A felicidade não envelhece

Casou aos vinte um anos, naquela época moça era pra casar, o futuro esposo era filho de um velho conhecido da família, o que facilitou as coisas, pois se conheciam desde a meninice.

Linda, com olhos cor de mar que faziam qualquer um querer naufragar naquele oceano de mistério. Certo dia passeava pela praça da cidade, o rapaz a viu e se interessou, ela mal se lembrava dele, se encontram poucas vezes em aniversários e outras festas de família, logo os pais trataram de marcar um jantar e aproximar os jovens.

Com a educação que tivera aceitou ser cortejada por ele, e em menos de um ano ela se viu no altar ao lado de um rapaz tímido, de pouca conversa e dono de um respeito que ela muitas vezes desconhecia o sentido de ser, o beijo no altar lhe foi dado na testa.

Uniu-se a ele sem a emoção da paixão, do amor, pois desconhecia tais sentimentos, via em seu esposo um companheiro e amigo, com quem sentava-se na varanda a observar as tardes passar, vez ou outra ele colocava um disco na vitrola, porem nunca lhe sussurrou um refrão se quer ao ouvido, nem mesmo se arriscou a tira-la pra dançar, ou coisas do tipo que ela ouvira dizer que os amantes faziam.

Viviam uma vida tranqüila, sem grandes emoções, a maior e talvez única delas, foi aos três anos de casados quando tiveram uma filha, que cresceu e diferentemente de seus pais quis conhecer o mundo. Pertencia uma paixão pela vida e pelos sentimentos que surpreendia a todos e contagiava a qualquer um a seu lado, a mãe compreendia e sorria timidamente reconhecendo que a filha pintaria sua vida com cores mais alegres e vibrantes, pois sentiria paixão, conheceria o amor, experimentaria emoções fortes e intensas, ficava encantada ao ver a menina cantando pela casa, dançando como quem flutua em nuvens, sorrindo por tudo, sem pressa, como se a vida lhe fizesse cócegas a todo instante.

Sempre que olhava para filha pensava: ela será mais feliz, pois saberá o que é ser feliz, conhecera de tudo e terá vastas escolhas, como se pensasse sobre si mesma, chegando a conclusão de que a vida não lhe deu muitas chances para um outro caminho.

Imaginava que sua historia não iria muito alem daquele casamento tranqüilo, e das tardes sentadas à varanda conhecendo mais da vida através dos olhos da linda moça que trouxera ao mundo.

Faria trinta anos de casada naquele mês, mas a vida, ou melhor, a morte levou seu melhor amigo. Em seu leito ouvira do rapaz tímido a confissão de arrependimento por nunca ter-lhe dado mais do que aquela vida, em um ultimo pedido disse sorrindo a esposa: prometa-me que será mais feliz. Então ela o viu cerrar os olhos sorrindo, enquanto suas mãos deixavam as dela.

Restou-lhe da vida, a varanda, onde agora sozinha esperava pelo começo e o termino de mais um dia. Foi assim durante alguns meses, mas filha observando que mãe lhe parecia ainda mais triste e sozinha do que o de costume, sem nem mesmo consulta-la matriculou-a em uma escola de dança. Por insistência, convenceu a mãe a participar, no primeiro mês para incentivá-la foi seu par nas aulas, e quando percebeu que ela tomara gosto pela “coisa”, uma noite inventou um compromisso que a fez ir sozinha. Sem par, um senhor a tirou para dançar, tratava-se de um jornalista aposentado, já o tinha visto algumas vezes pela cidade, mas nunca repara em nenhum outro homem; Mesmo ressabiada e contida, aceitou o convite.

Logo que os corpos se encontraram, ela sentiu um doce perfume amadeirado que lhe fez automaticamente fechar os olhos, ele transpassou a mão em sua cintura e a conduziu pelo salão, foi a primeira vez que sentiu os pés saírem do chão, a cabeça entontecer, e o corpo em transe como se a musica à invadisse desde a essência de sua alma.

