Somos todos iguais

Este é um caminho devastador e perigoso, foram estas as palavras! Para entende-las mais profundamente recorro ao dicionário, para ter real noção do quanto elas me assombraram, ou para traduzir o que elas dizem e assim verificar se é de fato verdade.
Não é um caminho fácil, disso não me defendo, muitas vezes solitário, noutras cercado de espinhos, incompreendido pela maioria, de difícil aceitação entre os queridos, e assustador a quem o destino lhe faz seguir. Porem é algo não escolhido, não optado, tão pouco sonhado por quem o vivi, é doloroso muitas vezes ver olhos tortos, envergonhados diante de uma condição imposta pela vida.
Com toda a verdade dentro de mim defendo-me dizendo que ninguém escolhe ser pobre, feio, burro, rejeitado, ninguém esta disposto a estar por “baixo” seja lá qual for a situação, difícil para qualquer ser humano ter que abaixar “a crista” diante de uma maioria gritando e te apontando como um erro. Por mais que nos outros caminhos você se posicione com dignidade, honestidade e compaixão, sempre terá alguém para apontar o que muitos chamam de “defeito”.
Este é um caminho devastador e perigoso, foram estas as palavras!
De fato não é o caminho mais belo, comparado à grinalda no altar.
Deus! Talvez seja por essa condição que lhe peço perdão há quase toda hora, muitas vezes me julgando indigna do teu amor, da tua misericórdia e dos teus olhos voltados a mim. Ninguém sabe quantas vezes já me perguntei: será que esse coração errante é devido a esta escolha da qual eu não tive chance de escolher? Será que este amor que procuro é mais um de meus sonhos, talvez a maior de todas as minhas utopias, pois por ser um amor entre iguais, talvez o maior dos pecados, como muitos julgam.
Jamais lutei contra minha essência, a não ser nas vezes que tentei ser diferente, nunca quis ser outro ser, mas que culpa tenho eu se meu desejo de amar se realiza entre iguais, entre formas equivalentes a minha.
Rodopio diante destes pensamentos, muitas vezes eles me acompanham nas madrugadas afora onde não festejo, mas na cama não consigo dormir.
Dura escolha não sendo minha. Duro caminho, mas sendo este o único pelo qual me imagino feliz, mesmo que para tantos outros, queridos, seja motivo de preocupação, vergonha e porque não dizer asco.
Perdi as contas de quantas pessoas já perdi por nua diante delas confessar essa minha condição, dói perder pessoas bem quistas por falta de tamanha incompreensão, dói ser rejeitado, dói não contar com uma conversa amiga ou com colo de mãe quando tudo acaba.
É um caminho devastador e perigoso! Foram estas as palavras!
Devastador é o mesmo que arruína! Então é mentira, pois o que mais penso é em construir, não prédios, grandes fortunas, ou um impérios, mas sim uma vida feliz, com tudo o que os ditos “normais”, ou até melhor que eles conseguem, pois quero ter como base não o poder ou o dinheiro, mas sim o respeito, a esperança e o amor acima de tudo.
Perigoso é o mesmo que prejudicial! Outra inverdade, pois se já fiz mal, foi com o coração destituído dessa intenção, afinal “quem nunca pecou que atire a primeira pedra”, prejudicial é este mundo doente, essas mentes doentes, que sem vida, só pensam em matar, roubar, destruir, enquanto eu penso em apenas viver, sorrir e ser feliz da forma que der, da forma que assim Deus quiser que aconteça.
É um caminho! Essas sim são as verdadeiras palavras, e como alguns dos caminhos da vida da gente, que tomam rumo sozinhos, como se preciso fosse acontecer, não digo ser um fado, mas sim um aprendizado, não só aqueles que os protagonizam, como também aos demais que se esquecem, que perante Deus, como Ele mesmo afirmou: “somos todos iguais!”
D.S.L

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Para recordar um amor do passado – Parte I

