Ledo engano!

Depois de certa idade começamos a nos achar imunes a alguns sentimentos, ultimamente estava toda certa de mim, acreditando que certas “surpresas” e “situações” as quais a vida nos coloca não mais aconteceriam comigo.

É a tal “coisa”: já vi isto acontecer antes, senão por experiência própria, por experiência alheia, por já ter ouvido historia parecida e por ai vai.

Ledo engano.

Nunca estamos completamente imunes à coisa alguma, basta estar vivo, e tudo mais é possível de acontecer.

Existem milhares de sentimentos que não nos permitimos ou não queremos nos permitir viver, mas existe um sentimento em especial o qual depois de algum tempo e uma porção generosa de “porradas” da vida, a gente jura afastar e estar imunizado: a paixão.

“Paixão é coisa de adolescente”, depois de um tempo dá pra evitar.

Paixão na maturidade é diferente daquela que sentimos quando não temos certa experiência de vida, com os anos tudo é mais calmo, mais consciente; e ate mesmo a tão faminta paixão não é capaz de nos “comer” tão devastadoramente.

Mentira, mentira e mentira.

Paixão é paixão e nada é capaz de detê-la.

Um belo dia você acorda e se dá conta de que tudo o que mais te interessa tem a ver com aquele olhar, sorriso, cheiro, toque, abraço, voz, tudo o que mais te interessa tem a ver com aquele jeito de andar que mais parece um desfile de anjos em uma passarela brilhante feita de estrelas.

É como uma bactéria que percorre suas veias sanguíneas, deixando o corpo quente, e o coração ardendo em febre.

Vicio de pensamento, não existe um só segundo em que ele não te queira por perto, engasgo na garganta: declaro ou não, espero? E se espero, o que esperar? Esperar de que maneira? A paixão não liga pro tempo, não calcula milimetricamente os limites entre a razão e a vontade.

A paixão só sabe querer, exigente como ela só sempre quer mais e mais, e cada vez com mais vontade, e cada vez mais sem limites, livre de amarras, de maneiras, a paixão é mal educada, pois em alguns casos ela pode ser interpretada como falta de respeito.

A paixão é covarde, pois lhe coloca em cena motivos para lagrimas, xingamentos.

Ela é ciumenta e delirantemente encantadora.

Ela simplesmente te toca sem pedir permissão, e quando esse toque acontece parece ecoar nos recantos mais obscuros e ao mesmo tempo tão claros de sua alma.

Ela chega acompanhada de musicas (na maioria das vezes bregas), do encanto da lua, do sol que brilha ainda mais intensamente, das flores… Ah, quem dera eu portadora de coração tão puro e vagabundo roubar para ti todas as rosas do mundo, quem dera eu ser capaz de te encantar com o pouco que sou, te fazendo enxergar todo esse amor que pode acontecer caso essa paixão se permita viver.

Não é fácil admitir, acredito que todo sentimento quando verdadeiro chega acompanhado pelo medo, porque o medo vem da imaginação de se perder o pouco que se tem, o mesmo “pouco” que tanto bastou para confessar-me perdidamente encantada por este sonho que é você.

Paixão é paixão em qualquer idade, seus sintomas são sempre os mesmos, o bom dos anos é a certeza que ela ira passar, o bom da maturidade é saber que depois dela existir o amor às vezes é o que perpetua pedindo passagem para eternidade.

D.S.L

Ele sempre voa pra onde quer voar.Livre!

Alem.

Não quero encontrar a pessoa certa, não quero simplesmente alguém que divida comigo a vida, para isso tenho amigos, não quero alguém que me faça carinho, que me leve pra cama, ou me coloque em transe.

Não quero cafuné para dormir, afinal de contas posso tomar ansiolíticos.

Não espero envelhecer ao lado de alguém, tão pouco viver uma vida que não seja a minha.

Não desejo paz a teu lado, nem alegria.

Ser feliz? Isso eu sou e muito.

Não quero ninguém para me ajudar em coisa alguma.

Não quero essas singelezas tolas, tal quais essas que as pessoas estão acostumadas a ver, a ter, a perseguir.

Quero a alma cheia.