Saiu da aula cantarolando uma melodia, lembrando do cheiro de seu par, hora cerrava os olhos para sentir no corpo a sensação que lhe era novidade.

Ao chegar em casa e olhar-se no espelho sorriu para si mesma, adormecendo ansiosa, imaginando se ele a convidaria no dia seguinte para uma outra dança.

Dançaram novamente na noite seguinte, e com o passar dos dias os corpos iam aproximando-se involuntariamente. Ele começou a acompanhá-la ate sua casa, conversavam sobre todas as coisas, e sorriam com uma cumplicidade irradiante, numa noite a beijou e então ela experimentou um sabor novo, atônita quase não dormiu, estava apaixonada, e mesmo sentindo-se um tanto boba por um sentimento novo entregou-se aquela nova experiência.

Na noite seguinte ao beijo ele não foi a aula, desiludida e sentindo-se ridícula por acreditar naquele velho que agora lhe parecia um assanhado aproveitador, voltou para casa com o pensamento de desistir das aulas, e esquecer de uma vez por todas as horas que passara ao lado daquele homem que lhe despertara mais do que paixão, lhe despertara a vida.

Tomou um longo banho e deitou, quase adormecida começou a ouvir uma melodia conhecida, era a musica que dançara com ele pela primeira vez, não deu importância, imaginando que estava a sonhar, não era sonho, seu par estava a porta de sua casa, na mesma varanda cercada de silencio, acompanhado de dois amigos a lhe fazer uma serenata.

 Encantada esperou o fim da canção, e logo correu ao encontro de seu par o qual sem pestanejar lhe pediu em casamento, com o coração ainda aos pulos, ela aceitou.

Momentos antes da cerimônia a filha lhe perguntou se ela se arrependera de não ter vivido todo aquele encantamento na juventude, ela então do alto de sua sabedoria, respondeu-lhe: negativamente, acrescentando que não existe momento pré-determinado para ser feliz, sentimento que os anos são incapazes de envelhecer.

Nunca é tarde!

