e então estamos no mundo pela primeira vez, como terá sido sentir o lado de fora? Talvez muito frio, o que pode explicar todo o pranto.

Chorei por muitos minutos, e solucei no colo de minha mãe até o momento em que fui acolhida em seu abraço, embora sem consciência estava naquele momento tendo em vida meu primeiro encontro com a paz, pouco a pouco fui silenciando.

Ela conta que demorei a abrir os olhos, fui querer ver o mundo depois de umas vinte e quatro horas, e mesmo com toda essa preguiça não sei o que enxerguei pela primeira vez.

É injusto não lembrar a primeira vez de tantas coisas, como quando encontrei a primeira flor, as nuvens, o céu, a primeira estrela que inocentemente estiquei o braço em sua direção na ilusão de toca-la, a luz do sol que hoje tem efeito pacificador em minha alma.

Não guardei a sensação de meus pés ao tocarem o mar pela primeira vez, nem recordo minha reação ao ouvir a primeira melodia.

Não sei o que senti quando descobri que podia ficar de pé, tão pouco falar, emitir sons, fazer barulho, gritar.

Não lembro de meus primeiros passos, nem mesmo das quedas, a primeira dor, a primeira sensação de febre.

Quando soube o que significava um abraço? O primeiro choro de tristeza, a descoberta das lagrimas de felicidade, minha primeira saudade? Ah!Disso me lembro, foi numa tarde não sei precisar o dia, meus pais já estavam separados, e quis vê-los, não um de cada vez, mas os dois juntos, pois era disso que eu precisava naquele instante: dos dois.

São tantas primeiras vezes as quais queria lembrar, sei não ser possível, e talvez seja por isso que mesmo com o passar de tantos anos, encare disfarçadamente todas as visões e sensações como se fosse a primeira vez, ainda me deixa em transe a brisa da praia, o gelo macio dos pés tocando a areia para logo estarem submersos pela espuma do mar, se rapidamente abrir e fechar os olhos em direção ao sol o vejo como nos desenhos de infância, cheio de raios luminosos e incríveis, quando me coloco nos braços de minha mãe reconheço a mesma paz que me fez cerrar o pranto a tempos atrás.

Prostrada  de joelhos perante o Deus de minha missão o qual designou-me aqui nesta mesma data já alguns anos, sinto-me criança com as mãos pequenas juntadas ao peito aprendendo a rezar e clamar por amor, fé, sabedoria, coragem e encanto, procurando palavras para dizer-Lhe o quão tudo é maravilhoso, pedindo com força que jamais me recorde das primeiras vezes, pois assim tudo sempre sera intacto e magnífico.

Todos os dias a vida é como a primeira vez, com o diferencial de despertar sorrindo consciente da fé que a tudo torna possível

D.S.L

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Breve

Hoje é um daqueles dias!

Que dias são esses? Converso mentalmente com alguém dentro de mim, não sei explicar, trata-se de um falar muito intimo, por isso ninguém mais entenderia ou poderia participar, coisa de alma, de espírito e de um corpo que precisa levantar para enfrentar a vida, ao passo que deseja não sair daquela conversa, sabe-se que o mundo depois do primeiro passo para fora da cama atrapalha a conexão, os ruídos ferem essa troca, pois tudo tem um grande sentido justamente por o ter perdido.

Musica, flores, muitas palavras, luz, nenhuma angustia, nem pressa, a falta de ordem não origina o caos. É como passar o dia diante da linha do horizonte, fitando-a sem nada esperar, sabendo-se não ir nem chegar a lugar nenhum.

“Aqueles dias”… Você sabe, os conhece desde sempre, dias distantes, poucas pessoas compartilham de alguma coisa sua no mundo nesses momentos, é como uma festa particular, penetras não serão permitidos, a não ser com a sua permissão.

Ah esses dias! Não são bons, nem ruins, são calmos, parecem ter sido naufragados em chá calmante de uma poderosa erva qualquer muito rara, e essa espécie de quase transe faz-me distante, não para fora do mundo, mas pra dentro de algum lugar em mim, uma viagem de abraço interior maravilhosa e louca.

Não é perda da sanidade é ganho da imaginação.

Hoje é um daqueles dias, não estou aqui, pertenço a outro estado real, não estou presa em uma sala úmida cheia de telas em branco, e papeis desimportantes, não é segunda feira, não tenho horários.

