Âmbar

Sensivelmente, meus olhos acompanham seus movimentos ainda por detrás das cortinas. A atmosfera, o ar, a realidade ganham outro sentido, outra forma, falar sobre esses instantes primeiros é um enigma de palavras, um labirinto indecifrável de sentimentos que se agigantam incontroláveis: choro, riso, brilho; meu coração se acende feito a explosão do nascimento de um novo planeta no universo, e tudo, todos os sonhos parecem tangíveis naquele instante único em que ela está prestes a aparecer. Não estou perdida, pois sei que cada palavra que em breve será cantada, proferida, irão se debruçar sobre os mistérios que não precisam de entendimento, desprendo-me da casca humana, mundana, real, por alguns minutos serei apenas ar, alma e espírito, estou entregue! E quando a casca humana precisar regressar, saberei, quando preciso, reencontrar esses momentos que se farão eternos.

Os ouvidos entram em uma espécie de transe, ensurdecidos a qualquer outro som que não seja o dela, de seus últimos passos antes do momento do voo no palco, da humana que em poucos minutos irá transmutar-se em encanto, fé, mata, mar, rio, amor, manifestação genuína do sagrado de Olorum.

O palco é sua terra, seu quintal, seu céu, o qual ela escolhe desenhar um vermelho brilhante e cintilante que aos poucos perante meus olhos recai feito chuva, raio, relâmpago, fogo e trovão. Anunciação; eis que surge a mulher vestida de pétalas brancas enfeitiçando o ar, ornamentada de maneira proposital para bailar com o vento; sacerdotal, batismal, como se naquela noite quisesse se fazer noiva de todos, cada um se casara com ela, cada um a seu modo terá o seu amor, seus sonhos, suas esperanças. Ela se posiciona nua, pronta, única, os primeiros movimentos de seu corpo são de um flutuar delicadíssimo, cuidadoso, ela nos toca com seu olhar profundo, saúda-nos com um sorriso menina, afaga-nos com o posicionamento de suas mãos, e segue nos decifrando com o caminhar ciente de sua entrega consentida.

O chão que recebe seus pés descalços parece estremecer por SETE MIL VEZES em apenas um segundo, enquanto ela transforma um poema de Clarice em prece de faíscas e súplicas: ouça-me com o corpo inteiro, seu OFÁ atinge meus sentidos respondendo a esse chamado, o brilho de meus olhos recaem por minha face, sorrio em luz, mãos tremulas, o som de sua voz passa a traduzir CANÇÕES E MOMENTOS em que a vida que é de tanta verdade que doí, com você fica apenas o essencial: o perfume da música, do sonho, da arte, do cantar o CHEIRO DE AMOR que a tudo dá sentido.

OLHA! Depois de ter você, DIZ QUE FUI POR AÍ, pelos MARES DE ESPANHA, guiada pela RAINHA DO MAR, pronta para me acender pelo LADO QUENTE DO SER, e ainda que me reste apenas uma GOTA DE SANGUE, sigo TOCANDO EM FRENTE, pois a cada passo ei de encontrar A FORÇA QUE NUNCA SECA, tendo o MAR E LUA.

Ò virgem dos meus pecados me dê absolvição, foi coisa feita, foi mandinga, foi maleita, SUSSUARANA meu coração não me engana, Maria, EU MAIS ELA, rezando a novena de Dona Canô, em busca da ROSA DOS VENTOS.

Obrigada menina dos olhos de OIÁ, que encantadoramente cumpri a linda missão de semear as PALAVRAS DE RITA.

Obrigada por enfeitar o mundo com sua arte, com seu ser, com suas flores, ventos, sonhos e amores, que ao primeiro entoar de CARCARÁ pega, mata e come todo o mal do mundo.

 D.S.L.A

A Ilha não é só grande, é infinita.

“É necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não saímos de nós.” José Saramago está certíssimo, mas estar em Ilha Grande e por ela ser tocada é uma travessia necessária.

Após cruzar o velho píer, tudo fica longe: títulos, diplomas, carreira. Estar na Ilha é voltar a ser fagulha de brisa, libertando a pele de tanta casca, é permitido abandonar os escudos tão utilizados para sobreviver, assinando um único decreto: viva! Pensamento solto, incendiado por toda sua luz inspiradora, criadora e genuína, abraçando a beleza. Reencontrando todos os encantos roubados pelos grandes centros, na cidade sempre apressada; estar na Ilha é voltar para dentro.

