“É necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não saímos de nós.” José Saramago está certíssimo, mas estar em Ilha Grande e por ela ser tocada é uma travessia necessária.
Após cruzar o velho píer, tudo fica longe: títulos, diplomas, carreira. Estar na Ilha é voltar a ser fagulha de brisa, libertando a pele de tanta casca, é permitido abandonar os escudos tão utilizados para sobreviver, assinando um único decreto: viva! Pensamento solto, incendiado por toda sua luz inspiradora, criadora e genuína, abraçando a beleza. Reencontrando todos os encantos roubados pelos grandes centros, na cidade sempre apressada; estar na Ilha é voltar para dentro.
Sair do continente, e abandonar a aflição por um amanhã que não se pertence, da vida guiada pelo relógio, pelo acelerar de tudo, de tantas urgências, ingressar em uma realidade silenciosa que permite um mergulho necessário de profundidade em si, o qual se torna cada vez mais raro, pois tudo está conectado, mas isso também tem sido uma porta de fuga para amenizar sentimentos.
Estar na Ilha, é aniquilar os ruídos do mundo, sem trânsito, sem pressa, sem sirene assustadora, permitindo aos pés caminharem sem sapatos tão apertados por suas ruelas e vilas, as mãos sem tantas obrigações, as costas desarmadas, livre do peso dos dias, largar o cansaço rotineiro de uma vida que parece exigir respostas e produtividade a todo instante; despir-se do uniforme diário que de tão usado cotidianamente dá a sensação de ser uma segunda pele. Despertar com a luz da manhã que se lança pela janela através da cortina desejando bom dia, um sutil convite para ver o mar, para sentir o cheiro úmido da mata, para ouvir os próprios passos, um de cada vez, que caminham devagar em busca de cada vez mais beleza.
A Ilha não é só grande, é infinita.
D.S.L.A.