Estou lá fora desfrutando, ou melhor, vivendo o sol de inverno e suas cores quentes alaranjadas e cheias de tons no campo, pousada sobre a grama verde, recostada em uma arvore enorme, forte, centenária e cheia de historias como eu, bebo vinho, a frente alguns queijos e pães, nada de carros, ruídos ou papeis desimportantes, nada de gente querendo chegar a algum lugar, nesses dias mantenho-me distante de injustiças e das varias faces da maldade, distante de gente covarde, há uma melodia conhecida no ar, sorrisos vastos dos que me são caros, queridos, amados, e por muitos instantes os teus olhos que tomaram do céu o azul os quais permito navegar em mim.

Há dias assim distantes de tudo, que fazem paz em mim, consolo-me saudosa quando eles me faltam logo ao anoitecer, afinal em breve será primavera.

D.S.L


Eu fico por aqui…

Nesse momento a chuva começou a cair, não chovia a mais de um mês, fazendo com que o tempo ficasse cada dia mais seco e áspero, essa falta de chuva parece aumentar o cansaço, fazendo com que a fadiga do dia a dia se multiplique. Desde muito cedo sempre gostei do cheiro da chuva molhando a terra, sensação que agrada muita gente, afinal o perfume exalado é quase um carinho aos sentidos.

Somos investigadores da vida e do mundo, sempre a procura de algo distante que nos instigue a viver mais um dia, e nos deixamos esquecer dessas particularidades que a terra pertence, e são tantas coisas boas que são tão nossas, mas teimamos viver em nossos planetas reduzidos a tão pouco que mal nos damos conta do quão maravilhoso é tudo que nos cerca.

Outro dia li uma reportagem sobre uma organização não governamental holandesa que esta recrutando seres humanos para uma viagem aparentemente sem volta para Marte, parece filme de ficção, ou um acontecimento muito distante, mas não é, a viagem já tem data marcada setembro de 2023, e o numero de inscritos vêem crescendo mesmo cientes de que talvez seja uma viagem sem volta.

Essa com toda certeza é uma das barreiras mais sonhadas pelos seres viventes da terra: habitar outro planeta.

Não duvido da existência de vida em outras galáxias, não retiro minha curiosidade em dar um “role” pelos anéis de Saturno, conhecer o planeta amor Venus, passar férias em Jupter, conhecer uns escritores “Neptunianos”, ou quem sabe ir a um musical em Urano, mas arriscar nunca mais voltar a terra é um ato de muita coragem, o qual não me disponho a enfrentar.

Pergunte o quanto você perderia em cada decisão e seu coração lhe dará a resposta do que fazer.

Tudo bem, em Marte pode ser tudo muito diferente, seres evoluídos, distantes de qualquer espécie de corrupção, ou sentimentos pequenos como o preconceito, violência, inveja, maldade, e assim por dizer os habitantes de Marte seriam sim extraterrestres, pois não seriam humanos, e talvez por não serem humanos lhe faltem o que é peculiar a nós: humanidade.

Ser humano é estar cercado por um labirinto de fraquezas, sonhos, desejos, esperanças, e de sentimentos únicos como saudade, solidariedade, carinho, respeito. Ser humano é um aprendizado interminável para se tornar cada vez melhor.

E se em Marte não existir vida? Existe abraço em Marte? Eles conhecem a amizade, será que seres evoluídos precisam uns dos outros, como nos precisamos de amigos? Em Marte alguém choraria escutando Chico Buarque, ou se sentiria especial desdobrando uma letra de Caetano. Ah… Um fim de tarde lendo Vinicius, ou quem sabe uma caminhada pelo mar embalado pela voz de Marisa Monte. Em Marte se comemora aniversario, ou todos tem apenas data de fabricação? Existe cachorros em Marte, gatos, passarinhos? Chuva molhando a terra tenho quase certeza que não existe, acho que céu azul também não tem… Eles fazem amor em Marte? Existem orquídeas, ipês, rosas em Marte?  Eles se casam? Ajudam uns aos outros, ou eles exterminam quem precisa de ajuda, por considerarem não ajustados?

Não sei o que existe em Marte, e talvez esse pessoal que esta de “malas” prontas para um futuro bem próximo em 2023 não retornem para nos contar das aventuras que irão viver, o que se sabe é que eles estarão deixando a terra em busca de outra existência, enquanto aqui tantas delas clamam por uma chance para viver.

Marte pode ser bem melhor em vários aspectos, mas a terra humanamente me é fundamental, ainda não a desbravei como desejo, mas tudo que conheço é incrivelmente amado e perfeito, tudo o que me cerca é de uma necessidade sem fim.

