Frases simples e feitas

Às vezes demoramos anos para compreender frases simples e feitas.

Talvez não damos a devida atenção a elas, por que todo mundo as usa, e quando todo mundo faz uso de alguma coisa, acaba perdendo a graça, a importância, é como percorrer um caminho todos os dias para o mesmo lugar, certas coisas se modificam e nem notamos, afinal estamos acostumados com aquela mesma visão, o que nos cega pra perceber qualquer mudança.

Assim também funciona a vida, as vezes sonhamos tanto com uma mudança e quando ela vem, não percebemos de fato que ela esta ali, que aconteceu, que a realização pendente agora faz parte de nos.

Demorei anos para compreender a frase: Viver um dia de cada vez.

Ainda não consigo negar minha ansiedade, prova disso são as unhas carcomidas, o olhar as vezes distante medindo no nada tudo o que espero, mas tudo isso é humano, e a mim divino foi entender, confiar, respirar sempre muito fundo quando a velha ansiedade teimava em tirar-me o sono, e entoar como um mantra libertador e angelical: viva um dia de cada vez.

Deixei de querer viver no futuro, sempre utilizando nos inícios de pensamento ou de fala a palavra “quando”: quando isso acontecer, quando aquilo mudar, quando eu conseguir, quando aquele sonho chegar.

Quando compreendi que as coisas vão acontecendo e nos levando devagar aonde sonhamos, acalmei meu coração, e experimentei de uma espécie diferente de fé.

Tornei-me fã do hoje, do agora, do momento, transformei minha fobia por calendários e datas em pequenas realizações que vão acontecendo a cada segundo, sou quase proprietária de meu tempo, e essa fé no dia a dia tem me feito romper barreiras, calando fantasmas e canalizando energias para o momento mais importante: o agora.

O futuro é indispensável, pois existem sonhos que não conseguem acontecer de momento, é necessário planejamento, força, determinação, tempo, mas o futuro é muito longe e incerto, e porque não dizer as vezes cruel e ingrato.

No futuro pode acontecer daquele sonho chegar e lhe encontrar sozinho, sem as pessoas que sonharam a seu lado, pode ocorrer da vida levar alguém embora, ou simplesmente levar parte de nossa inocência, força, vitalidade e assim tudo perde um pouco do sabor. No amanha alguém pode não estar lá, e então o que nos restara além do gosto do sonho conquistado é a vontade incontrolável e impossível de abraçar, ouvir a voz, sentir o cheiro, e imaginar o sorriso largo e feliz de quem com toda certeza festejaria junto de você, isso é o futuro: não saber quem, nem onde, nem porque, menos ainda quando e em quanto tempo.

Aprendi a viver um dia de cada vez e acreditem não foi fácil, pois precisei andar de mãos dadas com minhas limitações, inquietações, com meus desejos intermináveis de mudança, e com minha transparente impaciência.

Viver um dia de cada vez é o mesmo que amar mais, abraçar com mais força, olhar com mais intensidade, manter a paz, sentir-se ainda mais leve a cada anoitecer por parecer inocente a consciência de saber: hoje vive mais um dia.

Viver um dia de cada vez é viver mais e feliz com tudo e com todas as pessoas que se tem agora, afinal toda saudade de qualquer momento a gente só tem noção da dor quando conhece o depois, portanto é assim que tem que ser: um dia de cada vez.

D.S.L


A bandeira do basta!

Nós demos poder a eles, liberdade, uma segunda, terceira, quarta chance, e ao contrario do que se esperava eles não deram chance alguma a vida, ao respeito, ao outro, talvez por burrice ou ingenuidade de nossa parte, afinal quem não ama a própria a vida, não será capaz de amar e cuidar, de qualquer outra coisa.

Sempre me pergunto diante desses crimes que nos chocam, a motivação que os levaram a acontecer.

