O jantar

Desde o meu aniversario não saiamos pra jantar, portanto já havia se passado uns quatro meses.

Às vezes aos domingos comíamos fora, mas nada de especial, era mais preguiça de ir para a cozinha, e como ele me ajudava com a louça… Era sempre mais cômodo não comer em casa.

Naquela tarde de quarta feira ele me ligou no intervalo de uma aula, me convidando pra jantar, perguntei se era alguma data especial que eu havia esquecido, e sorrindo ele me disse que não, que queria sair, conversar, espairecer um pouco.

Resolvi não dar a minha ultima aula, passei no salão e mesmo de ultima hora, minha cabeleireira me salvou, fazendo uma escova rápida e uma maquilagem suave.

Radiante com o convite a caminho de casa dentro do carro ouvi as musicas que sempre lembraram nos dois, passei no supermercado, comprei um champanhe, após chegarmos do jantar achei que seria uma boa surpresa, aumentando assim a atmosfera de romance que aquele convite havia avivado em mim.

Estávamos casados a dez anos, juntos a quase quatorze, sempre senti falta daquele romantismo do inicio, da paixão encantadora, mas eu sabia que era normal não ouvir eu te amo todos os dias, ou receber flores independente de datas. Jantares e viagens iam ficando de lado, era preciso pagar o apartamento, luz, água, compras, planejávamos assim que conquistássemos mais estabilidade termos um bebe, desde o primeiro momento em que o conheci senti que ele seria meu maior amor, meu melhor amigo, o pai dos filhos que eu queria ter, queria tê-lo como companheiro de toda uma minha vida.

Enquanto ele tomou banho, terminei de me arrumar. Saindo ainda de toalha, ele me elogiou dizendo o quanto eu estava bonita, pediu ainda que eu não me esquecesse da minha importância em sua vida.

Confesso que aquela frase de certa forma me assustou, indaguei porque ele estava dizendo aquilo, ele sorriu com os olhos rasos d’água, beijou minha testa e disse apenas que eu não esquecesse.

Já no carro, conversamos coisas vãs, rimos de algumas outras, ele me pareceu sereno, atencioso, parecia fazer questão de ouvir ao invés de falar, quando falava sua voz inspirava uma doçura gentil e encantadora, por alguns minutos parados no sinal ele ficou a me observar, perguntei o que estava acontecendo e passando a mão no meu rosto, pediu que eu não me preocupasse.

Ele me levou em meu restaurante favorito, comemos, conversamos, tomamos vinho, em alguns momentos ele tocou minha mão, olhava-me de uma forma que naquele instante pra mim era indecifrável, não eram olhos de amor, mas de uma espécie de saudade.

Ao pedir a sobremesa, não resistindo mais aquela espécie de mistério e romantismo, comecei a indagá-lo sobre a real razão daquela noite.

_ Quero me separar!

Foi tudo o que ele disse.

Sorri não acreditando naquelas palavras. Como assim se separar? Ninguém pedi o divorcio levando a esposa em seu restaurante favorito, cercando todo o momento de romance.

Não!

Casamentos terminam com gritos, choros, acusações, não deveria ser daquela forma.

O silencio que aquelas palavras fizeram, abriram um buraco dentro da minha cabeça, uma espécie de espasmo cerebral, instantaneamente meus olhos não puderam segurar as lagrimas. Ele pediu que eu tivesse calma.

A surpresa foi tão grande que não tive coragem de perguntar os porquês daquele comunicado, pois em momento algum ele me pediu o divorcio, ele me comunicou que estava se separando.

Deixando-me na porta do apartamento ele me disse que dormiria em um hotel, e que em dois dias buscaria as coisas dele.

Ao chegar em casa, e me perceber sozinha, sem a voz dele me pedindo para acender a luz, ou fechar as janelas, senti que não era um pesadelo, tão somente um momento, ele não iria voltar, sei disso pelo tanto que eu o conhecia.

Não dormi aquela noite, não liguei pra ninguém para perguntar coisa alguma, ou desabafar, não tive atitudes tão comuns àquelas que se separam, não quebrei nada dentro de casa, não rasguei as roupas dele, não quis me envenenar bebendo seu frasco de perfume, nem telefonar para ele suplicando uma conversa que explicasse aquilo tudo, pois lá no fundo eu sabia que o amor havia acabado, eu só não sabia o quanto o meu amor por ele ainda era imenso.

Fui até a escola, mas não tive condições de dar aula. Não parei de chorar por uma semana, quando comecei a me sentir mais forte, fui intimada a comparecer em juízo, e diante desse novo estagio, voltei a me sentir fraca, a sofrer tudo outra vez.

No divorcio ele não quis nada, mesmo todas as nossas coisas tendo sido compradas com o esforço mutuo.

Eu não sabia sentir raiva dele, não sabia afinal o que sentir, pois não havia sido por traição, foi mesmo só o amor que havia acabado, e apesar dos muitos amigos em comum que havíamos conquistados em todos aqueles anos, não o vi durante quase seis meses, foi quando o encontrei uma noite no supermercado. Cumprimentamo-nos, e conversamos coisas sem importância, quando nos despedimos e ele se afastou, caminhei pouco mais de dezessete passos e o chamei de volta para única pergunta.

_ Por quê?

Ele respondeu com os olhos secos:

_ Eu precisava ficar sozinho!

D.S.L

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Autor: ela...

Elaine. Ela. Helena. 17. Setembro. Há alguns anos atrás. Ascendente em peixes. Brasil. Santista de nascimento. Baiana de descendência. Mineira de coração e endereço. Muitas e de muitos tamanhos. Letras, palavras, frases. Nossa Senhora Aparecida. Família. Música. Sol. Brisa. Luar. Prefiro mar. Branco. Tenho uma irmã mais nova. Minha maior paixão tem mais de 100 anos. Abraço. Meu pensamento é hiperativo. Tenho os melhores amigos. Cometo ao menos um erro todos os dias. Converso com Deus. Já mudei de emprego três vezes, já mudei de vida outras varias. Por do sol. Não faço nada sem dois ingredientes: paixão e entusiasmo. Primavera. Beijo. Horizonte. Esperança. Cinema, quadros, composições. Já machuquei quem não merecia. Olhar. Exagerada e sensível. Carente. Bagunceira. Transparente. Meu primeiro livro publicado e grande orgulho: Quando Florescem as Orquídeas. Tenho um blog e uma coluna semanal em um jornal do interior. No mais sou abençoada. Sei dizer apenas que tudo passa!E que eu sou bem feliz! D.S.L

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