Aqui na terra tenho a certeza dos pés a cruzarem uma caminhada sem pressa pela beira do mar, o ar as vezes seco, noutras perfumado pela chuva, o céu de um azul pintado por seres celestiais, a certeza da esperança, e de consolo a ilusão o abraço de algum coração tão humano quanto o meu, aqui conheço a lei da vida e o sonho de que tudo pode ser possível. Sei que aqui tem musica, cores, tem pipa, letras, sol, luar, tem circo, e risada, e gente muito do bem, sei que existe vida e que nessa vida tem todos vocês e você.

D.S.L

*Foto astronauta  André Kuipers

Experimente falar com Ele

“Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós, tenho que apagar a luz, tenho que calar a voz, tenho que encontrar a paz, tenho que folgar os nós”*

O que de fato é preciso para falar com Deus? Concordo com os versos acima, e poderia acrescentar inúmeras outras coisas necessárias para falarmos com Deus. Creio na minha pecaminosa e talvez desorientada opinião, que é primordial ter humildade, acho que o primeiro passo é aceitar a hierarquia: “eu sou isso” e você é Deus.

Falar com Deus, ou sobre Ele, é um caso tão serio e cheio de mistérios que a humanidade por todos os seus longos anos persegue respostas em busca de saber esse Deus.

Cada um tem seu ponto de vista, para alguns tudo é bíblico, para outros nem tudo, para outros tantos é fantasia, Ele nem existiu, ou é parte ilustrada de uma verdade inventada pela própria humanidade para sentir-se menos humano talvez, alimentando o sonho de nossa imortalidade ao menos como espírito.

O resultado desses inúmeros pontos de vista sobre quem é Deus, é a multiplicação de ministérios, religiões, doutrinas, seitas, denominações, acredita-se que existam mais de dez mil religiões espalhadas mundo a fora, e se a maioria delas crê em Deus, porque não as unificar, porque não somar umas as outras, porque não transformar todas essas pessoas espalhadas por essas religiões em um grande exercito a favor do bem e do próximo?

Posso não saber responder muitas outras perguntas, mas essa tristemente conheço a resposta, nos não estamos preocupados com quem é Deus, ou com o que Ele quis dizer ou deixar para a humanidade, estamos com os olhos voltados para nos mesmos, para o Deus de cada um, é impossível formar esse exercito enquanto Deus não for sinônimo único e indissolúvel do bem, do amor, da esperança e do outro.

Não posso lhe dar a mão por que minha religião é intolerante a mulheres solteiras, você é negro não pode ser filho de Deus, você é judeu minha religião é contra, você é mulçumano não podemos caminhar juntos, Deus me livre você é gay, abominável, endemoniado, minha religião não acolhe pecadores.

Sua fé é do tamanho da sua religião? Onde esta o Deus que proclamava não fazer acepção de pessoas?

Quatro palavras difíceis de se unirem, tão difícil quanto unificar a fé acreditando que Deus é um só.

Prefiro enxergar Deus, vejo-O vivo no jovem que vence, no rico que não se mostra soberbo, no pobre que diz ter tudo e que leva a vida a sorrir, a cantar, e ainda a compartilhar o seu tudo. Gosto de pensá-Lo, de conversar com Ele, senti-Lo próximo como se estivesse envolta em seu abraço, entrego-lhe a permissão de cuidar da minha vida e isso é como dar-lhe autorização para varias surpresas, altos e baixos, silêncios desconcertantes idênticos ao de um deserto, tempestades, períodos de seca, de luta, de semeio e enfim de florescer. O tenho sempre perto, falar Dele deixa-me emocionada, pois reconheço todas as vezes em que fui salva mesmo sem merecer, reconheço seu perdão quando Lhe faço interrogatórios, e principalmente quando a Sua vontade não é a minha.

Falar de Deus ou sobre Ele é muito complicado, mas falar com Ele é uma experiência que ate os ateus deveriam tentar, é uma dádiva olhar o por do sol e se deixar envolver magicamente nessa manifestação gigante da natureza reconhecendo que uma força superior desenhou aquelas cores no céu, reclinar o corpo em sinal de humildade, dedicando-lhe alguns poucos instantes, sem palavras se lhe for mais confortável, acredite Ele lê pensamentos e ouve até sussurros, e mesmo aos que por qualquer motivo, político, individual, filosófico ou cientifico não acredite Nele, Ele jamais duvidaria de você.

Sei dizer que Deus é pra mim toda manifestação de amor que existe no mundo, e amor não se explica.