Um colo como endereço, um corpo como lugar no mundo, um único coração como morada eterna.

Alem, muito alem de qualquer sonho, realidade, vida.

Quero o que se esconde alem dos olhos, algo sem cheiro certo, sem medo, sem caminho, sem placas ou estradas.

Quero alem e nada menos que o amor.

D.S.L

A culpa é sua?

Três convites para festas, um churrasco, teatro talvez, três filmes em cartaz que gostaria de assistir, um passeio de bicicleta, uma visita ao museu, um bate papo com cerveja e amigos, e eu não querendo nada disso.

Hoje o programa mais simples do mundo seria um acontecimento glorioso: ficar em casa, deitada em um abraço que conseguisse suprir essa falta de aconchego, essa ausência de lugar no mundo, um abraço que colocasse a alma no lugar.

Queria estar tomada por essa força que une duas pessoas em meio ao nada que parece ser tudo, encontrar-me fortalecida para a vida depois de ter sido pacificada pelo amor.

Não vou colocar a culpa na chuva, no frio, na TPM, na vida e nas pessoas que passaram por ela e não conseguiram ficar. Não vou relembrar meus erros,nem sentir saudades forçadas só porque estou com saudades de ter alguém, não vou colocar a culpa em minhas apostas perdidas, ilusões, timidez, minha doença em esperar, minha covardia em não partir pra luta.

Hoje eu vou colocar a culpa em você.

Devo ter te visto algumas vezes, quem sabe trocamos um olhar ou ate mesmo palavras, na fila do supermercado, naquela tarde em que eu passeava de carro com um amigo e você parou no sinal para atravessar a rua, quem sabe você passe por mim todos os dias no caminho do trabalho, ou pegue o mesmo ônibus de volta pra casa. Talvez já nos tocamos: aquele esbarrão dentro da boate, aquele show em que todo mundo quase não tinha chance de respirar de tão cheio e você pisou no meu pé, e então ate mesmo a sua voz eu já tenha ouvido, quando me pediu desculpa.

Sim, iria colocar a culpa em você, mas a culpa também não é sua. Se você for tudo o que eu espero que seja, deve estar se fazendo às mesmas perguntas, e deve estar com uma tremenda vontade de chorar para o mundo o dia inteiro, só porque esta sentindo a minha falta.

Preciso colocar a culpa em alguém, pois alguém ou alguma coisa tem culpa, afinal todos os dias da minha vida quando saio de casa ou ate mesmo quando não saio, fico esperando pelo nosso encontro. Sei lá, que você veja meu perfil em alguma rede social e então me adicione, e assim a gente converse e marque de tomar um café pra continuar conversando e então tudo aconteça.

É assim que acontece, não é? É assim que as historias começam? Ou não?

Tudo bem, eu sei: ninguém sai de casa procurando ou esperando encontrar o amor de sua vida, ninguém não, eu saio, e saio muito, e assim à culpa volta a ser sua, porque ou você não esta saindo de casa, ou então não tem ido aos mesmos lugares que eu.

De todo mundo que já ocupou seu lugar por algum tempo, sempre quando foram embora, me deixaram à sensação de que nem de longe era você, e isso é tão bom, mas também é tão estranho, por que fico me perguntando se você existe, ou se é cria da minha imaginação, como um personagem de uma historia que não posso escrever, pois na verdade sua autoria depende exclusivamente da vida, do destino, do tempo.

Portanto como nem eu, nem você podemos carregar essa culpa achei três culpados pela sua demora: a vida, o destino, e o tempo (risos).

D.S.L

Eu lhes devoto.

Algumas pessoas acreditam que o ser humano para ser entendido deveria vir de “fabrica”, com uma espécie de manual de instruções.

Somos sim, seres complexos, e vejam só: apesar de a maioria hoje em dia se espelhar em alguém ou alguma coisa, tipo: artistas, cantores, moda, seitas, religiões, somos únicos.

Todos pertencem uma boca, um nariz, dois olhos, duas orelhas, mãos, pés, pernas, e mesmo assim somos todos diferentes.

Temos também um coração, e como o restante dos membros citados acima, este bate diferente e sente diferente uns dos outros, nenhum coração é igual.