Nos encontramos naquele final de dia, onde o amarelo do sol cruzava-se aos poucos com o escuro da noite, uma estrela acompanhava perdida o anuncio do ultimo dia daquele ano, deste modo o céu se transformava em um grande bale de cores e vida, os anjos, o mundo, o futuro e o passado, presentes em meu pensamento e coração pareceram se entregar a todo aquele espetáculo, calando-se por aquele instante, onde a brisa do mar, a areia ainda quente, e minhas pegadas levaram-me para junto de ti. Não sentia pressa, pois havia esperado por aquele momento durante muito tempo, queria vive-lo, inteiro e sólido para que ficasse gravado em meu pensamento cada passo que me levava para você.
Quando a vi, toda a beleza daquela tarde desapareceu, meus olhos só sabiam olhar pra você, só procuravam por ti. Senti medo, pois estes olhos me suplicavam que eu liberasse as lagrimas que guardei durante todo esse tempo que vivemos distantes, porem o riso foi mais forte, a felicidade de esta r ali, caminhando ao teu encontro venceu as lembranças dos momentos em que só a saudade me fez companhia, toda a tristeza e solidão do meu coração deixaram de existir, quando te vi sorrir parei de ter medo.
Ele estava lindo, vestido de branco, mais parecia um anjo, o mesmo ser encantado que via em meus sonhos, não pertencia asas, mas facilmente fazia meus pés saírem do chão. Quando parei diante de seu corpo e vi seu sorriso tão de perto, senti seu cheiro doce e amadeirado como uma tarde de outono, quis libertar-me de toda ânsia que há anos me acompanha na busca de seu abraço, quis lançar-me sobre ele, agarra-lo como alguém que encontra uma chama num quarto escuro, quis falar-lhe em um minuto de toda a ausência, de todo o tempo, das noites, dos dias, dos meses que eu o procurara sem ter idéia de seu verdadeiro paradeiro. Calei-me, nada devia ser declarado naquele instante, não o abracei, mal olhei em seus olhos, temi, temi desfalecer tragada por toda a quela emoção, meu coração batia tão forte que parecia querer involuntariamente dizer algo a ele que nem mesmo eu sabia.
Eu não tinha idéia do que dizer a ela depois de tanto tempo, pensei em contar-lhe de uma só vez que a procurei na intenção de confessar o que já não sabia esconder,m o que eu não conseguia mais mentir pra mim mesmo, pensei em perguntar-lhe naquele instante quanto de mim ainda vivia dentro dela, mas calei-me, temi, afinal de contas ela mal olhou pra mim, parecia nervosa, fadigada, não sei, sei que temi, calei-me. Ela estava tão linda, tão simples como sempre, mas parecia uma princesa, vestida de branco, de um tecido leve que dava maciez a pele só de olhar, a sandália baixa e de cor clara dava a impressão de que estava descalça, os cabelos levemente cacheados, castanhos, com algumas mexas mais claras suavizavam-lhe a face, o rosto mais parecia um quadro, uma musica, uma obra de arte.Calei-me e fiquei a olhar pra ela. Calei-me
Com uma saudação simples, disse-lhe o quanto ele parecia bem, respondeu-me com um sorriso, estava feliz, por um momento pensei que talvez aquele sonho que persistia em mim, dizendo-me que ele ainda me amava, fosse mentiroso. Não havia marcas de dor ou sofrimento em seu rosto, sua face era límpida como aquele mar imenso e infinito diante de nos. Imaginei então que ele havia me procurado para talvez resgatar em nos um sentimento amigo, que com toda certeza é mais estável que o amor, sentimento este que eu não desejava, não vindo daquele coração.
Sentamos num desses quiosques a beira mar, começamos a conversar, falamos dos rumos que a vida tomou, das chances que o destino havia nos dado, cada um a sua maneira, tudo com ela estava muito bem, não contou-me tristezas, conseguira se formar, tornou-se medica como desde a juventude sonhava, falei de meu trabalho como jornalista, ela me revelou sorrindo que havia lido todos os livros que eu escrevera, comentou sobre as musicas de minha autoria, elogiou-me. Neste instante tive vontade de tocar seu rosto, pois ao falar ela sorria, seus olhos se apertavam como no tempo em que era vivo o nosso amor, sua boca, seus dentes perfeitos, senti angustia, queria beija-la, enquanto ela falava, eu me perguntava se o gosto do seu beijo havia mudado, passei a língua sobre os lábios rapidamente, minha boca salivava como quem esta sedento, fiquei tonto ao imaginar o toque de seus lábios nos meus, apenas sorri. Quase não falei, observava cada movimento que fazia ao falar. Parecíamos dois velhos amigos, que não se viam a tempos, nossa cumplicidade ultrapassou as barreiras da distancia e isso a fazia falar de pessoas, acontecimentos, amores, paixões, coisas que ela havia vivido com outro alguém e que não me interessavam em nada, pois maltratavam-me, afinal de contas era eu que devia ter vivido ao lado dela todos aqueles momentos. Ela não parava de falar, não que isso me incomodasse, é que diante tantos assuntos me pareceu não caber mais falar de nós, a conversa parecia não querer tocar naquele assunto, entristeci, senti vontade de correr, correr pra longe dela, ela já não era a mesma pessoa, não era aquela menina que me amava.