Sair do continente, e abandonar a aflição por um amanhã que não se pertence, da vida guiada pelo relógio, pelo acelerar de tudo, de tantas urgências, ingressar em uma realidade silenciosa que permite um mergulho necessário de profundidade em si, o qual se torna cada vez mais raro, pois tudo está conectado, mas isso também tem sido uma porta de fuga para amenizar sentimentos.

Estar na Ilha, é aniquilar os ruídos do mundo, sem trânsito, sem pressa, sem sirene assustadora, permitindo aos pés caminharem sem sapatos tão apertados por suas ruelas e vilas, as mãos sem tantas obrigações, as costas desarmadas, livre do peso dos dias, largar o cansaço rotineiro de uma vida que parece exigir respostas e produtividade a todo instante; despir-se do uniforme diário que de tão usado cotidianamente dá a sensação de ser uma segunda pele. Despertar com a luz da manhã que se lança pela janela através da cortina desejando bom dia, um sutil convite para ver o mar, para sentir o cheiro úmido da mata, para ouvir os próprios passos, um de cada vez, que caminham devagar em busca de cada vez mais beleza.

A Ilha não é só grande, é infinita.

D.S.L.A.

Uma noite de delírios tão reais.

Diante da realidade, uma nesga de doçura toca a vida, os olhos ardentes e secos por uma fumaça toxica e gananciosa que tristemente acinzenta os céus do país, deram lugar ao brilho, ao encantamento, enfeitiçados por uma magia que merece ser recordada.

O deslumbramento pela menina de Oyá, ascendente do bendito ventre de Dona Canô, o qual deu abrigo ao também menino ateu que crê mais que muito temente, pedindo que Deus o cuide; por toda vida mãos sempre entrelaçadas com sua Maria Bethânia, não aquela dona do engenho, longe disso, mas a Maria que sonhava em ser trapezista ao brincar com o irmão mais velho de faquir deitados sobre as árvores da cidade de Santo Amaro, protegida por Nossa Senhora da Purificação.

Em meio a tantas lembranças daquela noite, não uma, mas várias canções me consolam, afinal com alegria, alegria, eu vou amor, amar, por que não? Em um explode coração que motiva o brincar de viver, visto-me de artista ao sorrir todas às vezes que essa vida de tanta luta e mazelas diz não.

Caetano entoa a canção sozinho, acompanhado em uníssono por milhares de vozes que se curvam quase que em oração a sua voz e violão, o homem dá lugar a um menino de olhos encantados pelas luzes acesas, com toda certeza sua paixão pela vida, pela arte, por essa gente, brilha no céu de uma cidade que ele mesmo renomeia de belíssimo horizonte.

Como um objeto não identificado, sou arremessada no espaço sideral, e de lá, do alto, bem do alto ouço de um Caetano futurista, quase profético, que um índio descera de uma estrela colorida, brilhante, e revelara a verdade, o obvio.

Olhos permanentemente emocionados desejam que o tempo, esse senhor tão bonito, um dos deuses mais lindos, quando me for propicio recarregue meu espírito com um brilho que seja sempre definido pela fé para quem é forte, para quem é foda, a fé que enfrenta tantos filhos da puta, pois meu sonho é viver em um reconvexo de amor, arte e de gente feita para brilhar ao invés de morrer de fome, pois só assim tudo será joia rara, Odara.  

Aos filhos de Dona Canô minha reverência, em um suave estado de flutuação.

Obrigada por tornarem delírios tão reais.

D.S.L.A

Segue!

Continuo gostando de poesia, dizem que permanecer embelezando a vida com palavras que sonham é cada vez mais raro depois de alguns anos, mas para não embrutecer tento limpar a poeira do tempo com tudo e todas as forças a fim de manter o peito aberto, ao vento, pronto. Endurecer o coração não é o meu papel, ainda que os dias tentem engaiolar o encanto, as asas da fé se agigantam derrotando tristezas, culpas, permito-me sonhar, e às vezes é o que basta: o sonho, genuíno e inocente!
O amor continua sendo o protagonista de minha vida, de minha história, eis a minha bandeira, e escudo contra o caos.
Caminhando sob a luz do amanhecer, às vezes entrego a algum anjo desavisado uma lágrima, entrego-me, acho medonha a ditadura da realidade decretar que o choro é fraqueza.
Permaneço fiel à luz tão efêmera dos finais de tarde, a qual embala a chegada das estrelas em um ciclo diário de esperança, as Três Marias cantam: confia, afinal, tudo é tão incerto.
Diante de qualquer pequena sombra de tristeza ou dor, mantenho firme a lembrança do mar, resgato seu cheiro, sua melodia, sua peculiar mistura de calma e força, e nessa espécie de toada tudo passa. Quando ao longe percebo a ameaça da desesperança, a criança à beira-mar desperta, apressa-se, corre pela areia, engole as escadas da torre com seus passos ligeiros e reacende o farol, a luz alcança minha embarcação, incendeia meus olhos, a criança acena, dança e com as mãos pequenas indica a direção enquanto grita à beira-mar:
– Segue em frente! Continua! Vai! Segue, que o porto logo chega, mesmo que você ainda não o veja, meu coração criança sente o quanto ele está perto, você também sente, só está com medo.
– Segue em frente!
D.S.L.A

