Sobre casas, brinquedos e biologia

Com licença poética de Rafael Tavares Costa, Juiz de Fora, 29/09/2008

Acreditamos que somos um quebra-cabeças de carne e ossos. E sendo céticos, medrosos, é mais simples e menos assustador acreditar que somos, realmente, um quebra-cabeças de carne e ossos.
Por que dói enxergar o humano como espírito. Dá medo crer que existe algo incalculavelmente maior do que biologia. Mas existe. Não somos pura biologia. Hoje, e também há algum tempo, eu decidi tentar não ser só biologia.
Nada seria mais difícil para mim, sendo eu capricorniano, cético e pragmático, atento ao que é visível, palpável; e sempre displicente com tudo aquilo que eu sinto, do que atentar ao invisível, experimentar sensações, me entregar de olhos fechados e alma aberta à alguém. Dá medo fazer isso. Sentir dá medo. Amar assusta. Em relação ao amor, seremos sempre recém nascidos amedrontados com esse mundo grande que em nada se parece com nosso casulo.
Não deveria ser assim, deveríamos nos entregar ao mundo e fazer parte dele, e não nos esconder. Nos escondemos por que, medrosos, acreditamos somente na biologia, nas necessidades fisiológicas, na atração sexual sem amor e no amor sexualizado.
Não é errado transar, nem transar por transar. Mas o melhor do sexo não é uma perfeita e espetacular demonstração de experiência sexual, o melhor do sexo não está na matéria, no encaixe de dois corpos, isso também é bom, mas o que realmente importa são os olhos que se encontram, os espíritos que se enxergam. A biologia importa, mas é a entrega espiritual que dá o significado do ato. Mas deixar-se ver, por dentro, sem barreiras, sem armaduras, sem ombros armados ou pulsos fechados, dá medo. Mas vale a pena.
Ninguém disse que amar seria fácil. E, honestamente, não deve ser. Muitos acreditam que amar deveria ser simples, sem pressão, sem dor, sem altos e baixos. Mas sem dor, não há aprendizado. E amar é aprender. “Amar es combatir”. É ter medo de perder alguém e, devido a isso, chorar na frente de todos, no meio de uma festa, no meio da rua. Para nós, “biológicos”, isso se chama fraqueza. Hoje, pra mim, isso é a maior demonstração de honestidade e coragem que existe. Só quem tem coragem ama, só quem tem coragem se entrega sem bloqueios, sem limitações. Não estou falando de fazer de tudo e aceitar tudo para se ter alguém, não é o caso, falo sobre um encontro de pessoas que confiam uma na outra, tanto que os muros pessoais desabam e não há mais quartos trancados. Todo ser humano é uma casa, e ninguém quer morar sozinho.
Há algum tempo, eu abri a porta da minha casa para alguém, convidei pra entrar. Hoje, exatamente hoje, eu estou dando a chave pra ele. Não é uma questão de me submeter à alguém, não é obediência; eu me sinto bem, feliz, oferecendo a chave de mim, da minha casa, pra ele.
“Tornar um amor real é expulsa-lo de você pra que ele possa ser de alguém”.
Hoje eu descobri que amar é muito mais oferecer do que pedir. Engraçado que eu me sinto cada vez mais livre quanto mais eu me entrego pra uma pessoa em particular, eu me sinto mais honesto comigo mesmo.
Hoje é uma sexta-feira chuvosa, está frio, e, sem mais nem menos, meus olhos se afogam, muitos me chamarão de fracote. Mas eu nunca me senti tão cheio de coragem. E não é somente pelo bonequinho do Wall-E no meu guarda-roupa. Para os céticos, é só um boneco de um personagem de um filme. Mas não é. É a materialização de um dia, do primeiro dia, quando a minha mão e a dele tentavam se encaixar, se encontrar, enquanto na telona, coincidentemente, o personagem principal tentava fazer o mesmo com sua amada. Mas eu não sou mais um cético, eu não acredito em coincidências. Parece cena de filme romântico, e eu quero ser cineasta. E eu continuo não acreditando em coincidências.
Hoje eu estou disposto a amar, a dividir, a oferecer.
Definitivamente, eu não sou um quebra-cabeças de carne e ossos. Ainda bem, não existe nenhuma peça faltando, nenhum pedaço ainda não montado. Existe alguém que encontrou alguém, mais do que biologicamente, encontrou alguém pra se olhar nos olhos sem medo, sem muros, sem armaduras.
Meus olhos se afogam de novo. De felicidade. Vem aquele choro e em seguida aquela respiração profunda e tranqüila, dizendo que a casa não está vazia…

“But it’s not too late for love, it’s not too late for love” – Norah Jones
D.S.L

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Autor: ela...

Elaine. Ela. Helena. 17. Setembro. Há alguns anos atrás. Ascendente em peixes. Brasil. Santista de nascimento. Baiana de descendência. Mineira de coração e endereço. Muitas e de muitos tamanhos. Letras, palavras, frases. Nossa Senhora Aparecida. Família. Música. Sol. Brisa. Luar. Prefiro mar. Branco. Tenho uma irmã mais nova. Minha maior paixão tem mais de 100 anos. Abraço. Meu pensamento é hiperativo. Tenho os melhores amigos. Cometo ao menos um erro todos os dias. Converso com Deus. Já mudei de emprego três vezes, já mudei de vida outras varias. Por do sol. Não faço nada sem dois ingredientes: paixão e entusiasmo. Primavera. Beijo. Horizonte. Esperança. Cinema, quadros, composições. Já machuquei quem não merecia. Olhar. Exagerada e sensível. Carente. Bagunceira. Transparente. Meu primeiro livro publicado e grande orgulho: Quando Florescem as Orquídeas. Tenho um blog e uma coluna semanal em um jornal do interior. No mais sou abençoada. Sei dizer apenas que tudo passa!E que eu sou bem feliz! D.S.L

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