Para recordar um amor do passado – Parte II

Ele estava tão calado, eu não conseguia parar de falar, acho que isso o inibiu, ele sorria e me olhava, queira saber no que ele pensava enquanto sorria, talvez sorrisse descrente, acreditando que poderia estar em um lugar bem melhor, com outra pessoa, ao invés de ficar me ouvindo dizer coisas e mais coisas sobre a minha vida, que é ate bastante interessante, mas que é vazia, vazia por não telo a meu lado. Calei-me na esperança de que talvez o silencio o fizesse começar qualquer conversa sobre nos. Olhei no relógio e lembrei de como o tempo passava rápido quando eu estava com ele, sorri e então ele me perguntou do que ria, porem não quis responder, sorri novamente e então ele arriscou dizendo que eu havia lembrado de c omo o tempo passava rápido quando estávamos junto, não pude negar que ele havia acertado. A conversa sobre nos, foi mais uma vez adiada, pois o relógio marcava dezessete minutos para a meia noite. Hora do espetáculo, disse ele.
Levantamos da mesa. Eu não havia reparado, mas a praia já não estava deserta como na hora em que nos encontramos, as pessoas esperavam pelos fogos que iluminariam o céu anunciando a chegada de mais um ano, dividimos a conta por imposição dela, afinal de contas sou um romântico a moda antiga, sendo inaceitável que uma dama ajude nas despesas de uma passeio. Ela virou-se pra mim e disse que antes de irmos para o centro da praia precisava ir ao banheiro, enquanto eu a esperava pensava numa forma de me aproximar. Quando ela retornou eu nada tinha de concreto em meu pensamento para que tal aproximação acontecesse, porem num impulso, quase que desesperado, ergui minha mão em sua direção e olhando no mais profundo de seus olhos pedi: Venha! Ela veio. Quando sua mão tocou a minha, nossos olhos automaticamente se encontraram, com a mesma magia do começo de nossa historia, o encanto que eu imaginei ter se perdido no tempo, estava ainda mais vivo, ainda mais forte e doce. Os quatro anos passados distante dela não existiam mais.
Quando ele tocou minha mão, sorri, e sem que ele percebesse a caminho do píer, sequei uma lagrima que não pude conter.
Não conseguia pensar em nada para dizer a ela, só sentia minha mão junto a dela, estavam unidas, suadas, tremulas. A única frase que me vinha a cabeça era: eu amo você. Enfim chegamos ao píer, ela parou a minha frente, abracei-a devagar, sem força, a apertei em mim, cerrei os olhos, inalei seu cheiro, toquei seus cabelos, mal podia acreditar, meu corpo se arrepiou, estava em êxtase, ela passou as mãos lentamente em minhas costas enquanto me abraçava, não havia se esquecido do quanto eu gostava desse carinho, voltei a cabeça para o rosto dela e ainda abraçados, beijei-lhe a face, queria sua boca, mas ainda não tinha certeza de que era isso que ela também procurava, quando resolvemos dizer alguma coisa, os fogos subiram ao céu, como as estrelas cadentes que admirávamos juntos em um tempo antigo. Ela deixou meu abraço para admirar melhor os fogos, vi todo aquele colorido do céu passear naqueles olhos, em um momentos ela os fechou, sorriu e rodopiou no tempo, no ar, como um anjo que saúda uma benção, ouvi ela agradecer a Deus, não sei ao certo o que ela agradeceu, mas eu agradeci por estar ali, por estar com ela, por amar aquela criatura tão divina.