A verdade é que não estamos seguros, perdemos direitos simples como pegar um ônibus, uma van, ir até o banco pagar contas, ir para a escola, somos prisioneiros de uma era sem paz e de muito sangue. Somos reféns de estatutos que protegem a criminalidade e a alimenta cada vez mais, espectadores numa espécie de transe de uma mídia que lamenta ferozmente a morte de um traficante exigindo direitos a quem sempre violentou seus deveres, somos ludibriados pelo sistema com pequenos “calas bocas”, ou melhor, “calas bolsas”, tudo esta comprado, e a fatura têm ficado cada vez mais alta e mais sombria.

O maior de todos os bandidos é o que se esconde, aquele que esta por trás de um colarinho, de uma religião, conhecedor da lei, aquele que usa o conhecimento para o mal, ou ainda, para o seu e tão somente seu bem estar, esses são como ratos, agem no escuro, em silencio, covardes, de uma falsa moralidade que enoja, são tão sem caráter que se dizem agir em nome de outra pessoa, não assumem, assustam, ameaçam.

Esse consumismo desenfreado sempre foi estopim para sentimentos de inveja, cobiça, avareza, o que deu a sociedade sua primeira ilusão: transformou-se em bandido, coitadinho, pois não teve saída, nasceu marginalizado e sem chances, burrice.

Ter cada vez mais e mais coisas, ter, ter, ter, você é o que veste, o que come, com quem anda, deixamos de ser aquilo que pensamentos, ou melhor, deixamos de ser como pensamos, deixamos de ser o que sentimos, deixamos de ser… As chances da vida nunca foram iguais, nunca serão, mas isso não pode mais ser usado como desculpa para criar monstros que muitas das vezes tem agido por pura maldade, e por serem respaldados por uma impunidade de leis.

Criamos vilões que se rebelam ao alvorecer, os marginais de hoje nada tem de utópico, não são bonitos, inteligentes, cultos como a décadas atrás quando os foras da lei lutavam ideologicamente por suas idéias, fazendo musica, poema, encenando teatro, naquela época o legal era ser politizado, era ler tantos e quantos livros a cabeça aguentasse,  ter uma opinião formada, ou melhor ser uma “metamorfose ambulante”, ser era o que valia. Eram uma cambada de marginais que iam contra o sistema ditatorial daqueles que deixaram a herança da impunidade se alastrar. O filhinho de papai, fútil, sem papo e burro não tinha espaço, hoje em dia ele é cultuado, essa é a conseqüência da ideologia do dinheiro, demos poder a eles, e hoje eles cospem em nossa cara decretando que estão acima do bem e do mal.

Nossos “marginais” de duas gerações atrás gostavam de aplaudir o por do sol, hoje eles assaltam a luz do dia, reuniam-se na praia ou em qualquer outro lugar para ver a noite, tocar violão, namorar, hoje se organizam para promover arrastões, invadir residências, perturbar o sono do trabalhador, estuprar, incendiar, e rir. Eles não sofrem e não se arrependem.

Ser honesto é distintivo de trouxa, o lance é levar vantagem, ser poeta é característica de “boiola”, o lance é levar a “mina” pro abatedouro, ter sonhos é ser bobo.

Estamos colhendo os frutos da nossa plantação de moedas de ouro: a falta de esperança, o sufoco no peito, o medo do outro. Os encorajamos a serem maus, a terem no coração uma violência gratuita e desnecessária, eles não conhecem a paz e a pré julgam como idiotice.

Quem pedira perdão a dentista queimada viva em seu local de trabalho por não ter mais de trinta reais em sua conta, quem sofrera pela moça estuprada por um adolescente de dezesseis anos (que pela nossa lei é incapaz de saber o que estava fazendo) dentro de um ônibus, pela estrangeira também estuprada, torturada e assaltada dentro de uma van, quem defendera as vitimas sexuais de um pastor que se esconde atrás da fé alheia, quem nos protegerá do silencio do Executivo, Legislativo e Judiciário diante desse folhetim que esta longe de ter um final feliz? Quem levantara a bandeira do basta? Quem?

“Sua maldade então deixaram Deus tão triste” (Renato Russo)

D.S.L