D.S.L

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Geração Y*

Cada geração fica conhecida por suas lutas, ideologias, conquistas, e historias que ajudam à geração seguinte a também lutar, pensar e crescer, deixando assim um: “é possível mudar algo, vencer e perpetuar na historia como marco de vitória em alguma área, para isso basta acreditar e se mexer”.
É como uma corrida de bastão, onde o próximo a apanhá-lo deverá correr, dando ainda mais de si para conquistar algo novo, assim vem sendo de geração em geração até hoje, ou melhor, até ontem, pois por tudo o que tenho visto, ouvido e principalmente sentido, percebo que a minha geração deixou o bastão cair, parando a corrida e desprezando aqueles que em algum momento dependera de nós para pegar novamente o bastão e correr em busca de sua historias e vitórias.
Pergunto-me sobre o que a minha geração será lembrada?
Ninguém quer nada com nada, ninguém quer nada além do próprio mundinho, do próprio umbigo, da própria satisfação.
Nada precisa ser muito aprofundado, existe uma espécie de medo de pensar por si mesmo, estamos sempre a imitar, como micos de circo, mas o palco em questão é o da própria vida, e sendo imitadores eternos, nunca seremos nós mesmos.
Contraímos certa alergia ao conhecimento que liberta, e a sentimentos que enobrecem, cruzamos os braços e nos tornamos personagens de uma historia que ninguém prestara atenção, pois a escrevemos com um desinteresse tremendo, quem nos ler não ira ter motivação de seguir para o segundo parágrafo.
Seremos lembrados como a geração da globalização, isso deveria ser sinal de uma cultura mais ampla, e de pensadores mais conscientes, pois temos ao alcance de um click qualquer assunto, qualquer livro, qualquer musica, e o que estamos fazendo com isso? Estamos copiando, é o “ctrl + c” que impera em trabalhos escolares de pesquisa, e também em nossas relações, não é preciso mais se dar ao trabalho de explorar a si mesmo quando se quer dizer alguma coisa sobre algum sentimento, simplifica: joga em alguma site de busca: amor, amizade, carinho, mãe, e sem ler é claro, ler alias da trabalho, (e trabalhar também não é a nossa, nos queremos tudo na moleza), e então lhe aparecera um infinito de poemas e textos que lhe servira naquele instante. Ah! Da uma de esperto e nem credita a quem é de direito as palavras encontradas, se quem ler também não for lá muito preocupado com essas coisas, você poderá jurar que é de sua autoria.
Pergunto-me sobre o que a minha geração será lembrada?
Seremos lembrados pelas grandes festas de horas e horas, onde “pilhados” por sons eletrônicos e danças esquisitas, deixamos o corpo livre, e o pensamento vazio, cheios de um nada que não nos leva a lugar nenhum, ensurdecidos pela falta de palavras. Seremos lembrados pelos placares de quantos conseguimos beijar em apenas uma noite, lembrados pelo que esquecemos, as bocas sem nomes que conquistamos pela duração de um beijo, para muitos isso tem sido o mais próximo que se chega de um relacionamento.
Lembrados pela estética, por esse culto à beleza a qualquer preço, pelas roupas que equivalem a um salário inteiro, por tudo o que nos torna mais bonitos por fora e mais ocos por dentro. A era das plásticas, das mulheres frutas que limitam seu talento a seios e bundas, ah e é claro a alguma dança que os façam sacudir.
Hoje em dia temos milhões de amigos virtuais e bem menos reais. As crianças sendo transformadas em mini-adultos com crises de depressão, stress, já não brincam, para muitas imaginar e fantasiar é algo bobo, perderam o encanto de ser criança, tornaram-se sensatas.
A droga cada vez mais forte na rotina de qualquer um, válvula de escape para esquecermos do nada que somos, destruindo tudo a sua frente: família, corpo, mente, aniquilando a sociedade, antecipando a morte e dando coragem a crimes cada vez mais bárbaros, enchendo as calçadas de moradias cada vez mais e mais cedo, o trafico servindo de primeiro emprego a muitos, trazendo uma falsa idéia de poder e oportunidade.
Uma historia sem ideologia, conteúdo, uma historia sem historia, celebrada pela falta de encanto, de paixão.
Seremos lembrados pela geração que foi capaz de matar nossos próprios pais, filhos, irmãos, por inveja, por pobreza de espírito, por ciúme, por falta de amor, conveniência ou qualquer outro motivo fútil.
Seremos lembrados, quando melhor mesmo seria sermos esquecidos pela incapacidade de escrever algo que valha a pena, sendo mais assustador ainda o fato de isso não incomodar ninguém.
E você pelo que será lembrado?
D.S.L

*
A Geração Y, também referida como Geração millennials ou Geração da Internet[1] é um conceito em Sociologia que se refere, segundo alguns autores, à coorte dos nascidos após 1980 e, segundo outros, de meados da década de 1970 até meados da década de 1990, sendo sucedida pela Geração Z.(fonte: http://pt.wikipedia.org/)