Portanto só existe um jeito para se entender um ser humano: amá-lo.

Outro dia parei pra pensar o quanto despertamos cedo para os sonhos que teremos quando adultos. Quando criança, temos nossas brincadeiras favoritas: alguns gostam muito de brincar de ser medico, outros de futebol, professor, alguns gostam de pintar, outros de cantar, me lembro que você em nossas brincadeiras sempre dava um jeito de ser o pai de nossas crianças imaginarias, fingia sair pro trabalho, para mais tarde chegar em casa, jantar, cuidar dos cachorros, lembro que fingíamos muitas vezes ser domingo, só para você poder satisfazer sua vontade de levar a família pra passear em nosso carro imaginário, em direção a praia, essa sempre foi sua brincadeira predileta.

Você cresceu, e pela a vida a fora foi querendo transformar essa brincadeira em algo serio, para torná-la real buscou encontrar em algumas namoradas a mulher de sua vida, aquela que lhe faria querer voltar para casa depois de um dia inteiro de trabalho, para ter ainda mais trabalho, pois ter uma família não é nada fácil.

Tudo o que você sempre quis foi encontrar alguém para a vida inteira.

Uma pessoa, uma única pessoa, que parecia ser o personagem que faltava para sua historia enfim começar.

Encontrar o amor foi sua maior busca e aventura.

Quero desde já lhe dar os parabéns, pois hoje é o dia em que todos festejam o sonho que você esta realizando.

Algumas vezes se machucou, parecendo cair das nuvens quando mais uma historia não tinha um final feliz, outras pensou em desistir, desacreditando desse encontro que visionara todas as vezes que olhou para o céu em noites apaixonadas quando parecia estar encantado pelas estrelas, onde a lua parecia lhe mostrar o mesmo brilho que você encontraria nos olhos de sua amada.

Não escolhemos o amor, ele nos encontra, quando menos e quando esperamos, quando imaginamos não ser possível, lá esta ele sorrindo nos olhos do alguém que a vida nos deu de presente.

Quando a vida nos da esse presente é preciso que saibamos cuida-lo, cultiva-lo e principalmente agradece-lo a Deus, intensificando as orações para que sejamos merecedores de tal dádiva.

Nos últimos meses o menino que sonhava em ter uma família, vem ocupando seu tempo com os preparativos da comemoração e consagração deste amor. Todas as pessoas que estarão lá, com toda certeza levarão no coração votos de felicidade, alegria, paz, união para você e sua amada.

Será um dia de muita alegria, mas será apenas um dia de uma nova vida, não mais da sua vida somente, mas da historia ao lado do amor que a vida lhe presenteou.

Após a festa, todos iriam embora, e então o ultimo desejo que lhe devoto é que você saiba viver para ela, aceitando sua individualidade, fazendo com que ela tenha em você a mão mais amiga e o abraço mais protetor, que vocês tenham todos os dias algo bom que não lhes deixem esquecer o sentimento forte que nasceu em seus corações, que sua amada saiba viver para você, e que os dois juntos, aprendam a viver para o amor que os uniu, desejo que vocês tenham fartos momentos de felicidade, e que na luta cotidiana tenham um ao outro como cúmplice, amante, amigo e acima de tudo amor.

Desejo que Deus em sua infinita bondade sempre olhe por vocês, cobrindo este amor com seu manto sagrado, segurando essa família com sua destra, e enfeitando a historia de vocês com filhos que perpetuem sonhos tão bonitos quanto os daquele menino que fingia que todos os dias eram domingo só para poder passear com sua família.

Desejo que sejam felizes juntos.

D.S.L

A menina que ouvia Maria

Alem do canto, em mim, em nos, por mim, por voz.

Pés derramados em paixão, desnudos, dominados por sonhos, caminhando, dançando, brincam de saltarem ondas para rasgarem a areia do mar.

Vem do ventre, vem de dentro, vem da força, do canto.

Paixão por seus cabelos, desejo de toma-los, sem doma-los.

Tens cheiro de mato, de Bahia, de mar, tens sentido na intensidade.

Indomada alma.