Para que o amor continue sendo possível.

Tenho evitado as tais “certezas”, não por descrença, mas por decreto dos dias o tempo as apagou de minha história com sua impiedosa borracha de realidade. Tenho evitado certezas, dando lugar ao diálogo sábio com as conclusões, e uma delas em especial tem me libertado: errei com todas as pessoas que conheci, cresci.

Não há exceções: errei com todas as pessoas que fizeram parte da minha vida, todas! Com cada uma, de uma forma diferente, em vários momentos, ou em um único, e o que me causa espanto é que meu sentimento para com a grande maioria delas é amor, portanto, de maneira ainda mais libertadora corrijo-me afirmando que errei com absolutamente todas as pessoas que amei, diante disso, enfim a liberdade da culpa, do medo, do remorso, da dúvida, diante disso adormeço tranquila, liberta, pois todas as pessoas que conheci, e que espantosamente me devotaram amor, também erraram comigo, machucaram-me duramente com palavras, atitudes, abandonos, desvalores, desimportâncias, todas, seja por frustradas expectativas, seja por desconhecimento no manuseio do sentimento, não importa; eis o grande fato de sermos humanos, falhos, que minha consciência e coração remoeram durante tanto tempo, buscando porquês, acreditando que diante do amor teríamos que ser sábios a qualquer custo, mas o amor é uma grande loucura, e para se achar sabedoria na loucura é preciso tempo, mãos calejadas, olhos marejados, coração cicatrizado, costurado, refeito, curado, e hoje liberto.

Perante o que parece uma conclusão triste e cruel, liberto-me, perdoo-me e sigo para que limpa de qualquer dor, e destituída de toda mascara, o amor continue sendo possível.

Se te amei, ou te amo, então te feri ou te machucarei, claramente uma proposição matemática, de raciocínio logico entendo apenas o necessário, da vida, do amor, talvez nem isso, nem mesmo o necessário, mas tenho tentando colher menos aprendizado e mais sentimento, pois sentir é distante de qualquer logica perfeita, completa, finda. Errei com absolutamente todas as pessoas que amei, e algumas delas, tal qual a mim, não souberam voltar, a outros fechei a porta para irem embora, ainda assim, libertos, em algum lugar do tempo que conta nossa história, eu os amei, fui amada, e isso é maior que tudo, é infinito. Outro dia ouvi que o infinito é mais uma pobreza da palavra humana, a qual é incapaz de traduzir a magnitude de qualquer sentimento.

D.S.L.A

Travessia

O que sei é quase nada, pouco, pouquíssimo, coisa rasinha, feito poça em calçada formada por chuva brava de verão, agua que logo evapora, tornando-se frágil após ter sido tempestade… As certezas que tive, ou que acreditei possuir foram todas embora, dolorosos adeuses que se despendem em uma espécie de raios luminosos de sabedoria e fé.

Meus cabelos, há algum tempo decretaram nascer brancos, fluem na fiel saga sagrada ordenada pelo rei tempo, não o temo, pois mutuamente nos respeitamos, ainda que em prece o peço que passe sem pressa, que me permita brincar e viver, e amar, e sonhar. Em oração peço que seja leve, enquanto me curvo as marcas que surgem por sua ordem natural e humana, estou morrendo diariamente, mas isso não me soa triste, pois a reza sussurra que não termina aqui, vida grande, enorme, incrível; o tempo me parece sorrir, dando-me amparo, fazendo-me crer que esta minha oração será atendida, pois ele pertence à sabedoria e o amor de um Deus.