Mais do que o som da própria voz

Há quem acredite que sozinho basta!
Há quem jure que a solidão é necessária, muitas vezes sim, mas na vida em maioria é bem melhor estar acompanhado, ouvindo mais do que som da própria voz, tendo mais do que pensamentos vazios, e a companhia da ausência.
Não me basto! Definitivamente me descubro como alguém que sempre precisa do outro, mesmo que para ter apenas um silencio acompanhado, que pode assim sem mais nem menos ser quebrado por uma conversa, ou quem sabe por uma canção que fica mais bonita mesmo que desafinada quando cantada a dois, ou ainda pelo simples fato de não se descobrir só.
É necessário aos meus olhos dividir aquilo que vejo, observo, sinto, talvez por isso escrevo, dividindo o que há em mim, repartindo o mundo que alcanço, as palavras que ouço vindas do meu coração, as vezes tão difíceis de serem contadas, tantas outras mal compreendidas, sem sintonia como se fossem intraduzíveis.
Dividir o que é novo, relembrar o que é passado, sonhar com o futuro, todas essas coisas a dois são obtidas com mais paixão.
Quando a sós, vejo o quanto o cotidiano e todas as suas coisas simples, as quais automaticamente desprezamos, e juramos viver sem sentir falta, nos faz uma falta absurda.
São as tais raízes que criamos, e como uma arvore que cresce forte, oferece cheiros, gostos, frutos, os quais, muitas vezes não nos damos conta do quanto são vitais a nossa existência, tornando a felicidade mais simples e ao alcance dos olhos, com tudo o que temos de mais real e sincero.
Nos momentos quando tudo o que nos sobra somos nós mesmos, temos a consciência plena daquilo que não queremos ser, do que devemos preservar e dos valores que as pequenas horas têm sobre nossas vidas.
Quando tudo parece gigantesco, estranho, e cheio de vozes e sons que não reconhecemos, nos vemos assim com uma saudade que nos cobre de uma certeza capaz de fazer enxergar o quanto somos simples e felizes, com as coisas do dia a dia.
O café da manha na mesa da cozinha, a cama na qual lançamos nossos sonhos, o caminho do trabalho, o cheiro de casa, o som de vozes amigas, o latido incomodo do cachorro, o telefone tocando, as coisas nossas, a liberdade de saber aonde ir sem se perder, a paz de ser feliz e mais nada, simples assim!
D.S.L

Ser mulher é ser mais

Somos ilimitadas, há um símbolo que poderia nos definir: o circulo, por não ter fim ou começo após o ponto de inicio.

Carentes, guerreiras, choronas, determinadas, românticas, corajosas, mas o que não aceito é quando somos chamadas de sexo frágil, pois definitivamente essa característica não engloba nossas infinitas qualidades.

Muitos se perguntam por que a mulher merece um dia instituído a sua existência, os motivos são vários, repletos de momentos históricos marcados por lutas que até hoje permanecem em pauta, por ainda sofrermos com o desrespeito de quem acredita que ser mulher é ser menos.

Ser mulher é ser mais, e os homens que me perdoem, mas de fato temos mais coragem do que eles, pois nos é dado o maior de todos os desafios: ser mãe, crendo eu, ser essa a tarefa mais difícil do mundo, portanto a que exige mais coragem.

A quem veja o 8 de março como um dia a ser lembrado por muitos e também muitas pelas ofertas, homenagens e “bobajadas” de lojas de roupas femininas, salões de beleza, supermercados, etc. Dando uma falsa idéia de futilidade à homenageada.

A data merece ser lembrada por esse universo feminino tão complexo e de tão difícil entendimento por parte de alguns homens e segmentos da sociedade, merece ser lembrada pelos rostos machucados, pelas mãos calejadas, pelos colos acolhedores, por tudo que passamos para ter o direito de pensar e dizer aquilo que pensamos.

Ainda hoje temos marcas de violência, no corpo e na alma, diminuídas por salários inferiores aos dos homens, desprezadas quando nos é negado um cargo superior, incompreendidas nos relacionamentos quando falamos de amor, por acreditar nesse sentimento que dentro de nos tudo movimenta. Para muitos somos um bicho de sete cabeças, e o pior: um bicho que precisa ser domesticado, ao léu de sua vontade própria, consentindo com um silencio imposto.

A quem diga que lugar de mulher é na cozinha, no tanque, a quem sonhe em ter uma companheira não para dividir a vida, mas sim (não para dividir também) as tarefas diárias como: lavar, passar e esperar o esposo com um belo sorriso nos lábios.