Não precisas rimar para ser poesia, não precisa fazer sentido para ser entendida, não precisa ter palavras para ser ouvida, pois tocas a vida, sem machucar.

És como um sopro profundo que enche os pulmões de ar.

Canta a alegria, de maneira pura, torna-nos criança novamente, fica bonito o ingênuo, o cru, transborda-nos em essência, espírito.

És paz dentro de uma força soberana, cantas forte, com uma doçura só tua.

Peito que jaz em verdade. Inspiração para meus olhos. És bela.

Grande eco que assombra e agiganta a alma.

Deusa, divina, rainha dos ventos, ou melhor, com calma, és dona da brisa.

Leva-nos diante dos anjos, enquanto tuas mãos brindam o elemento dos Santos.

Estende os braços, doando de uma só vez, de uma só voz a fantasia que guardas de brincar a vida, permanecendo para sempre menina.

És fogo que consome a dor, transformando-a em saudade perpetua.

És benção, encanto, pescadora de sonhos e caçadora de todas as paixões viventes.

Tens enfim a chave da alma dos libertos em delírios de vida, paixão, fé e amor.

D.S.L

A melodia do coração

Naquela noite Ele me chamou para dizer que estava chegando a hora. Perguntou-me zeloso se eu estava pronta.

Cabisbaixa e com lagrimas nos olhos, medo no coração e um pouco de tristeza, respondi com um aceno positivo de cabeça que sim.

Percebendo tudo o que passava em meu coração naquele instante, Ele me convidou para sentar e admirar o universo.

Contemplamos o por do sol juntos, em silencio, enquanto Ele brincava de atirar pedrinhas no mar, transformando a água calma em ondas que corriam até a areia, percebemos do alto que algumas crianças brincavam com as tais ondas, e assim nos entretemos, achando graça delas.

A noite começava a tomar conta do mundo, e então perguntei:

_ Hoje não vais pintar o céu?

_ Você tem razão, esta na hora. Quer me ajudar?

Sorri respondendo que sim, e enquanto Ele desenhava a lua, eu com a ponta de meus dedos colocava as estrelas no espaço, assoprando-as em seguida para que fossem cada vez mais para perto do mundo, e assim pudessem ser admiradas por todos os que se derramassem de beleza ao simplesmente percebê-las.

_ Engraçado como cada uma tem um brilho diferente! – comentei

Ele então segurou minha mão pedindo que fechasse os olhos e sentisse no coração todos os melhores sentimentos que havia em mim, misturando no pensamento minhas melhores lembranças. Ainda segurando minha mão me pediu que abrisse os olhos e com a ponta de meu dedo desenhou um meio arco no espaço.

Uma estrela cadente cruzou os céus.

_ Ouça quantos de coração puro estão a fazerem pedidos.

_ Não consigo ouvir nada!

_ Feche os olhos novamente e me de suas mãos.

Ouvi varias vozes ao mesmo tempo, e então Ele pediu que eu me concentrasse, foi quando comecei a ouvir apenas a voz de uma pessoa.

Uma jovem mulher pedia que seu bebê nascesse com saúde, e que desde já fosse protegido por todos os anjos do céu, suplicou que Deus colocasse as mãos sobre sua criança desde o momento de seu nascimento, desejou intensamente todo bem querer e felicidade que pudesse haver no universo àquela criaturinha, rogou a Mãe de Jesus que ajudasse na missão de criar, educar e principalmente amar.

Quando seu pedido cessou, abri os olhos e Lhe perguntei:

_ Quem é esta mulher?

Ele me explicou que aquele seria o primeiro amor de minha vida, e que através da vida daquela mulher eu retornaria ao mundo para cumprir minhas missões. Salientou que outras pessoas também aguardavam ansiosos a minha chegada, até mesmo aqueles que se quer a previam.

Curiosa, quis saber um pouco mais dessas missões. Ele sorriu respondendo que eu aprendesse desde já a não ser tão ansiosa, que tudo aconteceria em seu tempo devido, e com o passar dos anos eu descobriria de que maneira minha vida haveria de contribuir com outras vidas.

Ele continuou a desenhar a lua, enquanto eu colocava mais e mais estrelas no espaço.

A noite já estava iluminada pelo brilho de todas elas.