Da vida, ah essa amiga louca, desvairada, que encanta, desespera, que passa gargalhando e sussurrando a cada novo dia que não sei nada. Sobre ela: mistério, magia, mesclados ao silêncio do amanhã, do tempo que abraça o instante presente. Às vezes, essa amiga louca me acalenta, noutras com toda força e crueldade estapeia-me ao chão, cuspindo, chutando, berrando minha ingratidão, apagando as luzes, pois por muitas vezes eu mesmo me lanço na escuridão, nos labirintos de meus pensamentos que ferem feito espinho, ela me deixa ali, e só me estende a mão quando recobro a consciência perdida por ilusões que alimento feito criança birrenta. Ao me redescobrir, ela me abraça, e juntas voltamos a iluminar os dias, a enfeitá-los, e então ela me confidencia seu grande segredo: um dia, minha criança, todos os sinais estarão verdes, todos os caminhos estarão abertos, não haverá dúvidas nas encruzilhadas, pois todas as estradas serão bonitas, basta esperar o momento certo para atravessar, meu grande mistério é aguardar a travessia.

D.S.L.A 

Impondo cinza a cor de tantas flores

Encerram-se ciclos na terapia, no cinema, no bar, na igreja, em uma viagem… em um terreiro pedindo amarração e quando sério, quando amor, da entidade ouvir: segue em frente meu fio, amarração de amor como diz a música é mão dada, amor é liberdade!

Há quem recuse encerrar um ciclo, não admitindo a si e ao mundo que não deu… (As portas dos quartéis estão ai para provar isso!) Optam por não aceitar e então seguem a vertente da vingança, da imposição, da morte, da dor… “Ou fica comigo ou não fica com ninguém”. Não te permito viver se não for a meu lado… Eu escrevo… Sempre assim, desse jeitinho assim… Eu escrevo… Nem sempre de maneira doce, mas sempre de forma verdadeira, dando a mim o ponto final em uma escuta silenciosa que grita e chora.

Não seria diferente com você, principalmente com você, que tanta importância conquistou a cada dia, em dias tão difíceis e cruéis…

Despedir-me de ti dói, não é tarefa fácil, é dizer adeus querendo ficar, tendo que asfixiar um bem querer bonito, impondo cinza a cor de tantas flores.

Todos os dias que estive a teu lado me preparei para assistir a tua partida. Esse adeus, foi anunciado desde o dia em que você chegou, um mantra diário: é por um tempo, será somente por um tempo; e quando o tempo se esgotasse seria assim: esse vazio de dias, a falta da partilha, os olhos sensíveis a cada lembrança tua. Meu sorriso era mais alegre quando você coloria meu mundo com teu jeito exatas que se permitiu viver em poesia… Ainda que tudo em mim gritasse para te fazer ficar, ainda que você tenha esse jeito tão Zélia Gattai… Eu sabia que não iria conseguir conquistar a tua mão entrelaçada a minha em mais de uma primavera. Só o amor? Não é tão simples assim, e sentir nunca te bastou em um mundo cheio de coisas e gente as quais você precisa satisfazer. Eu, porta sempre aberta, sem rumo, com teto feito do azul do céu e garantia de pés descalços que tocam a terra, com sede de mar, de rio, de mato, de Bahia, deambulando em poesia, eu com água de chuva para curar e vela acesa para garantir, você precisando de casa, de filho, de véu e grinalda, de Paris, eu só tendo amor para oferecer… Eu só tendo amor para dar e umas palavras rabiscadas, e muito abraço, e tanta ternura, sem vergonha de amar, sem medo, sem contas a prestar para um mundo doente!

Você deve um nome a sociedade, eu mal tenho um sobrenome, e o que carrego só alimenta a fé, eu nasci de Jesus com muito orgulho! Você nasceu para tantas besteiras bestas de gente que se acha tanta coisa e raramente se encontra. Para você é preciso provar ao outro, a mim poucos importam.

Quis te falar de amor, do meu amor, dos olhos que esperaram por tanto tempo o vislumbre dos teus encantos, mesmo sem poder, ciente de que a vida não me daria tal permissão, confesso ter sonhado com você o sonho persistente de um banquinho de azulejos, mas não sou eu o teu sonho…

Você me tomou, o meu amor foi tão teu, e seria por todo tempo, para sempre, ainda que soe estranho e improvável, eu seria tua, por teus olhos, por teus lábios, pela tua doçura, pelo teu cheiro, pela tua história, eu seria tua…

Ficam nessas linhas, nessas palavras, nas lagrimas teimosas o que poderíamos ter sido, encerro aqui a nossa história que tem um fim feliz, o qual não fomos felizes para sempre, mas seremos felizes… À teu lado compreendi a tocar sem estar presente, a sentir distante, a ser saudade todos os dias… Queria ter visto os teus olhos mais de perto, ter tido teu abraço mais abraço, ter você, queria ter sido mais nós, mas não pode ser… Não pode ser… E tudo bem! A vida e seus porquês também tendem de criar hiatos.