Quando abri os olhos e o via a minha frente, me olhando com o mesmo olhar de quanto tinha dezenove anos, a vida novamente pareceu se resumir em nos, naquela nossa historia, nesse nosso amor de sempre. Permiti que a primeira lagrima deixasse meus olhos, o abracei dizendo: Feliz Ano Novo. Passei a mão em seu rosto e então meus dedos se depararam co m uma gota de amor, de saudade, de felicidade. Olhamo-nos mais uma vez e então o beijei, e beijei, e sussurrei em seu ouvido toda a saudade, todo o amor.
Depois que ela me disse tudo o que mantinha em segredo no seu coração, gritei para ela, para o ar, para o tempo, para o mundo, para a distancia que eu a amava, tomei-a em meus braços novamente e rodopiei com ela em riste, toda a noite se iluminou, ela mais parecia um anjo e junto a todas aquelas luzes, imaginei estar no céu por um instante.
Ficamos juntos ate o nascer do sol, sorrimos, sonhamos, traçamos um futuro, novos dias, sem todo aquele sufoco de todas as noites, sem o tormento de não saber um do outro, tudo estava tão perfeito, temi.
Caminhamos para o hotel, não me cansava em sorrir, o brilho nos olhos dela era tudo o que queria ver pro resto da vida, todos os dias. Adormecemos exaustos de tanto amor, de tanta vida, relutei em dormir só pra continuar olhando para ela, mas o sono chegou sor rateiramente, adormeci.
Acordei sorrindo, o procurando na cama, ele não estava. Chamei seu nome, ele não respondeu.
Mal abri os olhos, meus braços a procuraram, a cama estava vazia, sorrindo levantei e caminhei ate a janela, estava em minha casa e a vista não dava para o mar, não estava em hotel, o cheiro dela não existia nos lençóis que cobriam minha cama.
Mais um sonho. Tenho que parar de pensar nele. Vai ver ele nem se lembra de mim, não depois de tudo o que houve.
Ainda na janela chorei desesperado, mais um sonho, lamentei. Nada alem de um sonho
Duas pessoas que ainda se ama, mesmo sem saber, podem sonhar o mesmo sonho.

"Está escrito: As coisas que o olho não viu e o ouvido não ouviu. E não subiram ao coração do homem. São aquelas que Deus preparou para os que o amam" I Corintios 2-9

A “menina” das fitas coloridas

A “menina” das fitas coloridas,
Que pensa rodar no infinito…
Assim ao olhar o céu não sabe ao certo distinguir seus laços dos traços de seus pés que dançam…

A menina das fitas…
Olhos redondos
Tímida

Roda, gira, olha como bailarina!

Brinca menina, brinca com a vida!
Pois Deus lá do céu te abençoa com o olhar, fazendo o vento calar para que as tuas fitas não se enrolem com os caminhos da vida.

Dança menina!