_ Bela obra! – sorriu Ele ao dar o ajuste final à lua.

O luar estava imenso e maravilhoso.

Por muitos minutos ficamos os dois a observar as estrelas piscarem, e a lua brilhar intensamente, cobrindo a escuridão de luz.

_ Como vai ser a minha vida?

_ Vai ser vivida! Sofrera o suficiente para enxergar tudo às claras. Amaras muito e varias vezes, de inimagináveis maneiras, iras aprender o valor da compaixão, terá os olhos encantados pela beleza, e suas mãos serão fartas de bênçãos, tentara compreender o humano, decifrá-lo, tentara compreender a Mim muitas vezes, iras Me interrogar muitos mistérios, porem sua fé e o amor que guardas em seu coração será infinitamente maior do que todas as perguntas, terás assim todas as respostas que precisar.

Uma melodia começou a tocar, quebrando o silencio que restava de nosso encontro.

_ De onde vem essa musica?

_ Do seu coração…

_ É tão bonita, poderei ouvi-la mesmo distante daqui?

_ Sim! Todas as vezes que você quiser, todas as horas que sentir medo, ou quando simplesmente pensar estar sozinha, jamais se esqueça: Sou como a melodia que rege seu coração, sempre que você a quiser ouvir ou encontrar-Me, procure o silencio e a pureza de seus melhores sentimentos.

Depois dessas palavras a melodia foi lentamente me afastando de todo medo, recordo-me que antes de recostar a cabeça sobre um de seus ombros e adormecer, olhei em seus olhos misericordiosos, e com um sorriso de paz Ele me disse:

_ Abençoado será o teu caminho! Seja feliz!

D.S.L

Da fé, das asas, dos sonhos, do tempo.

As asas não perderam as forças, continuam firmes, e maiores.

Deixaram de voar por algum tempo, pois o vento não era favorável, e desrespeitar a natureza pode ser perigoso, alem do mais era preciso descansar, quando mais jovem e consequentemente imatura, voava sem cessar, não havia tempo ruim, e isso a fez enfrentar tempestades, chuvas, dias quentes, noites frias, foi preciso parar na montanha mais alta, e só então contemplar o horizonte e decidir para onde ir novamente.

Talvez esperar uma nova primavera fosse a melhor opção, porem dessa vez não se deixaria cegar pela aparente beleza e tranqüilidade de um jardim florido, recordou-se que outrora despencou em meio a flores, e os espinhos que lhe feriram de modo a lhe fazer sentir medo, por muito pouco não lhe fizeram deixar de acreditar, tal situação lhe fez pensar que não voltaria a ter fé, tamanha as feridas que lhe fizeram adoecer.

Adoeceu da alma, tamanha a dor chorou lagrimas silenciosas, que de tão fortes não se permitiam molhar o rosto, pois poderiam esfacelar a face em cortes profundos.

Descreu do mundo, por dias esteve diante de brancos, nada parecia ter lhe restado a não ser o grande vazio de sua existência, todas as suas lembranças, as melhores delas cultivadas há anos por uma vida cheia de encantos, eram então tachadas como ilusão.

Descreu de sentimentos, tudo e todos pareciam pertencer a um planeta distante, onde ninguém tinha importância, ninguém entendia, e a vida era algo desolador, pois passou a acreditar que tudo era aquilo que parecia ser e nada mais.

A rosa deixou de ser vida, o céu era apenas um espaço azul manchado de branco, as folhas secas pelo chão eram apenas folhas secas, o companheirismo mera moeda de troca, o ninho mais um desencanto: você é pouco demais.

O amor, este sim, lhe feriu mais do que qualquer espinho, foi ele o culpado de todo o resto, foi ele o algoz que lhe trancara nesta anti-vida, a falta dele lhe tirara o desejo de sorrir, o sonho de se encantar e de se entregar a paixão de viver tudo, a falta dele quis lhe arrastar pelo chão, sua ausência se tornou mais forte do que o desejo de encontrá-lo.