Quero te falar que eu sei, que entendo, eu sei e você aprendeu a saber… A amar!

Seguirei por aqui, tomando cerveja em um bar, saindo para fumar na porta, em pé, como quem espera alguém chegar. Eu continuo! E qualquer dia desses esse alguém que tanto espero me convidara para dançar, e é uma pena que esse alguém não seja você.

Obrigada por tudo e por tanto! Sejamos felizes!

 D.S.L

O ventre do samba é uma mulher

Samba tem axé, tem amém, tem fé.

Cerveja gelada, saia rodada, esse samba tem jeito de mulher.

Há quem diga que ele começa na cozinha, mas nas mãos de uma mulher tudo vai além, porquê mulher é trem que não tem limite, que não desgoverna, pois, mulher sabe aonde vai, sabe o que quer.

Samba quando vem de mulher, traz magia, vem com feitiço, mulher segura o cavaco feito filho, bate pandeiro com carinho, na viola dedos doutorados em fazer cafuné, toca atabaque feito a melodia de passos certeiros de quem sabe aonde quer chegar. Puxa o samba com mais força, ela sabe o que canta, sabe onde dói, conhece a saudade que sente, faz chamamento de amor, mulher quando canta samba, não canta, benze.

Vai para o samba mulher!

Pousa as mãos nas cadeiras, faceira, delira o povo com teu riso, hipnotiza o tempo com teu bailar, brinca com a vida mulher, faz o mundo girar. Balança as cadeiras parindo tua alegria, tua orgia, teu desejo, teu jeito mulher!

Vai mulher! Canta do entardecer de Oyá até o alvorecer da Rainha do mar!

Vai sambar, vai tocar, vai cantar na areia, na praça cheia, na mesa de bar, na rua estreita. Roda tua saia mulher, pois é na tua cadencia que tudo gira, o mundo inteiro nasceu do teu ventre, e o samba te pertence.

Vai mulher! Vai ser samba, vai ser bamba, poeta, vai ser mulher, você já nasceu o que quiser. Teu samba segurou o sofrimento de todo um povo, da nossa gente que hoje encantado em luz ilumina a liberdade. Foi tu mulher que dançou ao som do tambor naquele terreiro, umbigo do mundo, levantando poeira para afastar a dor de quando tu ainda tinhas senhor. Toma a tua coroa e se faz senhora rainha, menina, mulher da melodia, da harmonia, da vida, canta teu samba, canta para tua gente! Canta! Canta! Canta!

D.S.L

Enquanto…

Enquanto…

 

Enquanto te espero tanta coisa no mundo muda. Será que você abriu o jornal hoje? Teve um bom dia? Viajou nesse último feriado, ou aproveitou o frio dentro de um moletom com um livro fazendo companhia. 

A vida lá fora acelera, alguns dias são montanha russa, outros tarde em parque com direito a algodão doce, banco de praça, tempo que sobra, e que cobra mais vida enquanto disfarço; enquanto desacelero. 

Enquanto te espero ouço uma nova música, tento escrever mais a mão, com lápis, pincel, caneta, quero ter letra bonita para as futuras palavras que irão enfeitar as cartas que entregarei a você, não tem preocupação com resposta, já te esperei demais, bastara o silencio dos seus olhos mesclado ao encanto de teu sorriso como ponto final, será essa minha recompensa, meu fim, e começo de toda nova poesia ao sentir no teu abraço o quanto tens de cuidado, emoção e gratidão com essa nossa partilha a qual levou tanto tempo para acontecer. 

Enquanto te espero o mundo é turvo, cheio de muita notícia ruim e pouco abraço para se esconder, o caos é cada vez mais assombroso, o caos da gente, de dentro das pessoas, corações aflitos, muita ânsia por coisa nenhuma, ou pelo que não vale tanto; pouca coisa bonita para nos enfeitar o riso, muita lagrima, muito frio, sobra vaidade, transbordam egos, naufrágios diários dissimulam sentimentos, machucam, muita razão sem compreensão, tanta invenção e tão pouca cura, tanta foto muda, sozinha, sem história, café da manhã sem bom dia, noite de lua sem encanto, sem aconchego ou acalanto, sem nenhuma poesia, pois o medo tornou-se uma companhia mais agradável do que o risco, o mundo esse caos gigante, repleto de gente andante que ainda não encontrou o seu lugar. 