Acredito que hoje as mulheres sorriem mais e não necessariamente somente a seus esposos, como coadjuvantes, sorrimos quando temos vontade, ao conquistar uma vaga no vestibular, quando participamos da cidadania com o direito de voto, ao subirmos nos palanques defendendo nosso ponto de vista, a inundar o mundo com palavras doces cheias de ricas poesias, na musica com belas e fortes vozes, na pintura, no cuidado, na vida, somos bem mais mulheres todos os dias, somos nós que damos a tudo uma nova cor, um toque de sutileza, uma razão mesmo onde não há fundamentos.

Não a salto alto que nos empeça de correr, não a esmalte fresco que nos atrapalhe a colocar a “mão na massa”, não há escova que nos tire o direito de um banho de chuva, nem maquiagem que nos iniba a vontade de chorar, temos nossos orgulhos e imperfeições tão comuns a qualquer ser humano, somos diferentes dos homens por varias razões, as quais fazem a muitos pensar que somos incapazes, menos merecedoras, “mulherzinhas” como ouvimos por ai, com suas coisas de mulher, que na verdade nenhum homem vive sem.

Para nós não basta conquistar o mundo, poder, dinheiro, um bom salário, não basta ter, queremos poder ser, cada vez mais, simplesmente mulheres, amadas, amantes, únicas e respeitadas em direitos e deveres.

D.S.L

Nesta semana em homenagem a mulher cito alguns nomes de mulheres as quais admiro: minha mãe Nair, minha avó Irene, Elis Regina, Clarice Lispector, Maria Bethânia, Elis Barbosa Lima, Chiquita Marcondes, Zilda Arns, e tantas outras que com suas peculiaridades me ensinaram tantas coisas. Homenagem também a todos os homens que sabem respeitar e admirar o ser mulher.

Onde não haja portas

Aonde eu posso te encontrar?
Ouço gritos, é sua voz a me chamar, mas eu não sei aonde você esta.
Eu te procuro pela internet, pelo telefone, vejo seu caminhar nas ruas, mas não é você logo que se viram pra mim, não é seu rosto.
Você grita cada vez mais forte, e eu fico como louca te procurando, sem ao menos ter noção da onde vem o som da sua voz.
Nas ruas persigo teu cheiro e nos caminhos por onde andamos o teu rastro, mas eu não te acho, e então eu me pergunto se eu te perdi.
E você continua a gritar, me chamando.
Dentro de mim essa confusa solidão, que nada quer alem de encontrar teus braços e adormecer no colo, como nas noites onde as festas acabavam pelo amanhecer com o teu sorriso dormindo no meu.
Era pra você ficar, e tentar ser forte, e acreditar como eu que a gente vence a vida quando luta com mais força que ela e berra mais alto do que o medo que vai vencer, mas você não suportou ficar.
Sinto tanto a sua falta, quero tanto te ver, e você continua gritando, quase me ensurdece.
Sonho com você, ora acordada ora dormindo, sonhando tudo é tão mágico, tudo é tão lindo.
Tenho rabiscado e nem ao menos esse labirinto de palavras tem me ajudado a te encontrar, então eu resolvi pintar, mas o sorriso no quadro ficou triste, e quando decidi cantar a voz confundiu-se ao pranto, nada mais restou, só o choro te pedindo pra voltar.
Pra voltar sem nunca ter que dizer adeus, sem mais lacunas de tempo, sem mais horas confusas, sem mais dias sem te ver, pra voltar pra sempre, sem mais amor tendo que transbordar por falta de coração que o caiba.
Voltar trancando todas as outras portas, jogando as chaves fora, para só então encontrar um outro caminho, aonde não haja portas e obstáculos a serem passados, onde não haja mais nada que não seja eu e você.
Eu ouço seus gritos, eles vêem de dentro de mim, é o meu coração que te carrega seguro em algum lugar que o fim esqueceu de visitar!
D.S.L

Na passarela do coração

Ninguém quer ser comum, ou “apenas mais um na multidão”.