Mostra teu encanto através destas fitas coloridas, permita que elas brinquem com os raios de sol, ou faça com que as estrelas rodopiem sobre a tua noite, sobre a tua vida!
Brinca, brinda, canta, canta forte a vida…

Esquece do choro.
Do coração tolo que explode no vazio à espera de alguém que se tu não sabes esta bem perto de cruzar teus caminhos!

Brinca menina…
Pois teus sonhos concordam com os traços deste destino de infinita esperança e amor
D.S.L

Sobre casas, brinquedos e biologia

Com licença poética de Rafael Tavares Costa, Juiz de Fora, 29/09/2008

Acreditamos que somos um quebra-cabeças de carne e ossos. E sendo céticos, medrosos, é mais simples e menos assustador acreditar que somos, realmente, um quebra-cabeças de carne e ossos.
Por que dói enxergar o humano como espírito. Dá medo crer que existe algo incalculavelmente maior do que biologia. Mas existe. Não somos pura biologia. Hoje, e também há algum tempo, eu decidi tentar não ser só biologia.
Nada seria mais difícil para mim, sendo eu capricorniano, cético e pragmático, atento ao que é visível, palpável; e sempre displicente com tudo aquilo que eu sinto, do que atentar ao invisível, experimentar sensações, me entregar de olhos fechados e alma aberta à alguém. Dá medo fazer isso. Sentir dá medo. Amar assusta. Em relação ao amor, seremos sempre recém nascidos amedrontados com esse mundo grande que em nada se parece com nosso casulo.
Não deveria ser assim, deveríamos nos entregar ao mundo e fazer parte dele, e não nos esconder. Nos escondemos por que, medrosos, acreditamos somente na biologia, nas necessidades fisiológicas, na atração sexual sem amor e no amor sexualizado.
Não é errado transar, nem transar por transar. Mas o melhor do sexo não é uma perfeita e espetacular demonstração de experiência sexual, o melhor do sexo não está na matéria, no encaixe de dois corpos, isso também é bom, mas o que realmente importa são os olhos que se encontram, os espíritos que se enxergam. A biologia importa, mas é a entrega espiritual que dá o significado do ato. Mas deixar-se ver, por dentro, sem barreiras, sem armaduras, sem ombros armados ou pulsos fechados, dá medo. Mas vale a pena.
Ninguém disse que amar seria fácil. E, honestamente, não deve ser. Muitos acreditam que amar deveria ser simples, sem pressão, sem dor, sem altos e baixos. Mas sem dor, não há aprendizado. E amar é aprender. “Amar es combatir”. É ter medo de perder alguém e, devido a isso, chorar na frente de todos, no meio de uma festa, no meio da rua. Para nós, “biológicos”, isso se chama fraqueza. Hoje, pra mim, isso é a maior demonstração de honestidade e coragem que existe. Só quem tem coragem ama, só quem tem coragem se entrega sem bloqueios, sem limitações. Não estou falando de fazer de tudo e aceitar tudo para se ter alguém, não é o caso, falo sobre um encontro de pessoas que confiam uma na outra, tanto que os muros pessoais desabam e não há mais quartos trancados. Todo ser humano é uma casa, e ninguém quer morar sozinho.
Há algum tempo, eu abri a porta da minha casa para alguém, convidei pra entrar. Hoje, exatamente hoje, eu estou dando a chave pra ele. Não é uma questão de me submeter à alguém, não é obediência; eu me sinto bem, feliz, oferecendo a chave de mim, da minha casa, pra ele.
“Tornar um amor real é expulsa-lo de você pra que ele possa ser de alguém”.
Hoje eu descobri que amar é muito mais oferecer do que pedir. Engraçado que eu me sinto cada vez mais livre quanto mais eu me entrego pra uma pessoa em particular, eu me sinto mais honesto comigo mesmo.
Hoje é uma sexta-feira chuvosa, está frio, e, sem mais nem menos, meus olhos se afogam, muitos me chamarão de fracote. Mas eu nunca me senti tão cheio de coragem. E não é somente pelo bonequinho do Wall-E no meu guarda-roupa. Para os céticos, é só um boneco de um personagem de um filme. Mas não é. É a materialização de um dia, do primeiro dia, quando a minha mão e a dele tentavam se encaixar, se encontrar, enquanto na telona, coincidentemente, o personagem principal tentava fazer o mesmo com sua amada. Mas eu não sou mais um cético, eu não acredito em coincidências. Parece cena de filme romântico, e eu quero ser cineasta. E eu continuo não acreditando em coincidências.
Hoje eu estou disposto a amar, a dividir, a oferecer.
Definitivamente, eu não sou um quebra-cabeças de carne e ossos. Ainda bem, não existe nenhuma peça faltando, nenhum pedaço ainda não montado. Existe alguém que encontrou alguém, mais do que biologicamente, encontrou alguém pra se olhar nos olhos sem medo, sem muros, sem armaduras.
Meus olhos se afogam de novo. De felicidade. Vem aquele choro e em seguida aquela respiração profunda e tranqüila, dizendo que a casa não está vazia…