Ninguém conseguiu entender, ninguém consegui enxergar o quanto tudo doía, o tamanho do vazio e da distancia que se agigantou entre sua alma e sua vida, não se permitiu tocar por mais ninguém, como um bicho acuado afastou-se de tudo, desejando ser outra criatura, querendo não mais ter asas, enquanto quase que ironicamente todos desejavam apenas o seu retorno, queriam novamente sua força, seus sonhos cegos, sua fé inabalável naquilo que nunca existiu, ninguém desejara de verdade que seu sofrimento cessasse, desejavam somente que ela voltasse a voar, mostrando-lhes assim tudo o que suas enormes asas contemplavam.

Sentia-se prisioneira de seus dias, a noite lhe caia como alivio: tinha pressa para adormecer e vontade de não acordar.

Muitas foram as vezes que caminhou a passos lentos em direção ao abismo, inúmeras as chances de se deixar cair, pois se mantinha distante sua vontade de sentir vontade.

Ate este momento mesmo as palavras sempre tão amadas estiveram mudas, difícil tarefa traduzir situação tão triste, esforçava-se para ver, mas as lagrimas secas cegavam a beleza de seu olhar.

Questionou-se!

Todas as respostas a quais parecia ser dona, não tinham mais os mesmos fundamentos, precisava entender, descobrir a verdade, e a vida lhe trazia na bandeja apenas mais uma ilusão, teimando em sussurrar ao seu ouvido que tudo passaria, e que seu encanto era inabalável, ela lhe queria como fortaleza, como estrutura concreta para seus sonhos mais belos, e a cada passo sua busca pela verdade se tornava cada vez mais obsessiva.

A verdade lhe foi dada, se desfez da armadura de guerra que havia adquirido para lutar contra seu sentimento de ser feliz, livrou-se do desejo de não desejar, incumbindo ao tempo que lhe respondesse amanha as duvidas de ontem.

Diante da fé recuperada, do céu azul cheio de magia, da rosa vaidosa de encanto, do abraço protetor, do olhar que silenciosamente entende, das folhas secas que servem de barquinhos para as gotas de chuva, do ninho quente o qual sempre se é esperado de braços abertos, seu primeiro desejo foi o de cerrar os olhos, tomar o ar como laço, e levantar voou em busca de tudo aquilo que sempre esteve a sua espera, onde sua chegada é aguardada em festa por anjos que lhe saudarão.

D.S.L

Troquei, ousei, fui triste e feliz

Queria eu ter meia dúzia de palavras que dissessem como tudo foi incrível ate aqui.

Cada lagrima no caminho, cada riso esparramado pelo vento.

As luzes que se apagaram, as pessoas que disseram adeus, as que lamentaram depois a breve despedida que na verdade queria dizer nunca mais, as que eu eternamente irei chorar por terem ido embora.

Pedi perdão, e quantas outras vezes chorei.

Nunca me foi qualidade a arte da esperteza, eterna palhaça pareço de todos eles ter o nariz mais vermelho.

Coloquei o mundo de pernas pro ar, só pra admirar o horizonte de um novo ângulo.

Quantos olhares lançados ao infinito onde o tudo e o nada se misturaram, parecendo um só.

Tive medo, vontade de correr para a cama dos meus pais toda vez que a vida me tirou o sono, nessas noites pude perceber o quanto cresci, eu era grande demais para minha cama, e o colo que outrora me protegia de todos os monstros possíveis, não era mais capaz de afugentar problemas reais.

O por do sol, a cor dos olhos, o abraço, o cheiro, o gosto…

O mar, enfim primavera.

Tornei-me melodia.

Passarinho valente que usou o medo como escudo para encarar o vento forte.

Voei com asas molhadas, com raios quentes de sol.

Voei sempre mais alto, sempre mais forte.

Posei em tantos jardins, e tantas flores serviram-me de experimento, apurei o paladar, sabendo distinguir o que o tempo estragou, o que não foi conservado, aquilo que apodreceu, sem jamais saber separar o sonho daquilo que não há.

Sai do casulo, e retornei a ele todas as vezes que achei preciso, troquei de asas, de cores, de textura.

Troquei, ousei, fui triste, e feliz.