*trecho da musica de Gilberto Gil – Se eu quiser falar com Deus

D.S.L

#diadoescritor

Acho que “rabisquei” antes de falar, e falar ainda é muito complicado, prefiro o branco do papel, o silencio dos pensamentos e o segredo de brincar com as palavras. Falar não é fácil como todos dizem, ao menos pra mim. Escrever foi o que me salvou da loucura, da realidade, é a minha analise, o meu divã, meu grito.

Escrever não pesa, não dói, não maltrata, escrever é um sonho, o meu sonho e meu oficio de paixão, e essa paixão nem sempre é bonita, nem sempre é entendida, as vezes nem mesmo lida, mas não ligo e quando ligo escrevo, e quando escrevo tudo em mim existe e nada mais importa, senão tudo o que o coração rabisca.

D.S.L

Quase bobinhos

Encontrei a felicidade em um moleque que empinava sua pipa, tão simples, os pés descalços, dorso ao vento e aquele pedaço de papel preso por gravetos indo cada vez mais alto, bailando cada vez mais bonito, parecia enfeitar o céu azul, acho que até o próprio sol ficou encantado com essa imagem, a pipa parecia a vida, sem hora pra subir, sem hora para deixar de voar, sabia-se que voava apenas.

Noutra manha a beleza se fez em um ipê amarelinho no caminho de casa, parei meus pés sobre suas flores derramadas ao chão, e ao fechar os olhos pode senti-los, a experiência foi de tanta intimidade que pensei estar descalça, e toda aquela beleza pareceu por alguns instantes fazer parte de mim correndo por minhas veias a pureza daquelas flores.

Quando muito cansada, sem direito de parar, ou fugir para algum lugar onde tudo possa fazer mais sentido, ou ficar mais calmo, sem fumaça, ruído, pessoas nas ruas com frio, crianças sem casa, fome no rosto, na alma, fujo em pensamento para o mar, meu espírito se levanta e caminha sobre a areia branca gelada, não faz frio faz brisa, sem ruído apenas a melodia, sem fumaça o cheiro é de especiarias perfeitas: luar e mar, sem as luzes borradas dos faróis, o encanto e a força daquelas águas parecem lavar meus pensamentos, aniquilando meu desejo de grito.

Assim vão-se as horas até a noite chegar, para que na manha seguinte a pipa volte a enfeitar o céu brincando com menino de dorso nu, os ipês  a banhar-se com o brilho do sol, e o cansaço, ah esse é engolido, naufragado pela beleza do mar que ao aniquilar meu grito transforma-o em melodia, resta-me assim sair pela vida a cantar e inventar palavras e historias fantásticas, e pensamentos bonitos, quase bobinhos, pois tomei pra mim a missão de enfeitar a vida.

D.S.L

*imagem: http://bonitoisso.tumblr.com/page/2

O seu gigante acordou?

O Brasil viveu um momento histórico, onde brasileiros de todas as classes sociais, credos, raça, enfim o povo foi as ruas, em um primeiro momento protestar contra o monopólio do transporte publico e o alto custo das passagens de ônibus.

O governo se assustou e estremeceu literalmente com a massa em coro gritando que o gigante havia acordado.

Foi lindo ver milhões nas ruas segurando sua bandeira, erguendo cartazes, lutando como tem que ser, a qualidade de vida precisa e deve ser melhorada, vez que o Brasil não é um pais de todos como mostra o slogan do governo federal que estampa as propagandas enganosas que teimam em ludibriar o povo ao dizer que esta tudo bem e que os governantes eleitos se importam com sua nação.

Esse primeiro movimento conseguiu alcançar a meta de sua reivindicação, mas os protestos continuaram ainda por um tempo e agora parecem perdidos, pois cada um começou a querer ter um grito, e o que se viu ao final de tudo foi um grande barulho de um amontoado de gente que já não sabia ao certo porque estava ali na rua, gritando, pintando o rosto, estendendo uma bandeira, a união do movimento parece ter se perdido em causas individuais, “a coisa” ficou tão sem controle que se lia cartazes protestando contra o preço de um chocolate, talvez seja falta de humor de minha parte, mas para ser relevante é preciso seriedade, senão vira bagunça.

O gigante acordou é uma linda frase, uma verdadeira utopia antiga e verdadeira, de uma força imensurável e de um poder impar que só o povo nas ruas pode exercer.

Muita gente reclama do governo e com razão, mas age da mesma maneira que seus governantes, o filosofo Maistre já dizia  “Cada povo tem o governo que merece”, descordo de varias filosofias dele, mas compartilho dessa sua frase.

