Sensivelmente, meus olhos acompanham seus movimentos ainda por detrás das cortinas. A atmosfera, o ar, a realidade ganham outro sentido, outra forma, falar sobre esses instantes primeiros é um enigma de palavras, um labirinto indecifrável de sentimentos que se agigantam incontroláveis: choro, riso, brilho; meu coração se acende feito a explosão do nascimento de um novo planeta no universo, e tudo, todos os sonhos parecem tangíveis naquele instante único em que ela está prestes a aparecer. Não estou perdida, pois sei que cada palavra que em breve será cantada, proferida, irão se debruçar sobre os mistérios que não precisam de entendimento, desprendo-me da casca humana, mundana, real, por alguns minutos serei apenas ar, alma e espírito, estou entregue! E quando a casca humana precisar regressar, saberei, quando preciso, reencontrar esses momentos que se farão eternos.
Os ouvidos entram em uma espécie de transe, ensurdecidos a qualquer outro som que não seja o dela, de seus últimos passos antes do momento do voo no palco, da humana que em poucos minutos irá transmutar-se em encanto, fé, mata, mar, rio, amor, manifestação genuína do sagrado de Olorum.
O palco é sua terra, seu quintal, seu céu, o qual ela escolhe desenhar um vermelho brilhante e cintilante que aos poucos perante meus olhos recai feito chuva, raio, relâmpago, fogo e trovão. Anunciação; eis que surge a mulher vestida de pétalas brancas enfeitiçando o ar, ornamentada de maneira proposital para bailar com o vento; sacerdotal, batismal, como se naquela noite quisesse se fazer noiva de todos, cada um se casara com ela, cada um a seu modo terá o seu amor, seus sonhos, suas esperanças. Ela se posiciona nua, pronta, única, os primeiros movimentos de seu corpo são de um flutuar delicadíssimo, cuidadoso, ela nos toca com seu olhar profundo, saúda-nos com um sorriso menina, afaga-nos com o posicionamento de suas mãos, e segue nos decifrando com o caminhar ciente de sua entrega consentida.
O chão que recebe seus pés descalços parece estremecer por SETE MIL VEZES em apenas um segundo, enquanto ela transforma um poema de Clarice em prece de faíscas e súplicas: ouça-me com o corpo inteiro, seu OFÁ atinge meus sentidos respondendo a esse chamado, o brilho de meus olhos recaem por minha face, sorrio em luz, mãos tremulas, o som de sua voz passa a traduzir CANÇÕES E MOMENTOS em que a vida que é de tanta verdade que doí, com você fica apenas o essencial: o perfume da música, do sonho, da arte, do cantar o CHEIRO DE AMOR que a tudo dá sentido.
OLHA! Depois de ter você, DIZ QUE FUI POR AÍ, pelos MARES DE ESPANHA, guiada pela RAINHA DO MAR, pronta para me acender pelo LADO QUENTE DO SER, e ainda que me reste apenas uma GOTA DE SANGUE, sigo TOCANDO EM FRENTE, pois a cada passo ei de encontrar A FORÇA QUE NUNCA SECA, tendo o MAR E LUA.
Ò virgem dos meus pecados me dê absolvição, foi coisa feita, foi mandinga, foi maleita, SUSSUARANA meu coração não me engana, Maria, EU MAIS ELA, rezando a novena de Dona Canô, em busca da ROSA DOS VENTOS.
Obrigada menina dos olhos de OIÁ, que encantadoramente cumpri a linda missão de semear as PALAVRAS DE RITA.
Obrigada por enfeitar o mundo com sua arte, com seu ser, com suas flores, ventos, sonhos e amores, que ao primeiro entoar de CARCARÁ pega, mata e come todo o mal do mundo.
D.S.L.A