Mudei idéias, conceitos, provei a mim mesma estar errada, e provei ao resto do mundo estar certa, e sorri muitas tantas vezes tomando goles de solidão, tragando ilusões para que os pulmões continuassem a respirar, entorpecida de saudade, naufragada de amor, nervosa, tremula, blasé, perplexa, eternamente deslumbrada.

Fui amada, amante, acima de tudo mulher, sem qualquer sombra de duvidas livre – às vezes livre demais.

Fui “cedo”, noutras tardia pela covardia tão nossa que nos paralisa o agir, eu fui mais eu, e fui mais ainda todos os que amei.

Apaguei velas para não enxergar se estava no caminho certo ou errado, queria tão somente permanecer sem o peso de mais nada, sem a claridade para me mostrar aonde eu deveria ir, nessas horas eu só queria ficar.

Os anos, o relógio, o tempo…

Vasto e grande sejam os mistérios que me cercam, tentando aqui e ali decifrar sonhos, encontrar neles mensagens dos anjos, dos deuses, para esta pobre mortal que nada mais é do que um grande coração a pulsar no mundo, com eternos olhos de criança encantada.

D.S.L

Profissão: vendedora

Estou procurando por idéias novas, vendendo, doando e rasgando as antigas, como roupas de minha infância elas já não me servem mais, são bonitinhas, mas ficaram pequenas, como as idéias, os planos, os sonhos, eram todos lindos, mas então eu cresci ou foram eles que encolheram? Não sei ao certo, sei que não cabem mais em mim.

Também estão abertos testes para novos personagens, alguns já foram escalados, pois com louvor participaram de outras historias e por mérito continuarão nesses novos capítulos, estes souberam interpretar dramas, comedias, romances, são atores fundamentais, e não vou mentir: são os meus favoritos.

Estou abrindo caminhos, encontrei uma terra desconhecida sendo vendida por preço de “banana”, fui aconselhada a não comprar-la, pois o lugar é distante, nunca antes habitado, mas ponderei: seu solo é firme, próximo a uma nascente de água clara e virgem que também me pertence, será um desafio, mas já consegui germinar as primeiras sementes e girassóis começam a brotar, todos eles a procurarem à luz, algumas flores raras também gostaram da terra, tenho o privilegio de estar contemplando lírios, açucenas, orquídeas, e a cada nova rosa, a cada novo nascimento sou capaz de sentir o quanto aquela terra é abençoada.

Ainda na vida antiga, descobri que tudo esta organizado injustamente, vejam: trabalhamos em media cinco a seis dias por semana, contando com intervalos, durante quase dez horas dia, respondam: quanto tempo nos sobra pra viver? Nenhum. Trabalhar se transformou em nossas vidas, o único dia que temos para viver utilizamos na verdade para descansar. E todo o dinheiro que se ganha acaba sendo mal gasto, em contas que giram em torno do trabalho: o curso de inglês, de MBA, a pós de gestão em alguma coisa, o carro para ir trabalhar, a gasolina para ir trabalhar, a comida para agüentar trabalhar, o cabelo, a unha, a limpeza de pele para estar bem apresentável na empresa, e assim passar uma boa impressão pro chefe que relaxadamente acaba de chegar de sua terceira férias do ano, afinal de contas alguém estava trabalhando por ele.

E a sua vida? Quem esta vivendo?

Viver é ter tempo para as coisas que lhe dão prazer, quando essas coisas se tornam secundarias, é hora de parar e reavaliar o que esta errado, portanto ateei fogo em contratos, papeis, deixando de lado tudo o que é me secundário, decidi dormir ate o corpo descansar, não vou mais permitir que o despertador atrapalhe um sonho bom, tomo café na hora do almoço, almoço na hora do lanche da tarde, e passo as madrugadas a contemplar o céu, a jogar conversa fora, ouvir musica, dançar, mesmo que sozinha rodopio em volta de meu corpo, brinco com minhas crianças, abraço meus amados, cultivo o plantio de flores regadas pelo orvalho da noite, outro dia viajei para rever um amigo distante, sem tempo de partida e de chegada, tão somente motivada pela saudade de seu abraço.

Tornei-me dona de meu próprio tempo, do único tempo que tenho para viver.

