Continuo gostando de poesia, dizem que permanecer embelezando a vida com palavras que sonham é cada vez mais raro depois de alguns anos, mas para não embrutecer tento limpar a poeira do tempo com tudo e todas as forças a fim de manter o peito aberto, ao vento, pronto. Endurecer o coração não é o meu papel, ainda que os dias tentem engaiolar o encanto, as asas da fé se agigantam derrotando tristezas, culpas, permito-me sonhar, e às vezes é o que basta: o sonho, genuíno e inocente!
O amor continua sendo o protagonista de minha vida, de minha história, eis a minha bandeira, e escudo contra o caos.
Caminhando sob a luz do amanhecer, às vezes entrego a algum anjo desavisado uma lágrima, entrego-me, acho medonha a ditadura da realidade decretar que o choro é fraqueza.
Permaneço fiel à luz tão efêmera dos finais de tarde, a qual embala a chegada das estrelas em um ciclo diário de esperança, as Três Marias cantam: confia, afinal, tudo é tão incerto.
Diante de qualquer pequena sombra de tristeza ou dor, mantenho firme a lembrança do mar, resgato seu cheiro, sua melodia, sua peculiar mistura de calma e força, e nessa espécie de toada tudo passa. Quando ao longe percebo a ameaça da desesperança, a criança à beira-mar desperta, apressa-se, corre pela areia, engole as escadas da torre com seus passos ligeiros e reacende o farol, a luz alcança minha embarcação, incendeia meus olhos, a criança acena, dança e com as mãos pequenas indica a direção enquanto grita à beira-mar:
– Segue em frente! Continua! Vai! Segue, que o porto logo chega, mesmo que você ainda não o veja, meu coração criança sente o quanto ele está perto, você também sente, só está com medo.
– Segue em frente!
D.S.L.A