Difícil encontrar alguém que não esteja em busca de seus 15 minutos de fama, desejando é claro que esta fama dure pelo resto da vida, seja ela de qualquer natureza. Prova disso são as milhares de inscrições que diversos reality shows recebem.

Neste ringue vale tudo: ex-namorada de jogador de futebol, ex-mulher de cantor, ex alguma coisa, mas muitos são pessoas comuns, com seus empregos e vidas comuns, que decidem sem temer retaliações expor o que deles próprios?

Pergunto-me o que afinal de contas eles têm para nos oferecer? Muitos são aspirantes a atores, cantores, escritores, “artistas”, mesmo que doutorados em um curso feito por correspondência, famosas subcelebridades, muitas delas a sombra de algum famoso consagrado.

Colocam assim em cheque sua sexualidade, sotaque, jeito de falar, andar, chorar, expõem o ser humano que em essência é apenas mais um, comum, com uma carga empírica de conhecimento, com uma ou outra historia engraçada pra contar. Muitos expõem o quanto o ser humano pode ser fofoqueiro, dissimulado, falso, egoísta, arrogante, violento, desrespeitoso, feio, louco, ou doce, inteligente, determinado, o famoso “gente boa”.

Aguçam em muitos um fetiche oculto de uma espécie de voyeurismo, noutros o conhecimento de vivenciar modos de vida diferente, com pessoas provenientes de vários outros estados, com modos de vida diversos, sendo isso muito pouco para conhecer a cultura de uma gente.

O talento é o único requisito capaz de sustentar: fama, sucesso, dinheiro, reconhecimento e valor, (vale também para a vida longe dos holofotes) é apenas ele que transforma pessoas comuns em personagens imortais, figuras ilustres, dignos de pertencer uma eternidade de fãs que permanecem de geração em geração.

Raros são os casos, em que a fama é firmada face o simples fator de existência, pois é preciso ter algo “a mais”, mesmo que de péssima qualidade, assim muitos oferecem o corpo (o qual também uma hora despenca), outros conseguem em meses serem lembrados pelo resto da vida carregando um fardo de rejeição, por jogos sujos e manipulações diversas, a qual o publico não engole.

Para alguns é um passeio, um descanso da vida comum, uma aventura causada pela convivência com pessoas desconhecidas, criando amizades que pertencem em mesma proporção força e efemeridade.

À de se pensar mais nisso, à de se perguntar: Para quem é preciso ser importante, por quem querer ser lembrado ou pelo quê querer ser lembrado?

Ninguém quer ser só o que é, plantou-se uma idéia de que isso é pouco demais, dando as pessoas à falsa ilusão de que a qualquer custo é necessário ter certa importância. Pergunto-me novamente, importância de que? Pra quem?

Importante na vida de cada um a de ser nossos pais que um dia irão embora deixando-nos uma saudade que acredito nunca passar, os amigos escolhidos, aquele professor inesquecível que lhe deu a chance de descobrir um mundo novo e vasto de conhecimento, o primeiro de muitos outros amores, as poucas pessoas que verdadeiramente um dia se importaram com você.

Importante à de ser cada um em sua maneira: o político que não rouba (eu sei ta difícil), o medico que se formou não para ter uma placa com seu nome em alguma sala de um prédio luxoso, mas sim com o intuito de salvar vidas, de fazer mais, o advogado( eu sei ta difícil também) com sede de justiça que não advoga apenas em causa própria, a pessoa que esta do seu lado todos os dias lhe é importante, quem lhe serve é importante, a quem você serve também é importante.

Importante são as pessoas que estão em nossas vidas, senão todos os dias, mas por algum tempo, senão por algum tempo, mas de alguma forma que as transformam em imortais ao menos em nossa memória.