Enquanto te espero coleciono chaveiros, retardo o despertador em mais dez minutos, termino a leitura de mais um livro, passeio com o cachorro, almoço com um amigo, lembro que preciso marcar oftalmologista, termino o tratamento com o dentista, rabisco mais uma rolha de uma garrafa de vinho que ficou vazia enquanto te espero. 

Não me economizo, faço rimas, vou a Bahia, a serra, ao campo, tento juntar palavras para que tudo faça mais sentido, discuto política, abraço, choro no cinema, tento tocar violão, ensaio uma canção (ainda não consegui, falta-me tempo e ritmo).

Enquanto te espero acordo mais cedo, encaro a manha fria sem medo para assistir o nascer do sol: grande, imponente, luminoso, deslumbrante, anunciando mais um dia enquanto te espero. 

 

 D.S.L 

 

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Quem é essa gente?

Outubro do ano de dois mil e dezoito, inevitavelmente precisamos voltar a esse passado recente para entender tudo que está acontecendo agora; sem exageros, enquanto digito essas palavras podemos estar sofrendo um golpe de estado, uma intervenção militar, prisões políticas, fechamento do Supremo, fogo no Senado. Estamos avisados! Parafraseando o mestre Tom Jobim “esse pais não é para principiantes”. O Brasil elegia democraticamente um novo governante, democraticamente, democraticamente, democraticamente.

O cenário político apresentava novidades incertas, obscuras, não debatidas. O ainda candidato claramente se auto impedia de debater com opositores, quando lhe convinha a ser entrevistado conclamava em alto e bom som: não entendo de economia, nem de planejamento, mas “irei resolver isso ai talkei?!”, utilizou como escudo o kit gay, a mamadeira de piroca (parece piada), encantou serpentes com a possibilidade de armar uma sociedade injusta e violenta, abriu a porta de armários machistas, fascistas, nazistas o mal era convidado a entrar e fazer sua festa, viajamos incrédulos pelos porões da ditadura, exaltação da barbárie, da tortura, do sangue, uma campanha embasada por notícias falsas, falsa ideia de combate a corrupção, falso novo rumo econômico, falso! Uma grande mentira, um grande circo com direito a toda baixeza humana, uma campanha imoral, fomentada por um desejo contido de ódio, preconceito, ganancia e poder.

O slogan soa claramente sem mascaras nos tempos de agora: Poder acima de tudo e de todos. A obscuridade iniciava sua trajetória a partir daquele outubro.

A terra esta em movimento, uma ameaça contra a vida nos assola a meses, o mundo parou, a vida parou, a economia parou, estamos adoecidos, fragilizados, amedrontados, e todo esse processo talvez esteja ocorrendo para refletirmos com mais humanidade, empatia, cuidado, igualdade, valorizando de fato e de uma vez por todas o tempo, a vida e a grande nação terra. Diante dessa lição universal que testemunhamos, lhes pergunto quem é essa gente que protesta empenhando tochas, vestindo mascaras, tomando leite em referência a uma supremacia branca. Quem é essa gente que covardemente mata, surda, apática e inerte pressionando um ser humano como quem pisoteia um inseto insignificante. Quem é essa gente que protesta contra a democracia? Quem é essa gente que diminui a vida alheia por cor, raça, religião, amor, quem é essa gente que exalta o nazismo reproduzindo símbolos, falas, ideais?

Quem é essa gente que desafia a ciência, que cultua um senhor ridículo, intectualmente desprovido de argumentação, de humanidade, caráter dubio, baixa hombridade, imaturo, despreparado, cavalgando sobre ideias fantasmagóricas de poder, autoritarismo e sangue, sangue preto, sangue gay, sangue inocente, sangue de mulher E DAÍ? Sangue de uma nação que lavou as mãos em outubro de dois e dezoito e agora mal pode respirar estarrecido, enojado, incrédulo a toda podridão irracional e desumana a qual estamos assistindo dentro de casa completamente assustados.

Quem é essa gente?

Não os intitule malucos, ignorantes, essa gente é fascista, nazista e trabalha para disseminar suas sombras, semeando o mal. Essa gente é ruim.

D.S.L

 

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