A felicidade não envelhece

Casou aos vinte um anos, naquela época moça era pra casar, o futuro esposo era filho de um velho conhecido da família, o que facilitou as coisas, pois se conheciam desde a meninice.

Linda, com olhos cor de mar que faziam qualquer um querer naufragar naquele oceano de mistério. Certo dia passeava pela praça da cidade, o rapaz a viu e se interessou, ela mal se lembrava dele, se encontram poucas vezes em aniversários e outras festas de família, logo os pais trataram de marcar um jantar e aproximar os jovens.

Com a educação que tivera aceitou ser cortejada por ele, e em menos de um ano ela se viu no altar ao lado de um rapaz tímido, de pouca conversa e dono de um respeito que ela muitas vezes desconhecia o sentido de ser, o beijo no altar lhe foi dado na testa.

Uniu-se a ele sem a emoção da paixão, do amor, pois desconhecia tais sentimentos, via em seu esposo um companheiro e amigo, com quem sentava-se na varanda a observar as tardes passar, vez ou outra ele colocava um disco na vitrola, porem nunca lhe sussurrou um refrão se quer ao ouvido, nem mesmo se arriscou a tira-la pra dançar, ou coisas do tipo que ela ouvira dizer que os amantes faziam.

Viviam uma vida tranqüila, sem grandes emoções, a maior e talvez única delas, foi aos três anos de casados quando tiveram uma filha, que cresceu e diferentemente de seus pais quis conhecer o mundo. Pertencia uma paixão pela vida e pelos sentimentos que surpreendia a todos e contagiava a qualquer um a seu lado, a mãe compreendia e sorria timidamente reconhecendo que a filha pintaria sua vida com cores mais alegres e vibrantes, pois sentiria paixão, conheceria o amor, experimentaria emoções fortes e intensas, ficava encantada ao ver a menina cantando pela casa, dançando como quem flutua em nuvens, sorrindo por tudo, sem pressa, como se a vida lhe fizesse cócegas a todo instante.

Sempre que olhava para filha pensava: ela será mais feliz, pois saberá o que é ser feliz, conhecera de tudo e terá vastas escolhas, como se pensasse sobre si mesma, chegando a conclusão de que a vida não lhe deu muitas chances para um outro caminho.

Imaginava que sua historia não iria muito alem daquele casamento tranqüilo, e das tardes sentadas à varanda conhecendo mais da vida através dos olhos da linda moça que trouxera ao mundo.

Faria trinta anos de casada naquele mês, mas a vida, ou melhor, a morte levou seu melhor amigo. Em seu leito ouvira do rapaz tímido a confissão de arrependimento por nunca ter-lhe dado mais do que aquela vida, em um ultimo pedido disse sorrindo a esposa: prometa-me que será mais feliz. Então ela o viu cerrar os olhos sorrindo, enquanto suas mãos deixavam as dela.

Restou-lhe da vida, a varanda, onde agora sozinha esperava pelo começo e o termino de mais um dia. Foi assim durante alguns meses, mas filha observando que mãe lhe parecia ainda mais triste e sozinha do que o de costume, sem nem mesmo consulta-la matriculou-a em uma escola de dança. Por insistência, convenceu a mãe a participar, no primeiro mês para incentivá-la foi seu par nas aulas, e quando percebeu que ela tomara gosto pela “coisa”, uma noite inventou um compromisso que a fez ir sozinha. Sem par, um senhor a tirou para dançar, tratava-se de um jornalista aposentado, já o tinha visto algumas vezes pela cidade, mas nunca repara em nenhum outro homem; Mesmo ressabiada e contida, aceitou o convite.

Logo que os corpos se encontraram, ela sentiu um doce perfume amadeirado que lhe fez automaticamente fechar os olhos, ele transpassou a mão em sua cintura e a conduziu pelo salão, foi a primeira vez que sentiu os pés saírem do chão, a cabeça entontecer, e o corpo em transe como se a musica à invadisse desde a essência de sua alma.

Saiu da aula cantarolando uma melodia, lembrando do cheiro de seu par, hora cerrava os olhos para sentir no corpo a sensação que lhe era novidade.

Ao chegar em casa e olhar-se no espelho sorriu para si mesma, adormecendo ansiosa, imaginando se ele a convidaria no dia seguinte para uma outra dança.

Dançaram novamente na noite seguinte, e com o passar dos dias os corpos iam aproximando-se involuntariamente. Ele começou a acompanhá-la ate sua casa, conversavam sobre todas as coisas, e sorriam com uma cumplicidade irradiante, numa noite a beijou e então ela experimentou um sabor novo, atônita quase não dormiu, estava apaixonada, e mesmo sentindo-se um tanto boba por um sentimento novo entregou-se aquela nova experiência.

Na noite seguinte ao beijo ele não foi a aula, desiludida e sentindo-se ridícula por acreditar naquele velho que agora lhe parecia um assanhado aproveitador, voltou para casa com o pensamento de desistir das aulas, e esquecer de uma vez por todas as horas que passara ao lado daquele homem que lhe despertara mais do que paixão, lhe despertara a vida.

Tomou um longo banho e deitou, quase adormecida começou a ouvir uma melodia conhecida, era a musica que dançara com ele pela primeira vez, não deu importância, imaginando que estava a sonhar, não era sonho, seu par estava a porta de sua casa, na mesma varanda cercada de silencio, acompanhado de dois amigos a lhe fazer uma serenata.

 Encantada esperou o fim da canção, e logo correu ao encontro de seu par o qual sem pestanejar lhe pediu em casamento, com o coração ainda aos pulos, ela aceitou.

Momentos antes da cerimônia a filha lhe perguntou se ela se arrependera de não ter vivido todo aquele encantamento na juventude, ela então do alto de sua sabedoria, respondeu-lhe: negativamente, acrescentando que não existe momento pré-determinado para ser feliz, sentimento que os anos são incapazes de envelhecer.

Nunca é tarde!

D.S.L

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Autor: ela...

Elaine. Ela. Helena. 17. Setembro. Há alguns anos atrás. Ascendente em peixes. Brasil. Santista de nascimento. Baiana de descendência. Mineira de coração e endereço. Muitas e de muitos tamanhos. Letras, palavras, frases. Nossa Senhora Aparecida. Família. Música. Sol. Brisa. Luar. Prefiro mar. Branco. Tenho uma irmã mais nova. Minha maior paixão tem mais de 100 anos. Abraço. Meu pensamento é hiperativo. Tenho os melhores amigos. Cometo ao menos um erro todos os dias. Converso com Deus. Já mudei de emprego três vezes, já mudei de vida outras varias. Por do sol. Não faço nada sem dois ingredientes: paixão e entusiasmo. Primavera. Beijo. Horizonte. Esperança. Cinema, quadros, composições. Já machuquei quem não merecia. Olhar. Exagerada e sensível. Carente. Bagunceira. Transparente. Meu primeiro livro publicado e grande orgulho: Quando Florescem as Orquídeas. Tenho um blog e uma coluna semanal em um jornal do interior. No mais sou abençoada. Sei dizer apenas que tudo passa!E que eu sou bem feliz! D.S.L

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