Todo o dinheiro do qual necessito me é conquistado de palavras que rabisco para aqueles que ainda vivem correndo ao encontro de uma vida sem tempo, sem tempo para seus sentimentos, tornaram-se incapazes de parar para se dedicarem a tudo o que realmente tem valor; são eles que me alimentam, delegaram a mim a função de traduzir suas esperanças, perderam o olhar da beleza, do encanto, do mágico, não se permitem mais imaginar, por isso me compram palavras que lhe contam historias de seus sonhos perdidos.

D.S.L

Vocação

Ficaram cada vez mais lentos os seus passos, já não tinha mais pressa, desenvolvia a maestria de um mestre sala, e com a vida a lhe acompanhar feito porta bandeira, ele ainda brinca e tantas vezes sai de mãos dadas com ela parecendo bailar em festa, no ritmo que faz pulsar seu coração.

Viveu contando historias, cantando, sempre cercado de ouvintes atenciosos.

Abraço protetor, olhos adocicados pelo tempo, sempre soube que tudo passaria, por isso da vida quis levar bons amigos, momentos felizes, e o coração ate o ultimo instante carregado de amor.

Fechou os olhos pela ultima vez enquanto agitava nas mãos uma caixinha de fósforo da qual tirava um som.

Era o cara que transformava um simples assobiou em orquestra, bastava melodiar para que todos tivessem vontade de cantar, o mundo a seu lado parecia bem mais cheio de graça, acompanhava o samba com o bater de pés debaixo da mesa do bar, volto a repetir o mundo a seu lado parecia mais alegre.

Fazia dos botecos sua segunda morada, mas do colo de Tereza nunca se ausentava, dizia ir pra casa pra deitar a cabeça no colo da nega e assim sentir a paz do mundo inteiro dentro de seu peito.

Dizia não ter casa, dizia ter Tereza.

Deu estudo aos três filhos justificando que assim nenhum deles seguiria sua sina de ser eterno apaixonado por samba num botequim, de fato os três não deram pra “coisa”, e para que o samba do velho malandro não morresse por ali, o “esperto” tanto fez que conseguiu estragar os três netos, a menina já dançava em frente a bateria, o moleque rabiscava os primeiros versos os quais cabia ao avo compor a melodia, e ao outro deixou herança de um pouco de seu tudo, ensinou a paixão pelo samba, o amor pelas mulheres e a malandragem da vida, o garoto aos dezessete já sabia o que queria: ser sambista.

Era o malandro mais honesto da vila, por muitos brancos ao longo da vida, foi chamado de pai preto, sinal de respeito, gostava de ser chamado de preto, era como se lhe fizessem assim um carinho na alma, defendia a cor, dizendo que o preto era mais elegante, emagrecia e combinava com tudo.

Ernesto foi nome de batismo, todos o conheciam por Neco da Tereza, a nega que ele dizia ter toda a paz do mundo guardada em seu colo, desde que a conheceu, ou melhor a encontrou como ele mesmo gostava de frisar, passou a se declarar assim: de Tereza.

Nos últimos dias, parecendo adivinhar que o anjo branquinho que lhe acompanhava estava prestes a lhe buscar, organizou uma roda de samba, mandando chamar os bambas mais bambas, naquela noite, bebeu, cantou, fez graça e deixou na cabeça do neto mais velho o chapéu coco que mais gostava.

O menino ainda retrucou:

_ Vô teu chapéu!

_ Fica com ele moleque, vai te ajudar a guardar os teus melhores pensamentos.

Aquele frase encheu o menino de tristeza, mais tarde quis saber se o avo estava a sentir alguma dor, mas ele lhe pediu que parece com essas besteiras, afirmando que tudo era uma grande bobagem da cabeça de menino que ainda não sabia um terço das viagens da vida.

Em sua lapide foi escrito como ele desejará: Fui amado; Fui feliz, Eternamente de Tereza.

Vida como aquela demora muito a ter outra igual, homem honesto, genial, que de amor falava muito, o sentindo muito mais, fechou os olhos e foi-se embora tendo a certeza de que sua vida não foi em vão, pois veio ensinar a todos, com clareza a pratica do oficio de estar vivo, dizia ser essa sua única vocação: viver.

D.S.L