“But it’s not too late for love, it’s not too late for love” – Norah Jones
D.S.L

“tipo VIP”

Lembra daquela noite que você me trouxe quase até a minha casa?
Então, você não sabe mas foi naquele momento, onde a gente estava embaixo daquela arvore se despedindo que você me conquistou. Disso você não sabe!
E se eu te contar que você me conquistou na hora em que olhou pra mim desse jeitinho que você sabe me olhar as vezes, como se carregasse toda a ternura do mundo nesses olhos tão profundos e me disse a seguinte frase:
_ Você não vai me dar um beijo?
Quase morri com aquela sua carinha.
Parece não ser, mas eu sou o bicho mais tímido pra essas coisas de tomar iniciativa, e como aquela era a primeira vez depois da gente ter se encontrado, e você ter parado de bancar o difícil, eu fiquei com medo, por que talvez você só estivesse ali querendo minha amizade.
Enfim, acho que agora é só isso que você quer de mim…
Mas voltando ao assunto da arvore, hoje eu passei por ela, e tive uma louca vontade de abraça-la, porque eu venho dizendo que não, e bancando a durona, mas eu queria tanto que a gente tivesse dado certo, você é especial e nem sabe o quanto estava ficando importante pra mim, tipo VIP mesmo aqui no meu coração, mas de repente você quis ir embora, e daí quem ficou assustada fui eu, porque você não é mais criança pra ficar com medinho de fantasma, ou de bicho papão, ou de mim, ou de tudo o que eu sonhei em te dar. Mas você foi embora, e quando alguém quer ir embora da minha vida, eu não peço pra ficar não, porque eu acredito demais no livre arbítrio, e procuro interferir o menos possível nessa verdade de cada um.
Mas voltando ao assunto da arvore, eu quase que não me contive, a verdade é que é do teu abraço que ando sentindo falta, do teu cheiro doce, das tuas mãos pequenas envoltas nas minhas, dos teus risos fáceis, das tuas paranóias, das nossas conversas sempre tão cheias de vida, poesia, encanto, dos teus beijos que eu desejei tanto.
É lamentável que você tenha querido ir embora, pois eu já tinha sonhado um mundo feito pra nós.