Para quem nos ama somos pessoas mágicas, encantadoras, com direito a tapete vermelho, flashes, e tudo mais na passarela do coração, essenciais para quem verdadeiramente importa.

D.S.L

Por lá nunca estive

Nesses tempos de carnaval, festa que acredito ter começado na Bahia, sendo esse fato ainda não descoberto pelos historiadores, é impossível não pensar em Salvador, ou seja, na Bahia de todos os santos, de todos os ritmos, de todas as raças, e gentes, cores, luzes e tudo mais que só a Bahia parece ter.
È de impressionar o modo como àquela gente transforma em festa tudo o que lhes acontece de bom, e talvez faça festa para espantar o que lhes acontece de ruim.
Acredito que uma vez por mês deva ter um carnaval fora de época por aquelas terras. Nasceu alguém, tal pode ser filho de algum artista ou neto de algum filho de Gandhi, se o menino(a) era por demais esperado então saúdam sua chegada com algum barulho, mesmo que este não provenha dos gigantescos trios elétricos, um rapaz de família pobre que se forma doutor, uma moça que casa, um filho do chão que alcança o sucesso na radio, são motivos de festa, e assim o carnaval por lá não se encerra na quarta – feira de cinzas;
Para eles não existe essa obrigação de dançar, e provar de sua cultura, estar alegre e comemorar em uma data determinada pelo calendário, por isso há na Bahia tanta festa e tanto riso, para tanto basta o coração achar preciso, e isso só depende da vida mostrar sua face feliz, em meio a uma gente que em sua maioria é tão sofrida e carente de tantas coisas.
Por lá nunca estive, mas de ouvi falar sei que é um povo guerreiro, e ao contrario do que dizem as más línguas não ser “chegado” a muito trabalho, penso diferente quando vejo suas mulheres a lavar roupas nas pedras de alguma cachoeira, as baianas na venda de seus quitutes carregando o tabuleiro na cabeça, as crianças engraxando sapatos tão novas e tão aguerridas na luta pela sobrevivência, das garotas perdidas que esperam seu “príncipe encantado” vindo de algum outro pais por suas ruas ladeiradas.
Por lá nunca estive, mas muitas vezes é como se um pouco daquele povo estivesse em mim, com sua fé, sua energia inabalável, sua alegria incontestável, seu berço tão vasto e tão forte de poetas: Jorge Amado, Dorival, Caetano, Gil, das muitas Bahias, dos muitos bahianos, desse povo anônimo que são chamados de “ó meu rei”, reis sem coroas ou brasões, sem capa de veludo ou cetro, reis das ruas do Pelourinho que é parte da historia do sangue derramado pelos negros que viviam cativeiro, e ainda contado pelos mais antigos que ficam a margem das portas de suas velhas casas, sentados espera de alguém que lhes de ouvidos a contar algum causo.
Por lá nunca estive, a não ser em meus sonhos, os quais me trazem seu cheiro de mar, suor, sua energia vibrante de por do sol nas tardes imaginadas em Itapuã, sua vida cotidiana calma e tão irreverente a qual derrama poesia servindo de matéria prima para tanta escrita, musica, filme, carnaval, vida, Bahia!
Povo tão santo e profano, tão verdadeiro e fantasioso, tão crente em tantas crenças, mistura de tudo, é branco de cabelo duro, é preto de olhos verdes, é índio de nariz afilado, é jambo de cabelo escorrido, japonês de cabelo cacheado, é samba, é funk, axé, frevo, mpb, até em bossa foi cantada, é batucada, é barulho, donos de uma paz faceira que com calma segue a vida, desejando que ela carregue a mesma alegria que ao mundo faz encantar nos quatro dias de folia que o calendário rabisca, mas que só na Bahia não se acaba, pois só a ela foi dada esse espírito de magia, de madrinha da felicidade, e amor a todos que por lá já estiveram, ou não.
Axé!
D.S.L