Vocação

Ficaram cada vez mais lentos os seus passos, já não tinha mais pressa, desenvolvia a maestria de um mestre sala, e com a vida a lhe acompanhar feito porta bandeira, ele ainda brinca e tantas vezes sai de mãos dadas com ela parecendo bailar em festa, no ritmo que faz pulsar seu coração.

Viveu contando historias, cantando, sempre cercado de ouvintes atenciosos.

Abraço protetor, olhos adocicados pelo tempo, sempre soube que tudo passaria, por isso da vida quis levar bons amigos, momentos felizes, e o coração ate o ultimo instante carregado de amor.

Fechou os olhos pela ultima vez enquanto agitava nas mãos uma caixinha de fósforo da qual tirava um som.

Era o cara que transformava um simples assobiou em orquestra, bastava melodiar para que todos tivessem vontade de cantar, o mundo a seu lado parecia bem mais cheio de graça, acompanhava o samba com o bater de pés debaixo da mesa do bar, volto a repetir o mundo a seu lado parecia mais alegre.

Fazia dos botecos sua segunda morada, mas do colo de Tereza nunca se ausentava, dizia ir pra casa pra deitar a cabeça no colo da nega e assim sentir a paz do mundo inteiro dentro de seu peito.

Dizia não ter casa, dizia ter Tereza.

Deu estudo aos três filhos justificando que assim nenhum deles seguiria sua sina de ser eterno apaixonado por samba num botequim, de fato os três não deram pra “coisa”, e para que o samba do velho malandro não morresse por ali, o “esperto” tanto fez que conseguiu estragar os três netos, a menina já dançava em frente a bateria, o moleque rabiscava os primeiros versos os quais cabia ao avo compor a melodia, e ao outro deixou herança de um pouco de seu tudo, ensinou a paixão pelo samba, o amor pelas mulheres e a malandragem da vida, o garoto aos dezessete já sabia o que queria: ser sambista.

Era o malandro mais honesto da vila, por muitos brancos ao longo da vida, foi chamado de pai preto, sinal de respeito, gostava de ser chamado de preto, era como se lhe fizessem assim um carinho na alma, defendia a cor, dizendo que o preto era mais elegante, emagrecia e combinava com tudo.

Ernesto foi nome de batismo, todos o conheciam por Neco da Tereza, a nega que ele dizia ter toda a paz do mundo guardada em seu colo, desde que a conheceu, ou melhor a encontrou como ele mesmo gostava de frisar, passou a se declarar assim: de Tereza.

Nos últimos dias, parecendo adivinhar que o anjo branquinho que lhe acompanhava estava prestes a lhe buscar, organizou uma roda de samba, mandando chamar os bambas mais bambas, naquela noite, bebeu, cantou, fez graça e deixou na cabeça do neto mais velho o chapéu coco que mais gostava.

O menino ainda retrucou:

_ Vô teu chapéu!

_ Fica com ele moleque, vai te ajudar a guardar os teus melhores pensamentos.

Aquele frase encheu o menino de tristeza, mais tarde quis saber se o avo estava a sentir alguma dor, mas ele lhe pediu que parece com essas besteiras, afirmando que tudo era uma grande bobagem da cabeça de menino que ainda não sabia um terço das viagens da vida.

Em sua lapide foi escrito como ele desejará: Fui amado; Fui feliz, Eternamente de Tereza.

Vida como aquela demora muito a ter outra igual, homem honesto, genial, que de amor falava muito, o sentindo muito mais, fechou os olhos e foi-se embora tendo a certeza de que sua vida não foi em vão, pois veio ensinar a todos, com clareza a pratica do oficio de estar vivo, dizia ser essa sua única vocação: viver.

D.S.L

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Autor: ela...

Elaine. Ela. Helena. 17. Setembro. Há alguns anos atrás. Ascendente em peixes. Brasil. Santista de nascimento. Baiana de descendência. Mineira de coração e endereço. Muitas e de muitos tamanhos. Letras, palavras, frases. Nossa Senhora Aparecida. Família. Música. Sol. Brisa. Luar. Prefiro mar. Branco. Tenho uma irmã mais nova. Minha maior paixão tem mais de 100 anos. Abraço. Meu pensamento é hiperativo. Tenho os melhores amigos. Cometo ao menos um erro todos os dias. Converso com Deus. Já mudei de emprego três vezes, já mudei de vida outras varias. Por do sol. Não faço nada sem dois ingredientes: paixão e entusiasmo. Primavera. Beijo. Horizonte. Esperança. Cinema, quadros, composições. Já machuquei quem não merecia. Olhar. Exagerada e sensível. Carente. Bagunceira. Transparente. Meu primeiro livro publicado e grande orgulho: Quando Florescem as Orquídeas. Tenho um blog e uma coluna semanal em um jornal do interior. No mais sou abençoada. Sei dizer apenas que tudo passa!E que eu sou bem feliz! D.S.L

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