D.S.L 

Você colocou cordas no meu violão

Faltavam cordas, é fácil imaginar um violão sem cordas, guardado num canto qualquer, inutilizado, sem vida, sem cor, sem musica, sendo que este é feito pra fazer som, transformar momentos em grandes acontecimentos, trazer vida, alegria, desabafo. Eu tinha um violão obsoleto, sem cordas, e mesmo com toda a vontade de toca-lo, senti-lo entre meus dedos, rente a meu corpo, prometendo sempre arrumar alguém para colocar as benditas cordas que lhe faltavam, e daí então quem sabe encarar horas de aprendizado pra toca-lo, com maestria, e sair por ai, pela vida, pela noite, com a viola debaixo do braço, a lua a iluminar meus dedos, o coração a ritmar o som… Mas é impossível tocar um violão sem cordas, e por mais que fosse triste vê-lo ali naquele canto, dentro de uma caixa velha, empoeirada, rasgada, obsoleto, não fazendo jus a toda a sua beleza, a todo encanto, a tudo o que ele era destinado a oferecer a vida, era necessário colocar cordas antes de mais nada!
E assim como quase tudo em minha vida, eu esperava, mesmo quase que gritando a todos: “alguém, por favor, coloque cordas em meu violão novo!”, ninguém nunca o que quis fazer, promessas foram feitas, quem sabe de uma próxima vez pensava eu, afinal todos achavam triste ter um violão tão bonito, novo, pronto, mas sem cordas.
Eu apenas esperava! Muitas vezes o tirava da caixa e ficava a encara-lo, e pensava comigo: sozinha eu não consigo, de fato colocar cordas em um violão é algo muito difícil, preciso de alguém que me ajude, sozinha eu não dou conta.
Minha mãe uma vez chegou a me dizer: “Elaine, dá esse violão pra alguém, já que você não sabe tocar! Ele é tão bonito, novo, é um desperdiço deixa-lo jogado, sem cordas, violão não empena? _ Não sei mãe, eu pedi pra alguém colocar cordas! E daí quando ele estiver pronto, vou entrar na aula e aprender a tocar!
Mas eu esperava, não sei ao certo porque, ou pelo que!
Eis que quase sem querer, sem perceber, sem sonhar;
Acompanho seus passos na subida da escada, e de repente, como quem brinca, você me pergunta:
Cadê seu violão sem cordas?
_ Ta lá em baixo! Guardado!
Pega ele!
_ Pra que? Ta sem cordas!
Pega!
Eu te vejo toca-lo com suas mãos pequenas, brancas, tremulas, tímidas como quase tudo em você parece ser, eu parei os olhos naquele momento pra observar teu toque cuidadoso, medroso, como quem caminha por uma estrada cheia de curvas, como quem já não acredita que pode, sem mapa, assombro diante de tudo, riso tímido em meio a esse meu mundo, tão louco, tão vivo e intenso.
Parei meus olhos naquele momento, e tuas mãos pequenas, brancas e quentes deslizavam entre as curvas daquele corpo tão pronto, mas sem vida, o teu silencio fez musica naquele instante, e eu, quase que sem acreditar vi você colocar cordas no meu violão, uma por uma, sorrindo muitas vezes, virando os olhos noutras, fechando os mesmos para lembrar do jeito correto, pacientemente, sabiamente, precisamente.
Você não sabe o que fez!
Hoje o dia enlouqueceu! Deus assim como eu, comemora! Transformando o céu num palco, com luz, chuva, calor, sol, lua, brisa, raios, trovões, estrelas, tudo ao mesmo tempo, tudo o que é belo, forte, sentido, sem porque, sem saber, como um quadro, como cena de filme, final de novela; Deus comemora comigo!
E o violão, agora será tocado, enfim pronto, vivo, cheio de luz, ainda sem som, mas perfeito para ser tocado, ciente de que não será fácil, mas encantado, e pronto, para sem mais demora, viver aquilo para que ele foi destinado.
Você colocou cordas no meu violão, e até dedilhou algumas notas, sem perceber tocou bem mais, muito mais, quase sem saber, meio que sem jeito ainda, pois dá medo começar de novo, sentir de novo, viver de novo, ainda mais quando tudo surge assim, como uma musica sem partitura! Eu te peço cuidado, mas ouça o chamado, feche os olhos e toque apenas as notas que partirem do teu coração ritmado…
D.S.L

E.T: Você colocou as cordas, e agora pronto ele precisa ser tocado, mesmo que não seja por ti