O que sei é quase nada, pouco, pouquíssimo, coisa rasinha, feito poça em calçada formada por chuva brava de verão, agua que logo evapora, tornando-se frágil após ter sido tempestade… As certezas que tive, ou que acreditei possuir foram todas embora, dolorosos adeuses que se despendem em uma espécie de raios luminosos de sabedoria e fé.
Meus cabelos, há algum tempo decretaram nascer brancos, fluem na fiel saga sagrada ordenada pelo rei tempo, não o temo, pois mutuamente nos respeitamos, ainda que em prece o peço que passe sem pressa, que me permita brincar e viver, e amar, e sonhar. Em oração peço que seja leve, enquanto me curvo as marcas que surgem por sua ordem natural e humana, estou morrendo diariamente, mas isso não me soa triste, pois a reza sussurra que não termina aqui, vida grande, enorme, incrível; o tempo me parece sorrir, dando-me amparo, fazendo-me crer que esta minha oração será atendida, pois ele pertence à sabedoria e o amor de um Deus.
Da vida, ah essa amiga louca, desvairada, que encanta, desespera, que passa gargalhando e sussurrando a cada novo dia que não sei nada. Sobre ela: mistério, magia, mesclados ao silêncio do amanhã, do tempo que abraça o instante presente. Às vezes, essa amiga louca me acalenta, noutras com toda força e crueldade estapeia-me ao chão, cuspindo, chutando, berrando minha ingratidão, apagando as luzes, pois por muitas vezes eu mesmo me lanço na escuridão, nos labirintos de meus pensamentos que ferem feito espinho, ela me deixa ali, e só me estende a mão quando recobro a consciência perdida por ilusões que alimento feito criança birrenta. Ao me redescobrir, ela me abraça, e juntas voltamos a iluminar os dias, a enfeitá-los, e então ela me confidencia seu grande segredo: um dia, minha criança, todos os sinais estarão verdes, todos os caminhos estarão abertos, não haverá dúvidas nas encruzilhadas, pois todas as estradas serão bonitas, basta esperar o momento certo para atravessar, meu grande mistério é aguardar a travessia.
D.S.L.A