Será que o gigante que acordo na rua, acordou também dentro de sua própria casa? Você! Advogado, jornalista, artista, juiz de direito, que foi a rua reivindicar melhoras de vida, o senhor aposentado que mantêm em sua residência uma empregada domestica, os senhores obedeceram a lei que dão a elas quase todos os direitos dos demais trabalhadores? Ou a acharam injusta? Afinal ela mexe em suas receitas, manter uma empregada sem os devidos recolhimentos e direitos era bem melhor, não é?

Você empresário que estava na rua, vociferando contra a alta carga tributaria o que o senhor oferece a seus subordinados? O que o senhor oferece ao material humano que possui? O gigante acordou no senhor? O senhor sabe se na marmita fria de seu funcionário tem carne? O senhor acha justo uma carga horária de 44 horas semanais? O senhor já ouviu falar em plano de carreira, convenio medico, participação nos lucros? Seu funcionário recebe cesta básica? O senhor paga todos os valores recebíveis em folha, ou é adepto ao famoso “por fora”, justificando ao funcionário que assim é melhor pra ele? O senhor utiliza a desculpa de que a empresa não é lucrativa para não conceder aumentos? O senhor subestima a inteligência humana de tal maneira a querer que alguém acredite que sua empresa esta aberta por filantropia. O senhor é o espelho de seu governo.

E você que esta em casa, que casou, jurou fidelidade, amor, companheirismo e hoje espanca sua esposa, o seu gigante acordou? O senhor que não quer saber de trabalhar, estudar, ou fazer qualquer coisa útil, o seu gigante acordou? O senhor que vendeu seu voto por vinte reais na ultima eleição, o seu gigante acordou?

Você que é incapaz de escutar alguém quer ter voz? Não enxerga nada além do próprio umbigo, é invejoso, covarde, medíocre, hipócrita, inconveniente o seu gigante acordou? O que afinal deseja para o próximo? Você luta por direitos iguais, educação para todos, saúde, lazer, cultura, igualdade já, mas é contra o amor entre pessoas do mesmo sexo, o seu gigante acordou, não era pela igualdade que você lutava? Acredita que o mundo possa ser melhor, mas vive de aparências, cultua a beleza, desprezando tudo o que sai fora de seus padrões tão modais, se aproxima apenas de quem pode lhe oferecer alguma migalha de alguma porcaria, o seu gigante acordou?

O governo sem duvida precisa mudar, é urgência mais honestidade, transparência, mais olhar para o próximo, mais consciência do poder que demos a eles, literalmente do voto de confiança, mas antes de pintar o rosto e envolver o corpo na bandeira da pátria, reflita se o gigante dentro de você, em sua casa, empresa, na sua vida não esta dormindo.

D.S.L

Do alto da escada

Dias injustos: o sol não nasce, a cama não esquenta, o sono não cessa, e a hora passa apenas pro despertador, parecendo no decorrer do dia não mover os ponteiros.

O cansaço vence e a vida desgoverna.

O céu para, nem mesmo as nuvens passam, nada acontece.

O ônibus não vem, a musica não toca, ou a vida esta errada ou a gente é que atrasa.

Dias injustos: sem abraço, sem colo, conselho, cobertor, sem sabor, tem dias em que a única opção dada é a de engolir, sem mais, sem escolha para onde ir, sem hora certa pra chegar, tem dias em que a vida para ou atrasa, ou sei lá.

O grande nada, a espera de tudo, nada se põe ou opõe, nada se pode, tudo é semente, contrariar é sempre desonesto, portanto me calo, e diante desse silencio incomodo, insosso, insano, tudo parece despertar e gritar, feito louca tapo os ouvidos, quase inutilizada levanto-me causando terremotos ate ser notada, como quem quer dizer a alguém: olhe para mim .

A vida é egoísta, nos toma por inteiros, nos cansa os nervos, avermelhando os olhos, enrijecendo os músculos, nos impossibilitando de calcular os próprios pensamentos, nos preenchendo dela mesmo de tal maneira a nos deixar tontos, estarrecidos, sem ar, sem luz, sem sonhos, é como um nó de gravata apertado: sufoca, irrita, desafia e de repente afrouxa. Ela parece parar a nossa frente com as mãos nas cadeiras, dizendo em tom de deboche: vamos ver até onde vai, vamos cansar ate aonde agüenta,  e o tempo se comporta como o vento que nos amedronta do alto de uma escada, afinal o que ameaça acontecer e não acontece é o que nos faz temer.

Há dias injustos, onde me sinto como a menina esquecida na escadaria da escola, tendo como companhia seus medos, seus livros e seu anjo da guarda.

Há dias injustos mas eles passam.

D.S.L